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Artigos
Dengue e o planejamento em saúde
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Aguiar Farina*


Estamos vivendo uma epidemia de dengue no Brasil e um dos estados mais afetados é o Rio de Janeiro. A dengue é uma doença causada por vírus, pode ser fatal e, o mais preocupante, não existe medicamento eficiente para combater a ação viral no organismo. Isto é, além de grave, estamos sem armas para combatê-la.

Entretanto, existe estratégia para combatê-la, a eliminação do mosquito transmissor. Isso não é grande descoberta e vemos diariamente campanhas nesse sentido pelas ruas, rádios e até na novela das oito.

O poder público do Rio de Janeiro, em especial a Secretaria de Saúde do Estado, está administrando uma crise sem precedentes. Uma das últimas medidas tomadas foi convidar médicos de outros estados do Brasil a ajudar a população nesse embate.

Muitos profissionais do país inteiro atenderam ao pedido do governo carioca. Mas cadê os médicos do Rio de Janeiro?

Recentemente, trabalho de pesquisa feito pela Fundação Getúlio Vargas constatou que o Rio tem aproximadamente 1 médico para cada 299 habitantes. Este número está bem acima do indicado pela Organização Mundial de Saúde, que é de um médico para cada 1.000 habitantes.

Em uma matéria do jornal "O Globo", o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) informou que não há falta de médicos para atender as vítimas da epidemia de dengue. Contudo, o que falta é disposição dos gestores em contratar profissionais com salários dignos e oferecer boas condições de trabalho. Na reportagem, a presidente do Cremerj, Márcia Rosa de Araújo, e o conselheiro Aluisio Tibiriça pontuaram que "as disputas político-partidárias ficaram à frente das necessidades da população. O que podemos concluir dessa situação, tendo em vista os vários alertas que os médicos fizeram aos governantes, é que antes da saúde das pessoas estavam os interesses político-partidários, independentemente das reais e péssimas condições da saúde no Rio de Janeiro".

Marcia Rosa também denuncia na matéria que "os médicos vão trabalhar em meio a uma epidemia de dengue por R$ 669 e sem condições de trabalho. Em alguns casos nem mesmo há fornecimento de água potável e materiais de higiene pessoal".

O Cremerj apresentou ao governo do Estado propostas para o combate à doença, como a contratação imediata de médicos para a rede pública, principalmente pediatras e clínicos, e salários decentes. O Conselho ainda propõe a expansão do Programa Saúde da Família; aumentar o número de leitos; investir nos hospitais universitários; oferecer condições de trabalho adequadas; reforçar a segurança dos profissionais envolvidos nos serviços de plantões dos hospitais e postos de saúde; incentivar a doação de sangue e, conseqüentemente, reforçar o transporte dos hemoderivados aos hospitais de emergências e postos de atendimentos.

A calamidade do sistema público de saúde não é exclusiva do Rio de Janeiro. Todo o Brasil sofre com a falta de médicos e de investimentos na estrutura dos hospitais, nos PSFs e em programas de controle de doenças, entre elas a dengue.

O que torna mais grave é o erro de planejamento e gestores públicos despreparados. O descuido com a saúde tem consequências graves e imediatas, às vezes catastróficas como a que está acontecendo no Rio, e a população não pode esperar o próximo orçamento.


*Aguiar Farina é médico ginecologista e mastologista, presidente do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT).


* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.


 
Escolas médicas: é preciso avaliar mais, e sempre
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por José Luiz Gomes do Amaral.


Dos 103 cursos de Medicina avaliados pelo Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), 17 serão supervisionados. Esse número não significa que a maioria das 175 escolas médicas do País alcance qualificação mínima. Muitos cursos não foram avaliados, como os 52 que ainda não formaram a primeira turma. O exame é apenas uma dimensão da avaliação do ensino. Também é preciso avaliar a instituição, a estrutura do curso, as instalações e qualificação do corpo docente. Isto também está programado. Com esses dados, será identificada uma enorme quantidade de insuficiências.

A causa do mau desempenho é a péssima qualidade das faculdades e não dos alunos. Apesar de o ensino médio brasileiro ser reconhecidamente fraco, a concorrência nos vestibulares de Medicina é tão grande que acaba selecionando candidatos com potencial satisfatório.

Não causa estranheza surgirem tantas faculdades públicas na lista dos reprovados. A degradação do ensino público tem ocorrido paralelamente à mercantilização do ensino privado. Os professores são mal remunerados, a carreira não é atrativa, as instalações estão degradadas e os laboratórios não tem equipamentos apropriados. Além disso, os hospitais do SUS constituem a arena de aprendizado do estudante de Medicina. A deterioração da estrutura física e organizacional do sistema público de atendimento afeta intensamente a formação do aluno de Medicina.

