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As inconsistências da PNAB
Seg, 11 de Setembro de 2017 11:17

 

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima

 

A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) é reconhecida como pedra angular da saúde pública e requer planejamento racional, com ênfase na qualidade dos serviços prestados e na redução dos desperdícios financeiros, na busca da universalidade e da integralidade do sistema público de saúde.

Trata-se de uma política que exige constante formulação programática, com ampla e efetiva participação de representantes dos diversos segmentos profissionais e das comunidades, em um contexto de diálogos e exposições de experiência exitosas e internacionalmente consolidadas, com as devidas adequações às realidades geográficas, sociais e econômicas do País.

A PNAB, divulgada pelo Ministro da Saúde há poucos dias, não foi construída no âmbito de um processo caracterizado pelo compartilhamento de ideias e contínua discussão. A sua reestruturação, iniciada no ano de 2015, foi feita com equívocos típicos de gestões autocráticas, utilizando-se mais uma vez a consulta pública como forma de se obter uma aparente legitimidade democrática.

A retórica de prioridade à Estratégia de Saúde da Família (ESF) cai por terra quando se observa a instituição de financiamentos específicos para outros modelos de atenção básica, sem agentes comunitários de saúde ou com o seu deslocamento das equipes existentes na ESF, que já não contam com o número suficiente desses colaboradores.

Torna-se claro que, com a simples finalidade de ordem econômica, sem preocupação com a qualidade dos serviços, haverá retração do financiamento da ESF para implantação de outros modelos seletivos e focais.

As especificidades locorregionais são relevantes, mas, deveriam ser atendidas com substancial aumento do Piso da Atenção Básica fixo (PAB fixo), com valor médio nacional e atual em apenas R$ 24,00 per capita ao ano, insignificante perante as necessidades da população.

Ainda devem ser ressaltadas as faltas de valorização e estímulos à qualificação dos recursos humanos, das medidas destinadas a suprir as carências de condições ao trabalho e das diretrizes mínimas a serem observadas nas parcerias intermunicipais, imprescindíveis à competência administrativa da Atenção Básica.

De fato, as inconsistências da PNAB, recentemente anunciada, demonstram que, se existe competência administrativa, os governos a escondem muito bem! Têm procurado com intensa campanha publicitária desviar a atenção do povo das verdadeiras causas do caos que assola a saúde pública.

Neste sentido são elaboradas mensagens por autoridades sanitárias, com frases de efeito que escondem os principais motivos da precariedade na saúde, como em três recentes episódios de injustas acusações aos médicos brasileiros pelo ministro Ricardo Barros: “vamos parar de fingir que pagamos os médicos, e os médicos precisam parar de fingir que trabalham”.

Apesar das nossas relações sociais contemporâneas, que fazem lembrar as históricas narrativas do período de interregno da Antiga Roma, das provocações gratuitas e dos estigmas jogados contra os médicos, os compromissos vocacionais desses profissionais são sustentados com angústias, sofrimentos, depressões e reconhecidos em pesquisas de opinião pública.

No final do ano de 2016, em pesquisa do Instituto Datafolha, os médicos brasileiros continuaram no topo do ranking das classes profissionais com mais crédito ou de maior confiança. Por sua vez, com honrosas exceções, a classe à qual pertence o Ministro da Saúde – a dos políticos – ficou situada infelizmente no último lugar, como consequência de alianças político-partidárias feitas de modo argentário e vulneráveis às ações corporativas e predatórias do bem comum.

 

Palavra do Presidente publicada na edição nº 269 do Jornal Medicina. Acesse aqui a edição.

 
A arte de curar
Sex, 01 de Setembro de 2017 15:20

Antônio Marcio Junqueira Lisboa*


A maioria das sociedades apresenta pluralismos de sistemas e crenças, sem uma nítida separação entre eles, que se preocupam com a arte de curar. Alguns milenares, como as medicinas chinesa, indiana, egípcia, persa e grega; outros mais atuais, como alopatia, homeopatia, fitoterapia e naturopatia. Existem ainda modelos de cura de cunho popular, como o curandeirismo e os praticados por seitas religiosas.

