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Artigos
Os médicos não sabem tratar os fumantes
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Carlos Alberto Viegas*

Para o pneumologista, com exceção dos psiquiatras, a maioria dos seus colegas não recebeu informações sobre o combate ao tabagismo, doença que atinge cada vez mais o público infanto-juvenil.

Todos os anos, centenas de médicos saem das universidades sem uma formação concreta em relação a um dos mais crônicos problemas de saúde pública do Brasil e do mundo: o tabagismo. Um desconhecimento grave. O fumo mata cerca de 150 mil brasileiros por ano, sendo responsável por mais de 70% dos registros de enfisema e bronquite e também por 80% dos casos de câncer de pulmão. O cigarro ainda é fator de risco para mais de uma dezena de tipos de tumores malignos, entre eles boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rins, bexiga e colo de útero.

Com o objetivo de suprir essa carência científica, o pneumologista Carlos Alberto Viegas, professor da Universidade de Brasília (UnB), coordenou a elaboração do livro Tabagismo - Do diagnóstico à saúde pública, publicado pela editora Atheneu. Com auxílio de especialistas, fez um amplo estudo sobre esse vício, analisando o histórico do problema no Brasil, além da composição da fumaça do cigarro, das complicações em tipos variados de pessoas.

Membro da Comissão de Controle do Tabagismo do Conselho Federal de Medicina (CFM), da Associação Médica Brasileira (AMB) e da Secretaria de Saúde do DF, Viegas, 52 anos, conhece muito bem os males do cigarro: parou de fumar há 20 anos. Nesta entrevista, ele alerta para o perigo do tabagismo entre crianças e adolescente e critica a postura dos seus colegas médicos em relação aos fumantes. Um assunto oportuno às véspera do Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado na próxima quarta-feira com manifestações em todo o país.

As campanhas contra o cigarro, a proibição de fumar em locais públicos e a criação de fumódromos estão criando uma geração de não-fumantes?

O tabagismo diminuiu entre os adultos, mas, infelizmente, está estável ou com leve aumento na população infanto-juvenil, entre 10 e 19 anos. E, principalmente, nas meninas. O perfil do futuro fumante é uma pré-adolescente de 12 anos. Uma pesquisa ainda em fase final de tabulação, com entrevistas de alunos de escolas públicas e privadas de todo o Distrito Federal durante 2006, demonstra que 10,2% dos estudantes fumam diariamente. Há 10 anos, esse índice era de 11%, o que em termos estatísticos não representa uma diferença. O estudo aponta dados ainda mais alarmantes. No grupo de crianças que não fumam, 2% experimentaram outras drogas. Entre as fumantes, 50% provaram outras drogas. Conclusão: o cigarro é a porta de entrada para o consumo de álcool, maconha e cocaína.

Mas as escolas não ensinam às crianças que o cigarro faz mal à saúde?

Embora os colégios façam esse tipo de campanha, o que é muito bom, ela é pontual, apenas nas aulas de ciências e biologia. O ideal é que todos os dias, em todas as disciplinas - física, português, história, matemática -, o professor introduza informações sobre os males do cigarro.

Com quem elas adquirem o hábito de fumar?

Quem influencia a criança fumante é a mãe, muito mais do que o pai ou outro adulto que viva no meio familiar e na escola. A mãe é a pessoa que está em mais contato com a criança, mesmo que ela trabalhe fora. Quando a mãe fuma, aumenta em três vezes a chance de a criança seguir o mesmo hábito.

Os médicos sabem lidar com um paciente fumante?

Não. Os meus colegas não sabem abordar um paciente fumante e tampouco tratar o tabagismo, classificado como doença pela Organização Mundial de Saúde. Os médicos foram formados sem qualquer informação sobre o tabaco e a síndrome da abstinência à nicotina. Eles são surpreendidos com a necessidade de tratar essa enfermidade, que é uma dependência de drogas. Com exceção dos psiquiatras, os médicos, em geral, não sabem que os dependentes químicos precisam mais de acolhimento, de apoio psicológico, do que simplesmente dizer ao paciente que ele irá morrer de câncer de pulmão, enfisema e infarto se continuar fumando. Abordagens desse tipo estão fora de moda.

