Rede dos Conselhos de Medicina
Selecione o Conselho que deseja acessar:
Artigos
Conceitos equivocados em Medicina
Sex, 22 de Dezembro de 2017 10:09

José de Souza Andrade Filho*


Muito se tem escrito sobre o ensino da Medicina no Brasil e em outros países, frequentemente com pontos de vista divergentes. É óbvio que todas as faculdades de Medicina procuram oferecer o melhor aprendizado ao seu corpo discente. A maioria dos professores e coordenadores de graduação e de residência médica demonstra grande empenho com a qualidade do ensino, procurando repassar seus mais sábios conceitos e condutas aos graduandos e pós-graduandos. Entretanto, talvez por desconhecimento de trabalhos científicos fidedignos, preceitos anacrônicos são repassados aos alunos de graduação e de pós-graduação em nosso país.

Exemplo de conceito equivocado e amplamente difundido – e um dos mais comuns incômodos do ser humano – é o chamado cisto sebáceo. A formação de cistos na pele e no subcutâneo, popularmente conhecidos como “lobinhos” ou “lombinhos”, é, muitas vezes, rotulada como cistos sebáceos, retirados através de procedimento cirúrgico, geralmente de fácil execução e em ambulatório. Essa nomenclatura – cisto ou quisto sebáceo – é encontrada em vários livros de ensino médico, consta de prontuários e fichários privados de pacientes e de estatísticas de procedimentos cirúrgicos. Trata-se de erro grosseiro de interpretação morfológica, pois essa lesão é revestida por um epitélio semelhante ao da pele, isto é, estratificado e queratinizante e não contém sebo. Sua denominação correta é cisto epidermoide (semelhante à pele). Uma variante desse cisto, que é comum no couro cabeludo, é mais enfaticamente rotulada como cisto sebáceo. Essa lesão, já descrita e estudada por especialistas, é, na realidade, um cisto triquilemal ou pilar, referindo-se a um tipo especial de queratinização do pelo. Os que insistem que a formação do cisto sebáceo resulta da obstrução do canal excretor da glândula sebácea e da consequente retenção de sebo pecam por desconhecer a patogênese da lesão, como comprovado em trabalhos científicos do século passado, um dos quais publicado em 1964 em periódico americano de grande credibilidade (AM Kligman. The myth of the sebaceous cyst/O mito do cisto sebáceo, Archives of Dermatology, 1964). A glândula sebácea, quando obstruída, entra em atrofia, pois suas células (sebócitos) não sobrevivem à compressão provocada pela retenção de substância córnea do pelo.

Outra fonte pesquisada comenta: “os cistos ceratinosos (epidermoides) foram conhecidos por muitos anos como cistos sebáceos, uma designação incorreta, oriunda da interpretação enganosa a olho nu de seu conteúdo e perpetuado por uma repetição destituída de crítica”. Embora inócuo em muitos pacientes, todos querem se livrar dele, sobretudo pelo aspecto estético.

Outros dois conceitos impróprios, também ensinados no curso médico, são o “granuloma piogênico” e as “hidradenites/hidrosadenites”. O primeiro, na verdade, não é um granuloma genuíno e nem está relacionado à formação de pus, trata-se de lesão tipo “hemangioma” capilar/lobular ou, em certos casos, tecido de granulação hiperplásico. A hidradenite supurativa perianal, da axila e da virilha, entre outros órgãos, resulta da oclusão dos ductos de glândulas apócrinas, conforme afirmam vários especialistas. O professor A. Bernard Ackerman, renomado dermatologista americano, argumenta: “A hidradenite supurativa representa meramente caricatura em locais diferentes de doença do tipo acne, não havendo comprometimento inicial das glândulas apócrinas, mas apenas secundariamente, consequente à supuração que se inicia no infundíbulo dos pelos e estende-se mais profundamente aos tecidos subjacentes. As hidradenites/hidrosadenites quase sempre representam foliculites de grau acentuado e, às vezes, com formação de várias fístulas profundas. As glândulas apócrinas, na maioria dos casos, não são afetadas ou o são secundariamente pela foliculite”.

Alguns alegam que muitos termos são “consagrados pelo uso”, o que é, provavelmente, um eufemismo ou uma farsa. Médicos e cientistas não apagaram e substituíram paulatinamente os mais de dez séculos de conceitos dogmáticos e incorretos de Cláudio Galeno, considerado um deus da Medicina? Não adotamos a “verdadeira anatomia” de André Vesálio? Não abraçamos os grandes progressos semiológicos e terapêuticos mais recentes da Medicina e salvamos vidas? No século XXI podemos deixar o “eu não sabia” para outros.

Muitos professores poderiam argumentar que temos algo mais importante a nos preocupar, o que é verdade. Contudo, é nosso dever transmitir aos jovens alunos/acadêmicos conceituações que tenham respaldo científico, tanto no aspecto morfológico quanto no patogenético e clínico. A solução para problemas dessa natureza reside em abolir conceituações equivocadas nos períodos de graduação e pós-graduação.

