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Carta aberta ao ministro da Saúde
Sex, 29 de Setembro de 2017 12:07

Isac Jorge Filho*

 

Senhor Ministro,

O senhor não poderia conseguir meio mais eficaz para se colocar como inimigo da maioria dos médicos brasileiros do que com sua falácia quanto a “médicos que fingem trabalhar”. Apenas escaparão como seus aliados aqueles que sua mensagem atingiu, ou seja, os médicos que fingem que trabalham. Mas, o senhor vai se decepcionar, eles são pouquíssimos. O MÉDICO BRASILEIRO TRABALHA MUITO!

É pena que o senhor chegue a ocupar o Ministério da Saúde e não conheça como trabalham os médicos de seu país: sem material adequado, agredidos em hospitais e unidades de saúde, assaltados nas unidades mais periféricas, mortos em acidentes, ao sair cansados de plantões, contaminados no seu trabalho por falta de equipamentos de proteção. A lista é muito mais longa, mas ficaremos por aqui.

Como o senhor deve saber, de um modo geral, os médicos brasileiros dirigem-se para assistência, pesquisa ou docência.

Sua equipe certamente tem amplo acesso à mídia e deve saber que estão cada vez piores as condições para trabalho em pesquisa e docência em nosso país. Muitos dos nossos melhores profissionais estão saindo do Brasil em busca de condições dignas de trabalho, muitas vezes para terminar pesquisas começadas aqui e interrompidas, não por “fingir que trabalha”, mas por falta de matéria-prima, insumos, equipamentos e recursos humanos auxiliares. Esses colegas carregam para o exterior todo o aprendizado de anos e anos, bancados com os recursos saídos, direta ou indiretamente, de recursos vindos dos bolsos dos brasileiros. Se pudessem, não fariam essa opção. Carregam também a sensação amarga de não conseguir realizar sonhos que envolviam a vida e o futuro em seu país. Sentem, no fundo da alma, a enorme decepção de saber que as autoridades pouco ou nada fizeram para impedir seu exílio – voluntário, mas forçado pelas condições precárias que nossos governos legaram ao Brasil. Sabem, como todos nós, que seu governo dirá que a culpa é do governo anterior, assim como o governo anterior alegava que os culpados estavam nos governos dos antecessores. Já estamos fartos desse joguinho político e cansados de assistir ao mesmo filme de terror, agora acrescido de sua declaração que atinge toda a classe médica brasileira e mostra sua enorme insensibilidade e desconhecimento dos reais problemas que afligem a saúde do Brasil.

Como o senhor deveria saber, a situação na área da assistência à saúde pública é ainda pior. Falta de tudo, e não estamos falando de coisas complexas ou altamente tecnológicas. Desde fios e compressas até medicamentos do dia a dia. Hospitais, unidades de saúde e mesmo faculdades insistem em tentar conseguir condições mínimas para que os profissionais possam exercer adequadamente seu trabalho. E o senhor diz que os médicos fingem que trabalham? Nós perguntamos se o senhor trabalha para resolver nossos problemas de saúde ou finge que trabalha, fazendo declarações de alcance nacional como essa? Sabemos que o senhor não é da área da saúde e não sente pessoalmente as enormes necessidades deste país doente. É mais fácil, como tem feito a maioria de seus antecessores, colocar a culpa nos médicos, certamente o elo mais frágil na corrente que deve manter um bom sistema de saúde. Primeiro vocês argumentaram que faltavam médicos e aumentaram o número de vagas nas faculdades e de novas faculdades. Trouxeram médicos do exterior sem passar por exames de qualificação (todos seriam médicos realmente?). Como não deu certo e não querem confessar que o problema não está no trabalho médico, mas na ineficácia de um sistema desequilibrado, querem agora dizer que o problema não é mais o número de médicos, mas o pretenso fato de que os médicos fingem que trabalham. São argumentos pouco mais que infantis, mas seria necessário que a população percebesse esse jogo para que ele fosse desfeito. Mas, infelizmente, as mídias de acesso colocadas à disposição das pessoas estão em sua grande maioria comprometidas com as condutas governamentais ou de grandes empresas. Ainda assim, vamos continuar insistindo com a verdade, e a verdade é que A GRANDE MAIORIA DOS MÉDICOS BRASILEIROS TRABALHA MUITO, EM MÁS CONDIÇÕES PARA O EXERCÍCIO PROFISSIONAL E NÃO PODE ARCAR COM ESSA ARMAÇÃO – QUE NÃO É NOVA – DE QUERER ENGANAR A POPULAÇÃO COLOCANDO NAS COSTAS DOS MÉDICOS UMA RESPONSABILIDADE QUE NÃO É NOSSA, MAS DE UM SISTEMA BEM PLANEJADO, MAS GERENCIADO POR PESSOAS INCAPAZES DE ENTENDER QUE O BRASIL É UM PAÍS DE MUITAS DOENÇAS, E A PRINCIPAL DELAS É A INSENSIBILIDADE POLÍTICA QUE POR TANTOS ANOS AQUELES QUE ESCOLHEMOS NAS URNAS CUIDAM DE MANTER.