Como o médico e outros profissionais de saúde devem conversar com o fumante?

Eles devem dizer as vantagens de parar de fumar e estar preparados para apoiar o paciente caso ele deseje pôr fim ao vício. É uma abordagem cognitiva-comportamental. É dar informações à pessoa de forma que ela assuma que é uma dependente de drogas. O segundo ponto é a mudança de comportamento: além do paciente compreender que é um dependente, ele tem que se predispor a mudar e o médico deve ensiná-lo a evitar atitudes que o levem a fumar, principalmente no início da interrupção do tabagismo, quando sofrerá muito com a abstinência da nicotina. Por exemplo: não tomar cafezinho depois das refeições, mastigar chicletes, cravos ou lascas de canela na hora em que surgir a vontade de fumar.

Algumas pessoas conseguem abandonar o cigarro, porém depois de seis meses, um, dois anos ou até mais retomam o hábito. Por quê?

Estudos clínicos mostram que em excelentes centros de tratamento do tabagismo a taxa de sucesso fica em torno de 50% a 60%. Os outros 40% voltam a fumar depois de um ano. A explicação é bem simples. A dependência da nicotina possui dois componentes. Não é só a dependência química da droga, é uma submissão comportamental, psicológica, do hábito de levar o cigarro à boca e tragar a fumaça, de convívio social. São esses outros fatores que propiciam a recaída de pelo menos metade das pessoas que tentam parar de fumar.

Há um tratamento eficaz contra o tabagismo ou é um conjunto de terapias?

É um exagero dizer que há um conjunto de terapias. A medicina dispõe de vários tratamentos, sendo que alguns deles podem ser associados. Na abordagem farmacológica, o médico dispõe de três tipos de medicamentos: reposição de nicotina para aliviar os sintomas da abstinência, com o uso de chicletes ou adesivos; o antidepressivo bupropiona e um novo remédio, vareniclina, desenvolvido exclusivamente contra o tabagismo, pois simula a ação da nicotina no cérebro. Porém, não basta só tomar o remédio. O paciente precisa ter um apoio médico e, em alguns casos, até psicológico para vencer as três primeiras semanas de abstinência do fumo.

Alguns fumantes precisam parar de fumar, como os que fizeram cirurgia, estão internados, mas não conseguem. Como lidar com eles?

Um fumante que consome de 30 a 40 cigarros por dia, há mais de 20 anos, com certeza terá uma crise de abstinência à nicotina se for obrigado a parar abruptamente. Uma síndrome que ocorre com qualquer dependente de droga: a pessoa ficará ansiosa, irritada e fará de tudo para fumar. Em vez de impedir que esse paciente fume, o médico deve colocar nicotina no organismo dele, usando os adesivos que contêm essa substância. Será uma dose pequena, mas o suficiente para acalmá-lo. Quando ele estiver melhor, pode-se acrescentar a terapia cognitiva-comportamental e o uso de medicamentos.

As gestantes também podem fazer a reposição?

Sim. É uma questão de bom senso. A fumaça do cigarro tem mais de 4 mil substâncias tóxicas, que ao serem inaladas pela grávida prejudicam o feto. O adesivo possui apenas nicotina. Claro que a nicotina entra pela corrente sangüínea, mas ela fará menos danos ao desenvolvimento do bebê do que os outros elementos nocivos do tabaco.

"Os médicos devem dizer as vantagens de parar de fumar e estar preparados para apoiar o paciente caso ele deseje pôr fim ao vício"

"O perfil do futuro fumante é uma pré-adolescente de 12 anos"

"O cigarro é a porta de entrada para o consumo de álcool, maconha e cocaína"

Da Assessoria de Comunicação do Cremepe.

Reportagem de Maria Vitória, do Correio Braziliense, publicada em 26.08.2007.


* É membro da Comissão de Controle do Tabagismo do Conselho Federal de Medicina (CFM).

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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Em defesa dos médicos
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Josival Pereira*

Registramos, na coluna de hoje, e-mail do pessoense João Rodolfo Cavalcanti Andrade de Araújo, estudante do 12º período do Curso de Medicina da Universidade de Pernambuco.

