Escrito por José Pedro Jorge Filho*

Dois casos de morte súbita durante competições de triatlon, um deles nadando e outro correndo, num espaço de apenas 14 dias e no mesmo local, um condomínio de luxo próximo a Belo Horizonte, levam a cíclicas conjecturas sempre que isto acontece: até que ponto os exercícios são benéficos, e a partir de que ponto se tornam um excesso e um risco? Onde está o limite entre prevenir doença e provocar doença?

Desde que na década de 50 ficou demonstrado em Londres que os trocadores dos ônibus de dois andares, que trabalhavam subindo e descendo escadas, tinham melhor saúde cardiovascular que os respectivos motoristas que ficavam apenas sentados dirigindo,e que o mesmo ocorria com os carteiros comparados com seus colegas dos correios que eram funcionários administrativos sedentários (1), as evidências dos benefícios da atividade física regular têm se mostrado crescentes e inequívocas.

A atividade física tem sido prescrita para os adultos urbanos não atletas, de vida sedentária (mais de 70% dos moradores das cidades brasileiras) como parte de hábitos de vida considerados saudáveis. Melhora os níveis de pressão arterial, da glicose e dos lípides do sangue, ajuda a perder peso e combate a depressão, dentre vários outros benefícios que levam seu praticante a ter melhor qualidade de vida, e também a prolongar seu tempo de vida.

Para se obter estas vantagens, os limites mínimo e máximo seriam os seguintes:

Já se perde o rótulo de sedentário com um mínimo de 700 calorias gastas por semana em atividade física. Para um homem de 70 kg, e usando como exemplo o mais universal dos exercícios que é a caminhada, seria andar em meia hora a distância de 2,5 kilômetros, três vezes por semana. Não é grande coisa, mas já dá pra sair da turma dos Homer Simpsons.

A partir daí os benefícios seriam crescentes, até um limite máximo de 2000 calorias gastas em atividade física por semana, o que se consegue percorrendo a pé 30 kilômetros por semana, divididos em 5 a 6 dias. (exemplo: andar 5 a 6 kilômetros em 60 minutos ou correr a mesma distância em 30 minutos). A partir daí não haveria benefício extra em termos de melhor saúde cardiovascular. Para os já referidos adultos urbanos não atletas seria o máximo necessário e suficiente.

Quem quer passar disto é porque tem outros interesses adicionais, como melhor condicionamento para poder participar de esportes aeróbicos e competitivos, por exemplo. Mais pelo gosto do que pela necessidade. Sem perder de vista os riscos decorrentes dos extremos : contusões e estiramentos, microfraturas de stress, e a temida morte súbita cardíaca.

O risco de morte súbita cardíaca em maratonas é de 0,8 para 100 000 participantes. No triatlon, é quase o dobro, de 1,5 para 100 000 participantes. Estes dados, recém apresentados no Congresso do Colégio Americano de Cardiologia de 2009(2), mostram dois detalhes surpreendentes: não houve diferenças no índice de mortes nos mais variados “tamanhos” de triatlon, cujas provas têm inúmeras combinações de distâncias de percurso. E a maioria absoluta (13 casos em 14) das mortes ocorridas na série apresentada nos EUA, que abrangeu um período de quase 3 anos, ocorreu na fase de natação da prova.

A morte súbita cardíaca em competições pode ocorrer tanto em atletas bem treinados quanto em “weekend warriors” como são chamados em língua inglesa aqueles atletas de fim de semana. Entretanto, foram observadas em desfavor destes últimos alterações preocupantes na função ventricular ao ecocardiograma e nos níveis sanguineos de troponina, um marcador de necrose do músculo cardíaco, logo após o término de uma maratona. Um estudo (3) feito assim que participantes amadores cruzavam a linha de chegada da maratona de Boston, mostrou níveis de troponina tão elevados quanto os que os serviços de urgência em cardiologia consideram para diagnosticar infarto do miocárdio. Outro estudo confirmou achados semelhantes (4) .

Na faixa etária acima de 50 anos, em 108 maratonistas “recreacionais” (não-profissionais) aparentemente saudáveis, e com testes funcionais normais, 4 tinham calcificações coronárias e tiveram eventos cardíacos nos 3 anos seguintes (5).

Mesmo considerando indivíduos jovens, abaixo de 35 anos, podem ser observadas mortes súbitas durante competições esportivas, como os mais de mil casos (1 101 para ser exato) coletados pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) num período de 38 anos, apenas nesta faixa etária. Destaque-se porém que em todos estes casos foi diagnosticado ( na maioria infelizmente o diagnóstico era post-mortem, na necropsia) algum problema cardíaco, seja congênito ou adquirido, nestes últimos podendo ser crônico ou agudo, incluídos distúrbios degenerativos e inflamatórios.

Os atletas de elite, além de dedicarem todo o seu tempo profissional ao treinamento, têm equipes estruturadas capazes de diagnosticar problemas não só numa única avaliação pré-participação, mas em exames seriados ao longo da carreira do atleta. Além disto, têm toda uma estrutura de profissionais de apoio, que dosam judiciosamente a qualidade e a quantidade de cada caloria que eles ingerem, dentre outros inúmeros cuidados. Não sofrem as pressões do dia a dia do trabalho burocrático, não fumam ou bebem, dormem cedo, etc, etc, Tal não sói acontecer com os “não-elite”, ou amadores, que se arvoram em participar de maratonas e triatlons, competições estas que a meu ver deveriam ser reservadas aos atletas de “elite”. Aliás, estabeleci um limite de segurança para os meus pacientes não atletas profissionais: se tudo estiver bem nos exames,e após treinamento e acompanhamento adequados, libero para o limite máximo de meia maratona. Certa ocasião, cheguei a ponto de convencer um destes guerreiros a desistir da maratona de Berlim, com a inscrição já paga!

Portanto, na atividade física, assim como em tudo na vida, a virtude está no meio, e só se tem a ganhar evitando-se os exageros. 1. MORRIS J.N. et al : Coronary heart disease and physical activity of work. Coronary heart disease in different occupations. Lancet. 1953: 1053-1057. 2. HARRIS K. presented at the American College of Cardiology (ACC) 58th Annual Scientific Sessions, 2009. 3. NEILAN T. G. et al : Myocardial injury and ventricular dysfunction related to training levels among nonelite participants in the Boston Marathon. Circulation. 2006;114: 2325-2333. 4. STACY E.F et al: Elevation of myeloperoxidase in conjunction with cardiac-specific markers after marathon running. Am J Clin Pathology. 2006;126(6):888-893. 5. MÖHLENKAMP S et al : The risk of coronary events: prevalence and prognostic relevance of coronary atherosclerosis in marathon runners. European Heart Journal. 2008;29(15):1903-1910

* É médico cardiologista.

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