A distribuição desigual dos médicos entre as diferentes regiões do País e a concentração de escolas médicas não guardam relação direta de causa e efeito. Nos Estados do Sul e Sudeste estão os candidatos com maior poder aquisitivo para enfrentar o desafio das caríssimas mensalidades das faculdades particulares. Coincidentemente, nessas regiões existe oportunidade de trabalho na Medicina privada. Dos 40 milhões de brasileiros que tem planos de saúde, a maioria vive nas grandes cidades da região Sul e Sudeste. Os brasileiros da região Norte e Nordeste, particularmente aqueles que residem em cidades do interior, são dependentes do serviço público e no SUS não há perspectiva de carreira para o médico.


*José Luiz Gomes do Amaral é presidente da Associação Médica Brasileira (AMB).

 

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Prática de atividade física exige orientação especializada e disciplina
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Antônio Carlos Lopes*


Praticar esporte ou qualquer atividade física diariamente, ou pelo menos na maioria dos dias da semana, por pelo menos 30 minutos, é o mínimo que as pessoas podem fazer para beneficiar sua saúde em diversos sentidos. Além de melhorar a aparência e o humor, o hábito é comprovadamente eficaz na prevenção e até mesmo no tratamento de inúmeras doenças.

Está comprovado que alguns males do coração, certos tipos de câncer e até o estresse podem ter solução com um estilo de vida saudável, sem tabagismo, que inclua alimentação balanceada e prática de exercícios. As atividades físicas são importantes também para os idosos, porém, sempre sob orientação médica. E não são proibidas para pacientes doentes, entretanto, deverão ser adequadas à doença e às condições clínicas de cada um.

Muitas vezes considerado normal, o estresse desencadeia ou agrava males como a hipertensão e as doenças do coração. Também contra ele, o exercício é o melhor remédio. Para os moradores das metrópoles, sempre tão agitados e apressados, vale outro alerta: a ansiedade, o excesso de trabalho, o barulho e o medo da violência levam facilmente à depressão e ao estresse.

Contudo, lembre-se sempre de que até mesmo o tão benéfico exercício pode ser prejudicial se feito sem orientação médica. Esportistas ou não, todos devemos fazer periodicamente avaliação clínica para verificar se há condições para os exercícios mais indicados, sua freqüência e duração ideais. Após esta avaliação, é importante um monitoramento permanente por profissional da área de educação física.

De posse dos exames e da prescrição médica, ele poderá desenvolver individualmente o programa mais adequado e orientar o praticante a ficar atento às suas condições durante os exercícios. O acompanhamento também é essencial para que as orientações médicas sejam cumpridas e para avaliar se o organismo da pessoa está respondendo ao esporte conforme a expectativa.

Essas medidas são fundamentais para que não aconteçam fatalidades como as que assistimos esporadicamente nos noticiários esportivos. Atletas bem treinados e bem preparados têm sido vítimas de morte súbita, em campo ou nas quadras, por falta de informação ou de avaliação médica adequada. Nos mais jovens, a má formação congênita cardíaca é um dos principais problemas e deve ser diagnosticada precocemente. A anomalia pode levar, em situação de grande esforço cardíaco, à morte súbita.

A recomendação é especialmente importante para quem nunca praticou atividades físicas ou voltou a se exercitar depois de muito tempo parado. Além de intensificar problemas ligados à saúde cardíaca, a falta de avaliação médica pode levar a problemas músculo-articulares, como estiramentos e entorses. É preciso esclarecer que a prática de atividade física traz muito mais benefícios que riscos, desde que realizada de maneira segura, com acompanhamento médico e avaliação cardíaca completa.

Portanto, a regra vale para todos, do atleta de fim de semana àquele que tem o hábito de jogar uma partida de futebol com os amigos de vez em quando, e também para a gestante e o idoso. É relevante ressaltar que a idade não é um impeditivo para começar uma atividade nova, muito ao contrário. À medida que o tempo passa, maiores são os benefícios de atividades como a caminhada ou a hidroginástica.


*Antônio Carlos Lopes é professor titular da Disciplina de Clínica Médica do Departamento de Medicina da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.


