Escrito por Silvana Martani*

 

É interessante observar as crianças, seus movimentos, suas ações, sua forma de encarar a vida.Tudo para elas é muito simples, muito calmo e ao mesmo tempo muito urgente e agora. Tudo é o que parece, sem nenhum subterfúgio, sem segundas intenções, sem medo, livre e franco. Aprendem a ver o mundo devagar, olham a vida limpa, se encantam com tudo e se dão todas as chances. Criança é um poço de honestidade até quando faz o que não deve, não negam seus sentimentos, xingam com vontade, não fazem o que não querem e nunca estão preocupadas com que os outros estão pensando. Para ela os outros não pensam nada.

A responsabilidade para as crianças é uma coisa superficial, das tarefas delas cuidam os adultos e são eles que dizem o que elas devem fazer e, quando acham que está bom elas fazem, se não, se recusam ou negociam (estas certamente sabem crescer). O que norteia a vida das crianças é emoção e o prazer. Para elas não importa muito se está certo ou errado o que estão fazendo, o que importa é o que aquele sentimento lhe causa, lhes proporciona. Por isso quando gostam, gostam demais e quando não, odeiam. Crescer é um exercício complicado, envolve aprendizado constante, alegrias e sofrimentos. É como se elas tivessem uma antena parabólica ligada o tempo todo ou uma banda larga plugada em um mundo que precisa ser descoberto e vivido.

Estar com as crianças é rever a própria estória que não pode ser contada de qualquer jeito, pois neste caso o ouvinte é muito atento e exigente. Sim criança é exigente. Não ouve besteira ou incoerência sem reclamar, sem dizer que está errado ou que não entendeu, não faz média com ninguém apesar dos adultos entenderem que as crianças são as rainhas desse tipo de comportamento. Na verdade o adulto “ensina” a criança a chantagea-lo quando ele cede a um pedido choroso ou melado, a ser inconveniente quando não o repreende, a ser inadequada quando não sabe dizer ou sustentar um não.

A maioria dos pais vêem a educação e criação dos pequenos como uma tarefa, uma função, mas é muito mais que isso. Estar com as crianças não é só trabalho braçal, é renovação, aprendizado e além de tudo terapêutico. É terapêutico brincar, passear, conversar, observar, ouvir e educar. Tudo depende da forma como encaramos o papel de pais, como lidamos com essa responsabilidade, qual o peso que damos a isso. A maioria dos pais “carrega” essa responsabilidade com muita angústia, com muito medo de errar, mas as crianças têm o poder de mostrar muito rapidamente o que estamos fazendo de errado e sempre nos dão tempo de acertar.

A angústia dos pais, seu estresse somado a necessidades de preparar seus filhos para serem adultos competentes contamina a educação como um todo e pode levar ao naufrágio todas as boas intenções. Os pais conhecem seus filhos e os filhos nos dão sempre o caminho que temos que percorrer para educá-los. Os mais pacatos precisam de mais tempo, gostam de refletir e precisam de calma para lidar com eles, os mais afoitos são apressados, podem deixar tudo pela metade e precisamos acamá-los e os desligados crescem em outro tempo, precisam de ajuda e tempo para acompanhar os outros de sua idade.

Seja como for cada personalidade reage de uma forma e os pais precisam acreditar nisso e tentar entender e quem sabe acompanhar. Um descompasso entre pais e filhos pode gerar toda sorte de comprometimentos na criança ou adolescente como resposta e pedido de ajuda. Os problemas mais comuns são: depressão, baixa de auto-estima, aumento da agressividade, baixa de rendimento escolar, além de angústia, ansiedade e tantos outros que somados dificultam não só a relação em família, mas toda a vida deste indivíduo. Se olharmos para a vida com um pouco mais de calma, se usufruirmos melhor do pouco tempo que temos de lazer, tarefas simples como trocar uma fralda ou preparar um lanche, contar uma estória ou ouvir uma música com o filho adolescente e até mesmo conversar no carro enquanto levamos as crianças à escola podem se tornar momentos muito divertidos e relaxantes.

Nosso maior inimigo e agora das crianças e jovens também é a pressa, o mau humor, o cansaço, a necessidade de sucesso, de dinheiro e de novidades. Porém nenhuma doença faz mais vitimas do que o estresse e, se não podemos viver sem ele, precisamos negociar e quem sabe nossos filhos possam nos ajudar nessa tarefa, pois eles ainda sabem o que nós já esquecemos.

*Silvana Martani é psicóloga da Clínica de Endocrinologia do Hospital Real Beneficência Portuguesa desde 1984.


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