As formas de curar mais antigas são as praticadas pelos curandeiros, cujo conhecimento deriva da sabedoria popular tradicional. Consideram as pessoas como uma unidade mente-corpo, focando em suas relações com o meio em que vivem e com as divindades. As cerimônias envolvem um grande relacionamento com os pacientes e são utilizadas pelos curandeiros para diminuir a ansiedade e o medo que cercam os processos mórbidos, liberando energias que serão canalizadas para ajudar a natureza em seu processo natural de cura. Dentro dessa categoria, atualmente estão a imposição de mãos e procedimentos utilizados por algumas igrejas e cultos, que exorcizam o demônio e solicitam o auxílio divino.

A medicina chinesa tradicional vem sendo divulgada cada vez mais em nosso país, e o número de centros que a pratica vem aumentando vertiginosamente, conservando seu sentido holístico, em que o paciente é visto em sua integralidade. Recomendam exercícios físicos e mentais (meditação e ioga) e medidas dietéticas para a promoção da saúde. A base da terapêutica está no uso de plantas medicinais, massagens e acupuntura, que apresentam bons resultados. A acupuntura, por exemplo, é utilizada largamente em tratamentos clínicos ou como anestésico nas cirurgias.

A medicina chinesa tradicional é eficiente e de baixo custo. Tive oportunidade de conhecê-la ao visitar a China, em 1976, a convite da Academia de Ciências de Pequim. Visitei comunidades onde pessoas com problemas de baixa complexidade eram atendidas pelos médicos denominados “pés-descalços”, que usavam basicamente a fitoterapia e produziam a maioria dos seus medicamentos. Tive ainda a oportunidade de visitar hospitais universitários em Cantão, Shangai e Pequim, onde assisti operações de grande porte, como cirurgias cardíacas e histerectomias com a utilização da acupuntura. Confesso que, como médico e professor, fiquei tão impressionado com o que vi na área da saúde e da educação, em 1976, que ousei prever que a China se tornaria, em breve, um dos países mais desenvolvidos do mundo. E minhas previsões se confirmaram.

A fitoterapia utiliza o efeito curativo das plantas e já é um tratamento com grande tradição popular.  Embora boa parte da academia médica ainda desconheça ou não aceite seu emprego, seu valor não pode ser negado. Quem ainda não receitou, ou usou, chá de camomila, erva doce, boldo, hortelã e tantos outros, com feitos surpreendentes? Quem ignora que um grande número de medicamentos alopáticos e homeopáticos tem princípios ativos retirados das plantas?

A homeopatia, cujo valor é até hoje negado por inúmeros médicos, foi reconhecida pela Associação Médica Brasileira como uma de suas especialidades. Isso aconteceu com razão, pois seu verdadeiro precursor foi Hipócrates, o pai da medicina, que em aproximadamente 500 a.C. foi o primeiro a enunciar a lei dos semelhantes: “A aplicação de semelhantes faz passar da doença à saúde”, base de todo tratamento homeopático. Tenho orgulho de ser o autor do parecer que levou a esse reconhecimento. A homeopatia se baseia na chamada “cura pelos semelhantes” e pela dinamização de substâncias de origem vegetal, mineral ou animal. Sua eficácia é incontestável, principalmente nos processos crônicos e nas alergias. A aceitação do conceito holístico das pessoas obriga o médico que a pratica a fazer uma anamnese detalhada, em que são levados em consideração aspectos físicos, psíquicos, emocionais, sociais, hábitos de vida e situações que agravam ou melhoram os sintomas. O grande risco da homeopatia, a meu ver, é o radicalismo de alguns de seus seguidores – o que felizmente vem diminuindo –, que tentam utilizá-la em condições de extrema gravidade, inclusive cirúrgicas. Atualmente, boa parte dos homeopatas prescreve alguns medicamentos alopáticos, como os antibióticos.