“Caro Josival Pereira,

Falam tanto que a profissão médica é um sacerdócio, é bonita, é altruísta, mas não se lembram que o médico é feito de carne e osso, também adoece, tem problemas pessoais e?procura trabalhar como qualquer outro profissional (com seus direitos e deveres assegurados pela constituição).

Cadê a dignidade do médico? Sem material, sem infra-estrutura, sem salários compatíveis e dignos, sem condições, até mesmo sem saúde, pressionado, intensamente cobrado e humilhado? Esse é o perfil do médico que trabalha no SUS.

Gostaria de informar que a senhora que faleceu semana passada e que foi motivo de muita comoção, inclusive nacional, faleceu a caminho do Hospital de Emergência Targino Maranhão, dentro do carro do SAMU. Portanto, não houve omissão médica, pois ela já chegou morta ao hospital e havia médicos de plantão no momento.

O CRM-PB já havia enviado um ofício (Ofício CRM-PB nº 818/2007) dia 10 de Julho deste ano solicitando audiência com a Secretária de Saúde do Município, Sra. professora Roseana Barbosa Meira, relatando a “dimensão da gravidade?que se alastra por diversas áreas da saúde em nosso Município”, no que foi negada.

Os médicos também são seres humanos e como todo profissional têm o direito de reivindicar seus direitos através de greve (com 30% do efetivo trabalhando e dentro da lei, como o foi), principalmente quando o motivo desta greve é aumentar nosso ridículo, ultrajante e humilhante salário e as condições de trabalho.

Bem, eu pago ao lavador de carro, Seu João, no estacionamento do H.U. R$ 6, para que ele lave meu carro apenas por fora, o que gasta em média 20 minutos. Se considerarmos que seu João lave 2 carros por hora, em 8 horas, terá ganho R$ 96. Seu João é analfabeto, tem 54 anos e nenhum filho. Um médico cirurgião cardiologista leva?no mínimo 11 anos para terminar o curso e as residências de cirurgia geral e cirurgia cardiovascular, trabalhando extenuantemente todo esse período, virando noites em plantões, ou estudando, sem lazer, e ganha R$ 76?para realizar uma cirurgia que pode durar 8, 10 horas, com a responsabilidade de manter vivo o paciente que adentrou o bloco cirúrgico.

Sem desmerecer o trabalho de seu João, você acha justo essa remuneração????????????????????????

Por fim, entristeço-me e não acho justo?quando, no calor da situação,?jogam sobre os médicos a pecha de vagabundos, irresponsáveis ou assassinos, pois muito ao contrário do que fazem os últimos, os médicos lutam até sua própria morte pela vida.”

* É colunista do Jornal Correio da Paraíba.

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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De olho na hipertensão arterial
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Antonio Carlos Lopes*


Dentro da medicina moderna a hipertensão arterial não pode mais ser vista apenas como uma condição clínica caracterizada pela simples medição de rotina no consultório médico. Na verdade, pode acarretar graves alterações no organismo humano. Hoje sabemos que o diabetes melito, a obesidade e os valores alterados do triglicérides e do HDL colesterol estão intrinsecamente correlacionados à hipertensão arterial no contexto do conceito de síndrome metabólica.

O tratamento, portanto, não pode se resumir a um simples comprimido para reduzir a pressão. O grande desafio do médico é conscientizar os pacientes de que as alterações no estilo de vida, com alimentação adequada, evitando-se os excessos, e adoção da atividade física moderada, são importantes aliados contra a doença e não possuem nenhum efeito colateral, como os medicamentos. É o que chamamos de tratamento não medicamentoso da hipertensão arterial.

Hoje os pacientes têm acesso a toda informação. Cada vez mais precisam saber que a hipertensão é uma doença que geralmente começa silenciosa, sem a manifestação de sintomas específicos. Dores de cabeça, tontura, zumbido e mal-estar não são específicos e, por si só, dificilmente levam ao diagnóstico.

Em seu estado mais avançado a hipertensão arterial afeta, o cérebro, rins, olhos (retina) e as artérias. Se o diagnóstico for tardio, vários desses órgãos podem estar seriamente comprometidos, muitas vezes até de forma irreversível. O correto controle da doença é indispensável para a redução das complicações cardiovasculares mais significativas como angina, infarto, do miocárdio arritmias cardíacas, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, aneurisma da aorta, entre outros. Este controle é feito pelo acompanhamento médico com os medicamentos disponíveis mais adequados a cada tipo de paciente.

