Escrito por Marco Antônio Becker*

 

Não fosse o Brasil um dos países mais violentos do mundo, com índice de homicídios que supera em aproximadamente 20 vezes a taxa verificada nos países europeus, sem contar o comportamento agressivo de motoristas, contribuindo fortemente para a perda de muitas vidas, até se poderia entender essa reação contra uma pesquisa que busca aprofundar e ampliar o conhecimento sobre os fatores geradores da violência.

Não sei exatamente o que move os oponentes da proposta de estudo liderada por pesquisadores respeitados. Esses críticos de plantão talvez nem eles mesmos saibam por que são contrários a um trabalho que visa unicamente a identificar os fatores que podem estimular a agressividade.

São várias as alegações, nenhuma delas consistente, até porque realmente não têm conhecimento pleno do conteúdo do trabalho, que se encontra hoje sob análise dos comitês de ética de duas das mais importantes universidades brasileiras, a UFRGS e a PUCRS. A pesquisa somente será levada adiante se tiver a aprovação dessas instituições, a partir do exame sério e minucioso de especialistas, não de curiosos, muitos sem formação para opinar sobre tema tão complexo, mas que não vacilaram em empregar termos como “práticas de extermínio e exclusão”, referindo-se ao tema, como se adivinhassem a priori o resultado e projetassem as conseqüências desta pesquisa.

O fato é que ninguém com legítima preocupação social pode ser contrário a uma proposta que busca avaliar aspectos do funcionamento do cérebro e que possam ou não estar ligados a comportamentos violentos, sem ignorar estudos já desenvolvidos em outras áreas de cunho psicossocial, socioeducativo, entre outros. Ainda mais se esse trabalho obedecer a critérios éticos e científicos reconhecidos pelas convenções internacionais e exigidos pelo Comitê Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) e de acordo com as normas emanadas do Conselho Federal de Medicina.

Não podemos aceitar que posicionamentos radicais, fundamentados essencialmente em posições ideológicas, corporativas e dogmáticas, tentem impedir que uma pesquisa desse porte, uma vez aprovada, deixe de ser realizada. Afinal, não é possível esquecer que por trás de todos os avanços tecnológicos do mundo contemporâneo está sempre a pesquisa embasada na ética, tendo como finalidade precípua o bem-estar social.

Romper com paradigmas é um mister muito difícil, quase impossível, para quem se assenta sobre prejulgamentos e preconceitos inadmissíveis.

* É conselheiro federal e presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers). 


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