A alopatia é o método terapêutico mais utilizado na atualidade. Pouca gente sabe, mas o termo “alopatia” foi empregado pela primeira vez por Hahnemann, pai da homeopatia, para distinguir o método terapêutico que havia criado da medicina praticada à época. O modelo atual biomédico, ensinado nas escolas médicas e que advoga o uso dos medicamentos alopáticos, tem suas origens na concepção mecanicista de Descartes e Newton e peca por dividir o ser humano em corpo e mente, assim como por considerá-lo como uma máquina que permite que “suas peças” possam ser estudadas e cuidadas de forma independente. Perde-se, assim, o conceito holístico, ecológico e social da saúde. Embora sejam inegáveis os avanços conseguidos na assistência à saúde, principalmente os relacionados com a tecnologia, a população vem questionando cada vez mais esse modelo. Os descontentamentos são atribuídos a dificuldades no atendimento – filas intermináveis, espera para marcação de consulta, sobrecarga dos médicos que os obriga a reduzir o tempo da consulta, mas também por falhas ligadas ao próprio ensino médico, que não valoriza devidamente o relacionamento entre médico e paciente. Infelizmente, a medicina alopática praticada é de alto custo e coloca em plano secundário a promoção e a proteção da saúde.

Todos os métodos utilizados na arte de curar têm suas vantagens e desvantagens. Caberá ao médico indicar ou não algum tratamento e, posteriormente, avaliar o “risco do medicamento versus benefício para o paciente” na escolha do método e do medicamento a ser utilizado. A natureza é a maior mestra na arte de curar – natura medicatrix –, pois acaba com a maioria das doenças. Entretanto, as pessoas não aceitam bem quando dizemos que não há necessidade de medicamentos, ainda mais quando mandamos suspendê-los por estarem impedindo a cura.

A frustração é ainda maior quando a consulta é paga e o paciente recebe somente orientações, sem nenhuma receita. Muitos se sentem lesados por não receberem a folhinha com as prescrições. As pessoas se acostumam a receber algum remédio, ou a receita de um, sempre que vão ao médico, sendo que o médico o receita porque o paciente assim deseja e espera, e a pessoa toma o remédio porque o médico mandou. Esse círculo vicioso e a automedicação são os grandes responsáveis pelo uso abusivo de medicamentos. Já perdi inúmeros clientes por haver sido honesto, dizendo: “Não faça nada. Isso cura sozinho, se você não atrapalhar”. O medicamento é para o clínico o que o bisturi é para o cirurgião. Nenhum deles terá bons resultados se não conhecerem e gostarem das pessoas e da profissão que exercem. A confiança no médico é fundamental para o tratamento e ela nunca poderá ser subestimada.

 

* É pediatra, membro da Academia de Medicina de Brasília e da Sociedade Brasileira de Pediatria.

      

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
A má gestão da saúde pública
Qui, 10 de Agosto de 2017 16:56

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima

 

Três recentes episódios de injustas acusações aos médicos brasileiros foram registrados pela mídia, com forte impacto no seio da classe e grande repercussão na sociedade, por terem como protagonista o ministro da Saúde, Ricardo Barros, engenheiro e deputado federal filiado ao Partido Progressista (PP).

O Ministro anunciou nos estados do Paraná, Acre e no Distrito Federal o controle por biometria nos postos de saúde da rede pública de todo o País na intenção de uma maior produtividade dos médicos. Cometeu um erro imperdoável em seus discursos ao dar destaque a uma frase polêmica: “vamos parar de fingir que pagamos os médicos e os médicos têm que parar de fingir que trabalham”.

Diante de críticas à inconsistência de seus discursos, transformou os jornalistas em bodes expiatórios, acusando-os de distorcer o sentido de sua frase, por colocá-la fora de contexto, esquecendo-se que a expressou por três vezes e que os seus termos assertivos são de interpretação filológica ou gramatical.

Maquiavel classificou os homens em três tipos: aqueles que conseguem compreender por si só; os que só conseguem entender os que os outros compreenderam; e aqueles que não conseguem compreender por si só e não conseguem entender o que os outros compreenderam. O Ministro não se enquadra nestas duas últimas categorias. Elabora as suas mensagens com plena compreensão do que transmitem.
Portanto, trata-se aqui de uma frase de efeito que desvia a atenção sobre a precariedade da saúde pública, onde falta tudo ou quase tudo e ocorre com frequência a designação aos médicos da representação não autorizada do Criador nas “Escolhas de Sofia” – as mesmas escolhas entre os náufragos daquele que ocupará o último lugar disponível no escaler da vida.