Atualmente os pacientes não são mais tratados de forma pasteurizada. O tratamento é personalizado, de acordo com as condições clínicas de cada um. Além dos medicamentos há os benefícios de uma dieta rica em fibras, facilmente encontradas nos legumes, verduras, frutas e cereais integrais, e da diminuição no consumo de sal, gorduras e açúcar refinado, além da adoção da prática de atividade física.

Não sugerimos a prática esportiva de competição, mas evitar o sedentarismo, como permanecer sentado por longas horas. É bom usar mais as escadas e menos o elevador, caminhar sempre que possível, gastar um pouco das calorias consumidas nas refeições. O consumo de bebida alcoólica deve ser controlado, sendo permitida uma taça de vinho ou uma dose de destilado ou uma lata de cerveja que não trazem prejuízo. O tabagismo deve ser eliminado.

São fundamentais o repouso físico, psíquico e mental. As férias devem ser respeitadas como um momento de descanso físico e reflexão sobre os hábitos de vida que motivam o estresse.

Os medicamentos modernos causam poucos efeitos colaterais, quando comparados aos mais antigos. Porém, de acordo com as características individuais, esses efeitos poderão surgir em maior ou menor gravidade. Destacando-se a impotência sexual no homem, diminuição da libido, sonolência, inchaço nas pernas e eventualmente dores de cabeça. É importante, contudo, que o tratamento não seja abandonado e que o médico seja consultado sempre que necessário para que, mudando o medicamento e ajustando-se a dose e os horários de tomada, esses efeitos sejam atenuados o máximo possível.

O tratamento atual da hipertensão arterial fundamenta-se no emprego de mais de um medicamento, mesmo quando é leve. De tal forma que não se deve estranhar que no mínimo dois medicamentos sejam prescritos. Na maioria das vezes, tem-se por objetivo trazer os valores pressóricos abaixo de 140 por 90 mmHg e evitar as lesões dos órgãos-alvo, isto é aqueles já citados e que são habitualmente lesados.

Os antecedentes familiares são importantes em se tratando da doença hipertensiva. Assim sendo, quando pai e mãe são hipertensos, é fundamental que, mesmo antes dos 20 anos de idade, o médico seja consultado. Raramente encontra-se a causa da hipertensão arterial e a maioria é, portanto, chamada de essencial. Mas somente após análise clínica é que este diagnóstico pode ser estabelecido.

 

* É presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM).


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Falta capacidade de indignação
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Marco Antônio Becker*

"Estamos aceitando o nivelamento por baixo com uma passividade que dá a impressão de que está bem assim. Precisamos reagir imediatamente, ou será tarde demais."

Ainda sob o impacto da tragédia que ceifou 199 preciosas vidas em Congonhas, especialistas buscam encontrar as causas do acidente. São várias as hipóteses, mas todas elas levam a um só caminho: a sufocante sensação de que estamos nos acostumando a conviver com menos que o mínimo. Estamos aceitando o nivelamento por baixo com uma passividade que dá a impressão de que está bem assim.

Aceitamos que os vôos atrasem horas e horas, que bagagens sejam extraviadas e até já nos programamos para isso - pior, estamos começando a nos surpreender quando o vôo sai no horário previsto. Não reagimos quando a nova pista de pouso do aeroporto de Congonhas foi liberada às pressas, sem as tais ranhuras que podem evitar deslizamento de aeronaves.

Calamos quando a Varig foi definhando sem que o governo se esforçasse para salvá-la, apesar da dívida na casa dos R$ 5 bilhões que tem com a empresa. Perdemos a nossa única empresa aérea com prestígio em todo mundo, pela qualidade do serviço, segurança de vôo, treinamento exaustivo de pilotos e rigor na manutenção. A Varig era motivo de orgulho para todos nós. Mas isso era quando ainda buscávamos a excelência.