 

Cordialmente,

Prof. Dr. Isac Jorge Filho
MÉDICO

 

 

* Isac Jorge Filho é professor titular de Bioética da Universidade de Ribeirão Preto (SP) e chefe do Serviço de Gastroenterologia e Nutrição da Santa Casa do município paulista, ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e ex-conselheiro suplente do CFM.

 

professor da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) e ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

 
A campanha do Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio
Sex, 29 de Setembro de 2017 12:07

Rosylane Nascimento das Mercês Rocha

 

Estarrecido o mundo acordou no dia 27 de março de 2015 com a notícia de que o copiloto Andreas Lubitz teria jogado o Airbus 320 da Germanwings contra as montanhas dos Alpes franceses em decorrência de suposta crise de depressão, matando a si próprio e mais 149 pessoas.

Os principais jornais noticiaram que o jovem copiloto de 27 anos sofreu uma crise depressiva, com diagnóstico que até então não havia sido confirmado por nenhum médico. A forma com que foram tratados o evento e as suposições apenas provocou uma onda de revolta, medo, interpretações distorcidas e exaltou o estigma, o preconceito e a discriminação.

Passados dois anos dessa tragédia, muitas vidas se perderam em decorrência do suicídio. Isso decorre da desassistência à saúde e da discriminação ao doente com transtorno mental.

Há algumas décadas tem-se trabalhado pelo fim do estigma, trazendo à baila questões importantes acerca da inclusão social dos doentes com transtornos mentais e comportamentais (TMCs). À luz da ciência médica, são doenças que, se submetidas ao tratamento especializado, permitem ao paciente o convívio pleno na sociedade, com o desenvolvimento das suas potencialidades nos diversos campos do saber, do lazer e do trabalho.

É histórico o preconceito sofrido pelos pacientes, seja por parte deles próprios, da família, dos pares e de toda a sociedade, de todas as formas e matizes. É interesse absoluto da medicina exterminar esse tipo de estigma, que prejudica o diagnóstico preventivo e o tratamento e culmina de forma trágica com a interrupção da vida de milhares de pessoas acometidas, sendo, por ano, cerca de 12 mil suicídios, um a cada 45 segundos.

Sobre a tragédia com o Airbus 320 da Germanwings, ouvimos: “Por que ele estava trabalhando com depressão?”.