As mortes evitáveis e as sequelas irreversíveis de milhares de brasileiros, por falta de condições de trabalho ao médico, têm sido escondidas com a cumplicidade do silêncio ou de polêmicas impertinentes, que impedem a nítida visão da incompetência administrativa do Sistema Único de Saúde (SUS).

Na linha das explicações desprovidas de razão, com simples análise de números, o Ministro apresentou dados do Banco Mundial como alicerce para os seus argumentos de que o número de consultas por médico no Brasil é 1,5 vez menor do que a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), olvidando-se que os dados foram retirados do exercício da medicina em condições ideais de trabalho.

Na maioria das Nações que integram a OCDE (Inglaterra, Portugal, França etc.), os médicos têm excelentes carreiras nacionais e os cargos da gestão de serviços e programas de saúde não são de livre provimento dos políticos de plantão. Por isso, não são utilizados para satisfação de interesses pessoais ou eleitorais, em detrimento da proficiência administrativa.

Em geral, no âmbito dos países membros da OCDE, os médicos têm o que falta em muitos postos de saúde brasileiros: cadeiras, macas, toalhas e pias para lavagem das mãos, banheiros para deficientes físicos, salas para esterilização de materiais e expurgo de lixo, equipamentos, medicamentos e insumos imprescindíveis aos atendimentos. Considerando essas carências, pode-se concluir pela maior produtividade dos médicos brasileiros.

Ainda, em meio aos conflitos gerados pelas gratuitas provocações aos médicos, tem sido divulgada por Ricardo Barros a economia de R$ 3,5 bilhões em sua gestão ministerial, sem mencionar que de uma dotação orçamentária de R$ 121 bilhões o Ministério da Saúde (MS), no ano passado, deixou de aplicar R$ 6 bilhões, dos quais R$ 2 bilhões destinavam-se aos investimentos e o restante ao custeio.

Os problemas do SUS são crônicos e não serão resolvidos com propostas casuísticas. As suas soluções exigem: política de saúde como política de Estado, competência gerencial, planos de cargos e salários em carreiras estruturadas e compartilhadas pelo Poder Executivo, recursos humanos valorizados, melhor orçamento, sistema de controle e avaliação rigoroso, descentralização regional, auditoria social independente e capacitada. A Reforma Tributária, entre outras relevâncias, tem papel preponderante nas adequações do SUS!

Na vigência da Carta Magna de 1988, a União concentrou em seus cofres a maior parte da carga tributária e reduziu os seus encargos. Os demais entes federativos (Estados e Municípios) estão mais onerados, empobrecidos, endividados e subservientes ao Planalto Central.

As caravanas de governadores, prefeitos, secretários estaduais e municipais de saúde à Esplanada dos Ministérios são notícias rotineiras. De pires na mão, as autoridades agradecem ínfimos percentuais do que deveriam receber por direito.
Assim, o País encontra-se com um Pacto Federativo utópico e mais vulnerável às alianças político-partidárias feitas de modo argentário e às ações corporativas predatórias do bem comum.

Na persistência desse cenário de violências, desvios do erário, humilhações e desassistência à saúde pública por omissão do Estado, a classe médica, mais uma vez, unida aos interesses da imensa maioria da população brasileira, que defende o SUS, voltou às ruas no dia 3 de agosto, em um movimento de protesto popular denominado “Fora Barros”. Na defesa da saúde, a causa pública mais essencial e reivindicada, de modo coerente ao exercício de cidadania, no mais elevado patamar da consciência, repudiando a inércia das autoridades sanitárias e o descaso com a dignidade humana.