Hoje convivemos, praticamente sem esboçar reação, sem um gesto de protesto ou um tom de voz mais elevado, com a precariedade nos serviços essenciais. Na saúde, vemos cair, a cada ano, a qualidade. Quem pode, arca com mais uma despesa para receber atendimento digno e que deveria ser um direito de todos: paga um plano privado.

O governo não destina os recursos necessários ao setor - tem outras prioridades -, nem concorda em repassar na íntegra os valores arrecadados com a CPMF, que deveria ser um plus e sua obrigação - legal, moral e ética. Hospitais e médicos trabalham com valores defasados há anos, enquanto a população vê a cada dia a deterioração de um sistema de saúde que ainda tem tudo para dar certo.

Estamos aceitando o mínimo, quase uma esmola. Precisamos reagir imediatamente, ou será tarde demais.

Quando do episódio da interdição do Posto da Cruzeiro do Sul, fui interpelado por alguns moradores daquela área. Pessoas humildes. Queriam que o Cremers levantasse de imediato a interdição ética, apesar de o PACS naquele momento ainda não apresentar as condições mínimas para uma medicina digna, sem expor os pacientes a riscos. “Doutor, nós levamos o senhor pela vila, para ver a nossa pobreza. O Postão tem problemas, mas nós precisamos dele funcionando de qualquer jeito, é o que nos resta”, ponderou uma senhora. Nunca esqueci o olhar daquela cidadã, uma pessoa simples, consciente de que poderia ter um atendimento melhor, mas que aceita o que lhe é proposto, sem reagir. Mais ou menos assim como toda a sociedade brasileira diante da corrupção, da impunidade e de vidas interrompidas em tragédias anunciadas.

* É presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers).

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Hospital, esse lugar aonde se vai "pa sofrê"
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Patrick Cruz*

No mundo, são mais de 12 milhões de óbitos por ano relacionados a doenças do coração. As estatísticas brasileiras registram 360 mil mortes a cada 12 meses, ou 986 por dia, ou 1,4 morte a cada dois minutos ou 0,7 morte a cada 60 segundos. Muitos dos males são revertidos com a desobstrução das artérias por meio do uso de um cateter, a afamada angioplastia 80 mil procedimentos no ano passado, segundo o Sistema Único de Saúde (SUS). Grandes cirurgias, mais invasivas, foram pouco mais que a metade disso. Cardiopatas brasileiros contam se aos milhões.

Benedito Aguiar Azevedo é uma estatística, mas também é um agricultor de 67 anos que se dedica desde sempre à cultura do milho e do feijão em Ubajara, no Ceará, a 329 quilômetros de Fortaleza ("Mas é mais pra dentro, a umas três, cinco léguas de Flexeiras. Conhece?"). O número de estatística em questão, que figura em alguma (ou várias) tabelas de Excel, tem três pontes de safena e, na semana passada, estava em uma das enfermarias do Hospital Messejana, em Fortaleza, à espera de sua vez de receber tratamento. As enfermeiras, atenciosas, procuravam transformar em eufemismo o desconforto da informação de que ele teria pelo menos quatro semanas de fila pela frente.

A situação esteve pior. Antes de conseguir cama na enfermaria C, o agricultor passou dois dias sentado em um uma cadeira disposta em um dos corredores da emergência do hospital, segundo seu relato. "Aqui até que tá bom. É uma extensão do céu", disse, mas sem deixar de fazer a ressalva: "Eu queria era estar livre. É bem melhor. Quem quiser sofrer que vá prum hospital. Hospital é só pa sofrê".

Deu se no Ceará a eclosão mais recente do que se preferiu generalizar como "a crise da saúde no Nordeste". Não chegou a ser uma greve generalizada, como a registrada em Alagoas, com 87 dias de paralisação, mas seguiu se a movimentos de descontentamento de funcionários e conseqüente decréscimo agudo na qualidade dos serviços registrados na Paraíba e em Pernambuco. O registro repentino de seis mortes de bebês na UTI da Maternidade Hildete Falcão Batista, em Aracaju, por suspeita de infecção, não ajudou a melhorar o quadro. No Ceará, os cardiologistas rebelaram se contra a remuneração limite de R$ 81,92 por procedimento cirúrgico que recebem do governo, valor menor que a média de R$ 98,08 praticada nos Estados do Nordeste e bem abaixo dos R$ 126,24 pagos em Mato Grosso do Sul, como informa o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde. Em Fortaleza, quatro hospitais credenciados pelo SUS deixaram de atender. O Messejana, público, passou a receber todos os doentes do coração que antes estavam em cinco hospitais.