Segundo Mark Twain, escritor americano, “não se desembaraça de um hábito jogando-o pela janela, mas fazendo-o descer as escadas degrau por degrau”.


* É professor de Patologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, patologista do Hospital Felício Rocho e membro da Academia Mineira de Medicina.

 
    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Ensino a distância nas áreas da Saúde: mito e desafios
Sex, 22 de Dezembro de 2017 10:01

Luiz Roberto de Oliveira*

 

O interesse pela educação a distância (EaD), em qualquer de suas modalidades, ou pelo ensino virtual, quando o intento for referir-se mais ou apenas ao uso das tecnologias informacionais computacionais hoje viabilizadas com emprego das Tecnologias Digitais da Informação e das Comunicações (TDIC), tão diversificadas quanto ubíquas desperta curiosidade e discussões, opiniões polarizadas contra e a favor, muitas vezes fruto da pouca compreensão de aspectos fundamentais do tema.

O uso das TDIC constitui tendência universal irreversível. O efeito central dessas tecnologias, o cerne de sua influência em quase todas as áreas da sociedade atual, algo sem precedentes na história humana, decorre primariamente de seu impacto na comunicação. Atinge, além disso, as diversas maneiras de manipular o conhecimento, interferindo em todas as etapas dessa atividade. Aplica-se à coleta de dados, seu armazenamento, seu tratamento na produção de conhecimento significativo e, sem dúvida, sua disponibilização, transmissão e nas várias possibilidades de adaptação midiática. É possível obter boa qualidade de ensino sem tecnologia digital? É claro que sim. Mas com seu uso há muitas possibilidades de melhorar a educação e facilitar a aprendizagem. Basta aderir ao que já se tem como certo sobre melhores práticas em EaD. Aliás, convém lembrar que o problema básico não é tecnológico, e sim pedagógico.

O ensino virtual, enfim, funciona, mas não de qualquer modo. O contexto, portanto, não se restringe simplesmente a ser contra ou a favor. Posicionar-se contrário ao uso da EaD nas graduações da área da Saúde, tendo como maior argumento apenas a tradição do ensino à beira do leito, é ignorar todos os avanços do ensino híbrido e alimentar o mito da presencialidade, admitindo-o como única forma válida de aprender, esquecendo, negligenciando e subvertendo a verdade dos conhecimentos acerca das inteligências múltiplas, da andragogia, da heutagogia, do construcionismo, desconhecendo, portanto, aspectos elementares das teorias de aprendizagem. Tal posição é, no mínimo, ignorar ensinamentos de Paulo Freire sobre a dialogicidade humana. Equivale a atribuir, de certa forma, a qualquer instituição que a condene um status de imobilidade intelectual, ao se colocar contra algo que cresce e se renova vertiginosamente, despertando a atenção em várias partes do mundo como fator crítico de desenvolvimento. A atual produção científica avassaladora, impede os meios tradicionais de atender às demandas por mais e permanente formação. O importante é estar próximo do paciente com informação adequada para melhor atendê-lo no local e no momento certos, independente de impedimentos de tempo e localização geográfica. As TDIC, nesse caso, cumprem muito bem seu esperado papel de acelerar o primeiro deles e encurtar distâncias, redimensionando tais fatores.

A tecnologia, no entanto, pode facilmente descambar para o tecnopólio, conforme alerta Neil Postman, que o define como “a rendição da cultura à tecnologia”. Isso pode acontecer em todos os setores, não apenas no ensino e não somente no ensino na área da Saúde. É contra isso que se deve pugnar.

O melhor meio de evitar esse erro condenável é conhecer quais as melhores contribuições das TDIC para melhorar as tecnologias educacionais, inclusive na Saúde, diante de suas especificidades. O caminho, assim, não é assumir uma postura conservadora, negando o progresso, mesmo potencial, suscetível de ser obtido em qualquer área mediante emprego da tecnologia. Ela deve ser considerada, além disso, como afirma Goodman, “um ramo da filosofia moral, não da ciência”. Portanto, como também nos ensina Franco Júnior, torna-se necessário admitir “uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais”.

E se nos aproximássemos, pela vertente da ética, do eixo central da questão de aceitar ou não a EaD baseada na web como válida no ensino de graduação na área da Saúde, será inevitável enfrentar as perguntas: é ético não utilizar o ensino virtual e suas potencialidades benéficas na formação de profissionais de saúde, tendo em vista que eles adentrarão o mercado profissional sem opções que lhes permitam não utilizar as TDIC? É ético condenar a EaD deixando futuros profissionais sem melhores condições de atender à sua condição de aprendizes ao longo da vida, sabendo que será muito mais fácil fazer isso por meio on-line, desde que disponibilizada com qualidade? Seria ético não ensinar como aprender com o uso das TDIC e como utilizá-las melhor nas profissões ligadas à Saúde? A EaD on-line, considerada como processo, possui óbvia contingência como algo em mutação, em crescimento. Não é terreno para aventuras e nem diletantismo. Menos ainda para condenações em que o conservadorismo mais se aproxima do obscurantismo irrefletido. À beira do leito, cada vez mais, é hoje necessário aderir à tecnologia que humaniza e não à ignorância que deforma.