Apesar das nossas relações sociais contemporâneas, que fazem lembrar as históricas narrativas do período de interregno da antiga Roma e dos estigmas jogados contra os médicos, os seus compromissos vocacionais, sustentados com angústias, sofrimentos e depressões, são afirmados pelo povo em pesquisas de opinião pública. No final do ano de 2016, em pesquisa do Instituto Datafolha, os médicos brasileiros continuaram no topo do ranking das classes profissionais com mais crédito ou de maior confiança perante a população. Por sua vez, com honrosas exceções, a classe à qual pertence o Ministro da Saúde, a dos políticos, ficou situada, infelizmente, no último lugar.

A voz do povo fala a verdade!

 

Palavra do Presidente publicada na edição nº 268 do Jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 
Saúde do tijolo à telha
Ter, 01 de Agosto de 2017 11:22

É impressionante a diferença entre o ouvir falar e a constatação dos fatos de forma presencial, utilizando os sentidos e as nossas capacidades cognitivas. A análise final pode ser bem diferente do boato, ou pode apenas confirmá-lo ou mesmo agravar o que se ouviu falar.

A saúde pública é um problema crônico em nosso país. Em pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, a pedido do Conselho Federal de Medicina (CFM) no final do ano passado, constatou-se que 37% dos pesquisados consideraram a saúde como o principal problema enfrentado pelos brasileiros. A corrupção ficou em segundo lugar, com 18%. Portanto, o brasileiro é ciente da degeneração do serviço público de saúde em todo o país, ocorrida ao longo das últimas décadas, sem perspectiva de ser solucionada.

A saúde pública é tratada como um instrumento de uso político, não havendo uma política de Estado sobre o tema. Os fatos demonstram claramente que se trata de um ponto nevrálgico de qualquer governo, e que deveria ser, assim, tratado de forma técnica, envolvendo profissionais da linha de frente, com uma força-tarefa isenta de vieses ideológicos e de política partidária, sem conflitos de interesse e com a transparência que o cuidado com a coisa pública exige.

Em 19 de julho passado, tive a oportunidade de participar de uma audiência, solicitada pela autarquia CFM e Conselhos Regionais, com o ministro da Saúde, Ricardo Barros, engenheiro civil de formação, empresário, autointitulado gestor, mas que na prática atua na política partidária desde o século passado. Por “méritos” políticos, foi alçado ao presente cargo, em que parece ter caído de paraquedas, pois reconheceu, durante a audiência, ser um desconhecedor do tema e que, por isso, tem buscado auxílio nas entidades de saúde. O discurso da humildade seria louvável se as entidades que o auxiliam fossem verdadeiramente ouvidas, o que na prática não tem acontecido. Aristóteles já dizia na Grécia Antiga que “nós somos o que fazemos repetidas vezes, portanto, a excelência não é um ato, mas um hábito”. Como podemos aceitar que alguém caia de paraquedas para solucionar uma grave crise? Importante salientar que ele não foi o único a aparecer de forma inesperada na pasta da saúde, e, provavelmente, este tenha sido um dos fatores preponderantes para as decisões equivocadas tomadas ao longo dos últimos anos.

Entregamos ao ministro um manifesto no qual a autarquia se posiciona ao lado da população e dos médicos brasileiros em defesa da saúde pública e alerta que utilizará de suas prerrogativas judiciais e extrajudiciais no amparo a essa nobre causa. Foram anexados relatórios de fiscalizações e relatos das situações encontradas em todos os estados da federação, que juntos somam mais de 15 mil páginas.

A apresentação feita pelo ministro foi surpreendente em vários aspectos. Baseou-se em estatísticas e números matemáticos direcionados a interesses não revelados, mas claramente decodificados pela plateia que o assistia, formada por conselheiros médicos de todo o país. Tais dados se adequam à engenharia, ciência exata, mas tão pouco eficaz na área da saúde. Afirmou que o problema da saúde primária está relacionado à baixa produtividade dos profissionais e esqueceu que este item não está relacionado apenas à atuação do profissional, mas também à estrutura inadequada. Declarou, também, que a solução do problema será investir em equipamentos de controle de presença dos profissionais e na informatização de toda a assistência primária do país. Ele acredita em soluções tecnológicas de alto custo em detrimento de soluções de menor custo e maior eficácia, como a estruturação dessas unidades de saúde.