Em muitas ocasiões, os pacientes em curso de transtorno mental não precisam se afastar do trabalho, ao contrário do que a maioria das pessoas pensam. O trabalho não é apenas um meio de garantir a subsistência do indivíduo e de sua família, mas, de fato, elemento fundante do homem. É meio de realização pessoal, de elevação da autoestima, de reconhecimento dos pares, de sentido de utilidade à sociedade, enfim, meio de desenvolvimento de suas potencialidades, e não, como outrora difundido, meio de tortura do indivíduo. Por outro lado, quando o paciente não está em tratamento médico psiquiátrico ou, ainda, quando o trabalho se apresenta como fator de adoecimento, desencadeamento ou agravamento de um transtorno mental, então se faz necessário o afastamento temporário da atividade laboral.

Nas duas situações, o médico do trabalho, como gestor em segurança e saúde no trabalho, reúne todas as ferramentas necessárias à identificação da doença, do risco e da conduta a ser seguida, encaminhando o trabalhador ao psiquiatra e monitorando o seu tratamento. No Brasil e no mundo, os TMCs figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, apresentando o mais alto índice de absenteísmo, ou seja, o que deixa o trabalhador por mais tempo afastado. Em segundo lugar, aparecem as doenças musculoesqueléticas (DMEs) e, em terceiro, lesões, envenenamento e algumas outras consequências de causas externas. Na empresa, programas de prevenção em saúde mental, palestras e campanhas educativas com envolvimento de empregados e empregadores têm resultados exitosos quando inseridos na cultura empresarial, com acesso aos serviços públicos e/ou privados de assistência ao doente com TMCs.

Dados do Ministério da Saúde evidenciam que 46 milhões de brasileiros sofrem de depressão; no mundo, aponta a Organização Mundial de Saúde, são 700 milhões, 1/3 sem acompanhamento médico especializado. Os TMCs representam 13% de todas as doenças no mundo. A OMS ainda prevê que 350 milhões de indivíduos deverão sofrer de depressão, e 90 milhões terão um surto em decorrência de dependência química.

Em que pesem os trágicos eventos e os dados alarmantes, ainda enfrentamos graves falhas na assistência à saúde mental da população e ausência de políticas públicas eficazes.


* É médica do Trabalho, diretora da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) e Conselheira Federal de Medicina

   

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
O desaparecimento de crianças e de adolescentes
Qua, 27 de Setembro de 2017 14:22

 José Fernando Maia Vinagre*
 
Como pediatra, ao longo de mais de três décadas de exercício profissional, fui confrontado em diferentes momentos com relatos sobre o desaparecimento de crianças e de adolescentes. Talvez pelo envolvimento com minhas atividades, não visualizasse um fenômeno causador de tantos danos. Com o passar dos anos, mudei minha percepção. Hoje não tenho dúvidas sobre a existência desse tema como um grave problema social, desestruturador de vidas e de famílias.

No Distrito Federal, a auxiliar de cozinha Fátima Carvalho não consegue mais uma noite de sono tranquila. Em São Paulo, Sandra Moreno se tornou uma ativista, com militância reconhecida nacionalmente. Na mesma cidade, Lucélia viu sua vida se transformar numa busca incessante. Três vidas, três histórias, três mulheres que têm dois pontos em comum: são mães de crianças que desapareceram sem deixar rastros e que até hoje mantêm acesa a chama da esperança de que seus dramas tenham um final feliz.

Num País onde as estatísticas sobre esse assunto não são confiáveis, acredita-se que, por ano, em média 250 mil pessoas desaparecem no Brasil sem deixar rastro. Dessas, em torno de 40 mil têm menos de 19 anos, de acordo com estimativas. Desde 2012, o Conselho Federal de Medicina (CFM), com o apoio de várias outras entidades civis, tem tentado recolocar o tema na agenda pública de debates. Contudo, a percepção é de que ainda há muito a ser feito.

Como parte desse esforço, merece destaque a organização de um abaixo-assinado cobrando a efetivação do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos. O modelo atual, que está sob a supervisão do Ministério da Justiça (disponível em: www.desaparecidos.gov.br), tem recebido críticas de quem acompanha o tema, pois é considerado desatualizado e sem resultados efetivos no enfrentamento do problema.