A "crise da saúde do Nordeste" não chega a ser uma estatística, como Benedito Azevedo, mas pode ter um rosto e se chamar Neule Azevedo, chefe de enfermagem no setor em que o agricultor aguardava pela sua vez de tratamento. "A gente fica tão ansiosa quanto os doentes. A emergência está lotada e não se consegue dar vazão", conta ela. Com sua planilha controlada por caneta Bic, faz andar a fila na enfermaria.

No momento em que fez seu relato, na última semana antes, portanto, de o governo federal anunciar um "PAC" emergencial de R$ 2 bilhões para a saúde , a rotina de Neule era a seguinte: colocava um nome na lista de cirurgias e um na espera, caso se tivesse que adiar o procedimento para o primeiro nome. Ritmo de quatro cirurgias semanais cada um dos outros três felizardos, se é que cabe o termo, vinha de uma das outras três enfermarias de cardiologia. Nem todos os doentes que aguardavam no local passariam necessariamente por procedimento cirúrgico. Angioplastias ou mesmo tratamentos clínicos, com remédios, dariam conta de alguns dos casos. Ainda assim, as enfermarias B, C (a da enfermeira Neule), G e I tinham, respectivamente, 26, 28, 34 e 28 cardíacos. Outras trinta e tantas pessoas aguardavam por melhor sorte em casa, por falta de local no hospital.

Dos números 26, 28, 34 e 28, a número 1 tinha nome, 35 anos de idade e trabalha em casa de família ("Ou trabalhava, não sei"). Sônia Maria de Oliveira Souza, oriunda de Canindé, a 120 quilômetros de Fortaleza, e residente na capital, entrou na enfermaria do aguardo no dia 17 de julho e era a que estava ali havia mais tempo. A pouca idade não a livraria de mais uma cirurgia, a segunda. Como pacientes com quadros mais graves chegaram depois de 17 de julho, Sônia, mais jovem, pôde esperar um pouco mais. Lamentou se pelo fato de ter perdido a chance de passar em casa o aniversário de 14 anos de Ítalo, seu filho mais velho, um dia antes. Na enfermaria mesmo, deu os parabéns e disse para ele estudar bastante.

Os honorários das cirurgias cardíacas foram o estopim da "crise da saúde do Nordeste" no Ceará, mas não chegam a ser o caso mais emblemático. "Um médico recebe perto de R$ 83 por uma safena, mas um anestesista ganha uns R$ 50", diz João David de Souza Neto, diretor médico do Hospital Messejana. Ele acredita também ser pouco alvissareiro o fato de que mais da metade dos médicos do hospital não ter vínculo direto com o Estado, mas com cooperativas. "Isso causa uma carência de plantonistas na emergência e na terapia intensiva." O Messejana tem 312 médicos e 19 residentes. "E com o aumento no número de pacientes, os doentes acabam chegando com um quadro mais grave. Isso dificulta o tratamento."

Também pesa o fato de não haver descentralização do atendimento: complicou um pouco, manda para a capital. Francisca Maia Cedro Farias Ribeiro, plantadora de feijão e milho de 34 anos, teve uma artéria desobstruída em março no hospital de Tamboril, a 300 quilômetros de Fortaleza. Nem se passaram seis meses e o problema voltou a incomodá la. "Tive que vir pra cá. Lá não deram jeito", conta ela. "Foi febre de cinco dias, um fastio e uma dor no peito... Uma dor que dói até pra pisar no chão." Francisca, outra estatística fria na "crise da saúde do Nordeste", também cita seus números: dois filhos, dois alqueires de terra e uma colheita raquítica de 50 litros de feijão. "É, neste ano não deu boa a colheita, não. A chuva foi pouca".

Leia mais em portal.cremepe.org.br/publicacoes_clipping_ler.php?cd_clipping=10909

* É jornalista.


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