Alguns destes postos de trabalho estão sem pia para lavar as mãos, outros sem banheiros, muitos sem local adequado para a realização do ato médico, outros tantos sem equipamentos básicos de assistência (como termômetros, estetoscópios, medicamentos etc.), além dos locais insalubres e impróprios para a presença humana. Teremos tecnologia de ponta na atividade-meio, mas seguiremos com carências na atividade-fim, que é a assistência aos nossos pacientes. A análise final foi pior do que a expectativa do “ouvir falar”.

Para resumir, tentarei utilizar a linguagem da engenharia civil, apesar de não ser conhecedor técnico dessa profissão de enorme importância e credibilidade na sociedade, mas permitam-me afirmar o que qualquer ajudante de pedreiro saberia interpretar: é impossível colocar as telhas se não há tijolos.

 

Marcos Lima de Freitas

Médico e presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (CREMERN).

 

    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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A saúde e a baleia azul
Ter, 01 de Agosto de 2017 11:00

Alfredo Guarischi*

 

O jogo da baleia azul é um enorme problema que vem preocupando todos os responsáveis por adolescentes. Propondo cinquenta desafios em complexidade crescente, chega a sugerir o suicídio na última etapa.

É possível que esse crime cibernético tenha nascido, em algum ponto da Rússia, como uma notícia falsa (fake news).

Quem estabelece as regras e propõe os desafios é um canalha denominado mentor, uma espécie de líder, geralmente adulto, que ordena a tarefa a ser realizada no dia, exigindo a comprovação com fotos do trabalho feito.

Essa fake news se tornou realidade quando a tarefa número 50, que poderia ser pular do alto de um edifício, foi dessa forma cumprida por uma jovem de 15 anos. Outros adolescentes chegaram ao fim do jogo e de suas vidas, se atirando na frente de um trem em movimento ou se enforcando, por exemplo.

Isso ocorreu na França, Romênia, Inglaterra e outros países, chegando ao Brasil.
Nossa assoberbada, mal remunerada e metralhada polícia tem mais esse desafio a investigar.
Como aqui é o país onde surgiu a ideia de que nunca se viu nada igual, inovamos, mas baseados em notícias verdadeiras.
Isso é que é ser diferente!
Os hospitais públicos estão sucateados. O SUS vem sendo atacado de forma firme, para que se crie um sistema de planos de saúde que jamais darão cobertura adequada.

O Brasil tem mais faculdades de medicina que os EUA e a China, perdendo apenas para a Índia; nos últimos treze anos, nosso governo vem promovendo desenfreada destruição das faculdades de medicina públicas e incentivando a criação de escolas médicas sem qualquer planejamento racional, na maioria das vezes, para atender grupos políticos. De maneira despudorada, sustenta algumas faculdades privadas de fundo de quintal com a oferta de bolsas de estudos com dinheiro público. O valor das mensalidades é estabelecido por essas mesmas empresas de ensino, tornando a medicina o mais lucrativo negócio de ensino superior brasileiro. O correto seria aumentar o número de faculdades públicas ou o número de vagas nas já existentes.

Esse projeto enfraquece a formação profissional, pois o ensino médico exige hospitais-escola e longo treinamento após os seis anos de faculdade, sendo necessária residência médica de três a cinco anos para formar um profissional pleno.

Faltam remédios, e os que compram podem ser como a asparaginase chinesa, usada para o tratamento de crianças com leucemia, que não tem certificação, mas tem impurezas de sobra.

Como eu, a maioria dos médicos há muito vem alertando sobre o que ocorre com o sistema de saúde brasileiro.

Mesmo assim, e diante de tantas notícias verdadeiras, nosso Ministério da Saúde decidiu impor aos brasileiros, principalmente os idosos, o seu jogo da baleia azul.

As tarefas impostas podem piorar ainda mais o que já está muito ruim.

Esse jogo tem que ser proibido e a polícia vai ter que investigar.

 

* Médico, cirurgião geral e oncológico, especialista em Fator Humano. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

     

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