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A medicina no esporte
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Aguiar Farina*


Muitos atletas são considerados celebridades e sua saúde é notícia constante nos meios de comunicação. Entretanto, até março não havia nenhuma regulamentação sobre a prestação de serviços médicos nas instituições a que esses atletas são vinculados. Outra deficiência era o socorro em casos de acidentes ou mal-estar durante as competições, como o que aconteceu durante uma prova de MotoCross em Primavera do Leste ou quando um jogador morreu subitamente durante uma partida de futebol.

O Conselho Federal de Medicina aprovou a Resolução 1833/2008 que regulamenta a organização de serviços médicos em instituições de prática desportiva para competições oficiais. Essa medida tem como principal objetivo garantir a integridade da saúde dos atletas, seja na sua manutenção ou prevenção. A partir de agora, instituições que se destinem à prática desportiva para competições oficiais, como clubes ou associações de futebol, natação, automobilismo ou qualquer outra modalidade, devem ter um departamento de serviço médico sob a responsabilidade de um profissional inscrito no CRM da região onde a instituição se localize.

Cabe ao médico o acompanhamento de cada atleta, que deve ser organizado em prontuários de forma confidencial e com informações de todos os procedimentos referentes a sua saúde.

Sem a autorização expressa e por escrito, é vedado ao médico a revelação do diagnóstico ou tratamento de doença do esportista. O profissional deve limitar sua comunicação à comissão técnica da instituição quanto à aptidão ou inaptidão do atleta para a prática esportiva, bem como o tempo estimado para sua recuperação e retorno à atividade. Esta comunicação deve ser feita por escrito e com cópia anexada ao prontuário médico do atleta.

O serviço médico da instituição deve ainda elaborar plano de avaliação periódica dos atletas com vistas a um seguimento de desempenho na atividade. Entre as atribuições está a orientação aos atletas sobre substâncias que contenham ingredientes considerados como "doping".

A resolução também prevê que a comunicação do médico sobre a aptidão ou inaptidão do atleta para a prática esportiva e o tempo necessário para a recuperação e retorno à atividade se limite à comissão técnica da instituição.

Essa iniciativa também promove a especialidade de medicina esportiva, responsável pela avaliação funcional das práticas desportivas, diagnóstico, tratamento e reabilitação das lesões e doenças relacionadas com atividades físicas.

 

*Aguiar Farina é médico ginecologista e mastologista, presidente do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT).* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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O SUS que queremos
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Marco Antônio Becker*


Criada a universalidade do atendimento à saúde pela Constituição Federal de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS) é formado hoje por mais de 6,7 mil hospitais, quase 370 mil leitos e aproximadamente 11 mil postos de saúde. Um aparato gigantesco que se propõe a prestar atendimento integral, um objetivo que sempre esteve longe de ser alcançado.

Nesses 20 anos, o SUS atendeu milhões de pessoas. Muitas vidas foram salvas. Mas a cada ano aumenta o martírio dos usuários, em grande parte gente pobre que não tem acesso a um plano privado de saúde. Na maioria das vezes, o paciente enfrenta um longo calvário até ser atendido por um médico especialista, fazer algum exame ou ser submetido a um procedimento cirúrgico.

Enfim, um sistema perfeito na teoria, mas que na prática se revela insuficiente. O SUS só se mantém graças ao trabalho abnegado de médicos e profissionais da saúde. Um sistema que remunera a consulta médica com valor equivalente ao de um sanduíche de má qualidade e que, muitas vezes, não proporciona as mínimas condições de trabalho aos profissionais. Ao mesmo tempo, hospitais arcam com prejuízos incalculáveis.

Não é o prefeito, nem o governador, nem o ministro, muito menos o presidente da República, que está diante do paciente, mas sim o médico, usado como pára-choque do sistema.

O Brasil é um dos países que menos investem em saúde pública, superado pela maioria dos países latino-americanos. No entanto, a arrecadação da União bate recordes a cada mês.

Na área econômica do governo, a palavra "saúde" é associada a "problema", e não ao entendimento correto de que aplicar dinheiro em saúde não é despesa, e sim investimento. Cada centavo destinado ao setor, em especial a ações preventivas, além de salvar vidas resulta em economia, pois cidadão doente não produz, além de onerar a Previdência Social.

Para evitar que o quadro se agrave, o movimento "Mais Saúde para o SUS" promove no dia 30 de maio, no Largo Glênio Peres, uma grande manifestação em defesa da saúde pública.

É um movimento que reúne toda a sociedade na defesa do SUS que queremos, e não este SUS subfinanciado e precariamente gerido que querem nos impor.


*Marco Antônio Becker é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers).

 


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