Esse Cadastro Nacional tinha como proposta montar um banco de dados seguro, capaz de auxiliar na difusão de informações e no esclarecimento dos casos de desaparecimento. No entanto, após passar por reformulação, a nova versão, colocada no ar em março de 2013, até agora não conseguiu se consolidar como uma referência no enfrentamento da questão.

A baixa adesão sinaliza a falta de efetividade da ferramenta. De acordo com o site R7, em setembro de 2013, eram contabilizados 305 casos cadastrados, em 17 estados. Passados quase dois anos, a quantidade de inscritos não chegava a 400, em 20 estados. A reportagem acusava uma situação de abandono, corroborada pela ONG Mães da Sé, uma das entidades que referência no País sobre esse assunto.

Se funcionasse conforme o previsto, as coisas poderiam ser diferentes. A vantagem estaria no fluxo qualificado de informações, que pode ser fundamental na solução dos casos. Por exemplo, hoje uma criança desaparece em um estado. Porém, a elaboração do boletim de ocorrência numa delegacia de polícia não é garantia de que o alerta será dado em outras unidades da Federação.

Além disso, se essa mesma criança for encontrada em um determinado estado, a falta de integração não ajudará em nada para que ela chegue até os pais ou as autoridades do local onde a ocorrência inicial foi gerada. Em outras palavras, a ausência de comunicação impedirá a busca e, em algumas situações, que um ponto final seja colocado em histórias embebidas em lágrimas e desespero.

O Ministério da Justiça, por sua vez, enxerga o potencial do Cadastro Nacional, mas admite que ainda não conta com a esperada integração com órgãos de segurança pública. Para tanto, anuncia que tenta levar esse projeto adiante, inclusive como forma de dar sequência à Lei nº 12.648, instituída em 4 de julho de 2012, que “prevê a integração de todos os boletins de ocorrência dos Estados e a divulgação de dados de pessoas desaparecidas no portal da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Sinesp)”.

Enquanto a solução definitiva não vem, a ineficiência continuará a criar o ambiente propício para que o desaparecimento de crianças e de adolescentes prospere no País. Contudo, se faltam políticas públicas e ferramentas eficientes para prevenir e combater esse fenômeno que afeta esse segmento da população, também não se pode ignorar a necessidade de diagnosticar as causas que levam à incidência de novos casos.

Considerados os possíveis diagnósticos de fenômeno de tamanha complexidade, a sociedade, em especial o governo – em todas as suas esferas de atuação –, deve estar atenta a ações que são necessárias para tratar o problema adequadamente. A atualização do Cadastro Nacional, como defendido pelo CFM e seus parceiros institucionais, é apenas umas das atitudes que devem ser adotadas como urgência.

Além dele, devem ser avaliadas medidas como a criação de delegacias especializadas na área da infância e da juventude, o que poderia tornar mais efetiva a busca pelos jovens desaparecidos, conforme tem sido proposto por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em São Paulo. No entendimento do grupo, que atua na Comissão da Infância e da Juventude da instituição, urge a realização de um trabalho multidisciplinar para tratar do problema.

Pela sugestão, o registro da ocorrência poderia ser feito em qualquer delegacia, mas as investigações seriam conduzidas por equipes especializadas. Essas delegacias deveriam ter condições de atuar com uso de infraestrutura e de tecnologias necessárias às apurações, além de contar com equipes multidisciplinares, com assistentes sociais e psicólogos.

No campo policial, também se faz necessário acabar com o mito de que a ocorrência de um desaparecimento só pode ser feita após 24 horas de sua constatação. Pelo contrário, ao primeiro sinal de suspeita, as autoridades devem ser comunicadas para que as investigações tenham início o quanto antes. Aliás, essa questão reforça a relevância de outra medida: a implementação de uma ampla campanha, de caráter permanente, como foco no esclarecimento da sociedade sobre o problema do desaparecimento de crianças e de adolescentes e nas formas de sua prevenção.

Em um País com tantos problemas sociais, o desaparecimento de crianças e de adolescentes não pode ser visto como um tema acessório ou menor. Trata-se de um fenômeno importante que carece de medidas para seu enfrentamento. No Brasil, esse é mais um desafio que se impõe, exigindo respostas concretas das autoridades e também das famílias, que podem ser agentes efetivos de prevenção, seja pela adoção de normas de segurança, seja pelo estímulo ao diálogo entre pais e filhos, certamente fatos de proteção. Assim, muitos homens, mulheres, crianças e adolescentes serão poupados de horas de angústia e de desespero por desconhecerem o paradeiro de seus entes queridos.

 

* É corregedor do Conselho Federal de Medicina (CFM).

    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Pós-graduação e especialidades médicas
Ter, 12 de Setembro de 2017 12:19

 

Leonardo Mariano Reis*

 

Em volta rápida por Goiânia e outras cidades, ou em qualquer acesso à internet, logo nos deparamos com uma grande oferta de cursos de pós-graduação na área da saúde, especificamente na área médica, que tem aumentado a cada dia. Ministrados por diversas instituições, os cursos propõem a formação médica em áreas como cardiologia, pediatria, clínica médica e tantas outras.

É neste ponto que chamamos a atenção da classe médica. Ninguém nega a importância da qualificação, da atualização e da educação continuada dos profissionais. Longe disso. Na área da saúde, talvez mais do que em muitas outras, a educação continuada se faz extremamente necessária e a pós-graduação, quando bem ministrada, contribui muito para tal atualização.

Mas o que é preciso deixar claro a todos os médicos e também à população que busca seus serviços é que a conclusão de curso de pós-graduação não confere ao aluno o título de especialista na área. Ou seja: o certificado emitido por um curso de pós-graduação lato sensu não dá ao médico o direito de registrar-se em um Conselho Regional de Medicina (CRM) como especialista nem em área de atuação de uma especialidade.

Assim, o médico que conclui esses cursos não poderá divulgar que é especialista ou que está habilitado em determinada área de atuação. A divulgação da conclusão de pós-graduações também não deve nem pode ser feita de forma que induza o paciente a acreditar que o médico tem especialidade na área.

Em medicina, a conquista do título de especialista passa pelo cumprimento de requisitos como a conclusão de residência médica credenciada e a aprovação em provas de título. Para efetuar o registro de especialista em um CRM, o médico deve apresentar título reconhecido pela Comissão Mista de Especialidades (CME), formada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM).

Mesmo quando reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC), os cursos de pós-graduação lato sensu são exclusivamente de qualificação acadêmica e não profissional. Indevidamente, algumas empresas que os oferecem associam pós-graduação à qualificação profissional como especialista, o que representa propaganda enganosa a qual os médicos precisam estar atentos.

A simples conclusão do curso lato sensu também não confere o direito de anunciar em cartões de visita, fachadas de consultórios ou qualquer outro meio uma especialidade reconhecida ou não pelo CFM. De acordo com a Resolução CFM nº 1.974/2011, o médico só pode anunciar a especialidade na qual é registrado no CRM.

A população também precisa estar atenta ao buscar um especialista e verificar se a especialidade anunciada figura no rol definido pela Resolução CFM nº 2.149/2016, que homologa a relação das 54 especialidades e 57 áreas de atuação médicas reconhecidas pela Comissão Mista de Especialidades.

Medicina estética, medicina ortomolecular e outras que possam ser apresentadas como novidades e diferenciais do profissional não fazem parte dessa lista. Uma forma de a população saber se a especialidade é reconhecida e se o médico é habilitado é verificar se há registro no CRM, o que pode ser consultado no site dos Conselhos.

Entendemos ser necessário aumentar o número de vagas em residências médicas de todo o país a fim de ampliar o acesso dos médicos a esses cursos e à formação de especialistas. O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), o CFM e demais CRM têm trabalhado neste sentido e também fiscalizado o cumprimento das resoluções que tratam do registro e da divulgação de especialidades que visam, principalmente, a proteção da população e a garantia do bom e ético exercício da medicina.

 

* É presidente do Cremego.

     

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As inconsistências da PNAB
Seg, 11 de Setembro de 2017 11:17

 

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima

 

A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) é reconhecida como pedra angular da saúde pública e requer planejamento racional, com ênfase na qualidade dos serviços prestados e na redução dos desperdícios financeiros, na busca da universalidade e da integralidade do sistema público de saúde.

Trata-se de uma política que exige constante formulação programática, com ampla e efetiva participação de representantes dos diversos segmentos profissionais e das comunidades, em um contexto de diálogos e exposições de experiência exitosas e internacionalmente consolidadas, com as devidas adequações às realidades geográficas, sociais e econômicas do País.

A PNAB, divulgada pelo Ministro da Saúde há poucos dias, não foi construída no âmbito de um processo caracterizado pelo compartilhamento de ideias e contínua discussão. A sua reestruturação, iniciada no ano de 2015, foi feita com equívocos típicos de gestões autocráticas, utilizando-se mais uma vez a consulta pública como forma de se obter uma aparente legitimidade democrática.

A retórica de prioridade à Estratégia de Saúde da Família (ESF) cai por terra quando se observa a instituição de financiamentos específicos para outros modelos de atenção básica, sem agentes comunitários de saúde ou com o seu deslocamento das equipes existentes na ESF, que já não contam com o número suficiente desses colaboradores.

Torna-se claro que, com a simples finalidade de ordem econômica, sem preocupação com a qualidade dos serviços, haverá retração do financiamento da ESF para implantação de outros modelos seletivos e focais.

As especificidades locorregionais são relevantes, mas, deveriam ser atendidas com substancial aumento do Piso da Atenção Básica fixo (PAB fixo), com valor médio nacional e atual em apenas R$ 24,00 per capita ao ano, insignificante perante as necessidades da população.

Ainda devem ser ressaltadas as faltas de valorização e estímulos à qualificação dos recursos humanos, das medidas destinadas a suprir as carências de condições ao trabalho e das diretrizes mínimas a serem observadas nas parcerias intermunicipais, imprescindíveis à competência administrativa da Atenção Básica.

De fato, as inconsistências da PNAB, recentemente anunciada, demonstram que, se existe competência administrativa, os governos a escondem muito bem! Têm procurado com intensa campanha publicitária desviar a atenção do povo das verdadeiras causas do caos que assola a saúde pública.

Neste sentido são elaboradas mensagens por autoridades sanitárias, com frases de efeito que escondem os principais motivos da precariedade na saúde, como em três recentes episódios de injustas acusações aos médicos brasileiros pelo ministro Ricardo Barros: “vamos parar de fingir que pagamos os médicos, e os médicos precisam parar de fingir que trabalham”.

Apesar das nossas relações sociais contemporâneas, que fazem lembrar as históricas narrativas do período de interregno da Antiga Roma, das provocações gratuitas e dos estigmas jogados contra os médicos, os compromissos vocacionais desses profissionais são sustentados com angústias, sofrimentos, depressões e reconhecidos em pesquisas de opinião pública.

No final do ano de 2016, em pesquisa do Instituto Datafolha, os médicos brasileiros continuaram no topo do ranking das classes profissionais com mais crédito ou de maior confiança. Por sua vez, com honrosas exceções, a classe à qual pertence o Ministro da Saúde – a dos políticos – ficou situada infelizmente no último lugar, como consequência de alianças político-partidárias feitas de modo argentário e vulneráveis às ações corporativas e predatórias do bem comum.

 

Palavra do Presidente publicada na edição nº 269 do Jornal Medicina. Acesse aqui a edição.

 
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