* Mestre e doutor em Medicina, prof. associado IV do Departamento de Cirurgia, Núcleo de Tecnologias e Educação a Distância em Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará e coordenador da Câmara Técnica de Informática em Saúde do Conselho Regional de Medicina do Ceará

 
    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
O Sistema Único de Saúde e as filas de espera para cirurgias eletivas
Sex, 01 de Dezembro de 2017 10:10

Donizetti Dimer Giamberardino Filho*

 

A população brasileira convive, infelizmente, com a ineficiência do seu Sistema Único de Saúde (SUS). Dentre suas limitações, destaca-se a dificuldade de acesso e resolubilidade, demonstrada tanto nas situações mais urgentes, com falta crônica de vagas, como também nas cirurgias eletivas, cuja realização encontra muitas vezes demora inaceitável em filas de espera.

Conforme recente análise do CFM, estima-se que cerca de 900 mil procedimentos cirúrgicos aguardam a sua realização, já com diagnóstico e indicação médica. São números impressionantes, que representam aproximadamente a metade de todo o volume de cirurgias na rede pública em 2016.

O estudo constatou pelo menos 750 solicitações de cirurgias eletivas ainda pendentes na lista de regulação dos estados e capitais há mais de 10 anos. Vale salientar que estes resultados têm como fonte informações oficiais de 16 estados e 10 capitais, e são lamentáveis as negativas de resposta por gestores, o que contribui para a falta de transparência da dimensão deste grave problema na saúde pública do País.

A dificuldade de acesso do cidadão ao sistema público de saúde se inicia na porta de entrada do SUS, com a dificuldade de agendamento; prossegue no acesso às especiali dades médicas; e, por fim, após o diagnóstico e sua indicação de tratamento, culmina na lista de espera, que pode persistir por anos.

Como exemplos de referência, Portugal e Reino Unido têm resultados muito diferentes do Brasil. Em Portugal foi adotada, em 2004, a inclusão de pacientes em uma lista única, pública, sendo 270 dias o tempo máximo de espera para cirurgia. No Reino Unido, o prazo máximo é de 18 semanas, respeitado em 90% dos casos.

O SUS é um sistema de saúde universal, financiado por impostos e caracterizado pela pretensa equidade no acesso à saúde dos cidadãos e por serviços prestados em uma linha de cuidados com integralidade, na perspectiva da resolubilidade de problemas. Na Europa, países que instituíram sistemas de saúde universais se apoiam em três pilares: sustentabilidade financeira, acesso universal para todos os cidadãos e qualidade nos serviços prestados, com análise de resultados.

No Brasil, a Constituição de 1988 foi ainda além quando previu a gratuidade irrestrita e a descentralização da gestão em todos os municípios. Entretanto, o cenário real do SUS para os brasileiros é muito diferente do formato constitucional.

A União centraliza os recursos, mas descentraliza deveres sociais e progressivamente se desonera, na medida em que transfere a estados e municípios ônus cada vez maiores. Trata-se de um perigoso jogo de transferência de responsabilidades, com impacto negativo entre os municípios, o que se traduz nas centenas de ambulâncias transportando pacientes para cidades com serviços médicos de referência, mas sem qualquer organização hierárquica.

É preciso afirmar, nesse sentido, que os pactos intermunicipais não devem ficar na retórica e a saúde necessita ser política de Estado, não de governo. O planejamento de políticas públicas na área deve se basear em dados epidemiológicos, concentrando investimentos em redes organizadas que abarquem a atenção básica aos serviços especializados, incluindo os hospitalares. 

Temos testemunhado a diminuição sistemática de milhares de leitos; hospitais endividados, sobrevivendo com o custo adicional de juros e que significam, objetivamente, transferência de recursos do SUS ao sistema bancário; sem falar nos municípios que desativam serviços próprios e transferem responsabilidade aos municípios vizinhos, num verdadeiro "salve-se quem puder", onde o maior prejudicado é o cidadão, que necessita de serviços de qualidade.

Por fim, o indigno tempo de espera para cirurgias eletivas é também consequência de problemas de gestão, seja por conta da incapacidade de suprir a demanda, seja pela falta de integração entre as redes de assistência em seus diferentes níveis de complexidade.
A ineficiência é a tradução do subfinanciamento na alocação de recursos à saúde pública, da falta de estrutura organizada em redes de atenção e da desvalorização dos profissionais da saúde que prestam serviços no SUS e na rede privada.

Com respeito a todas as outras profissões vinculadas à saúde, são sobretudo os médicos e as médicas que não podem ser responsabilizadas por questões que não dependem de sua atuação profissional. A responsabilidade das filas é dos gestores, e as vítimas são os cidadãos, cujos direitos sociais são sistematicamente violados pelo Estado brasileiro.


* É conselheiro federal de medicina pelo Paraná e coordenador da Comissão de Defesa do SUS (Pró-SUS)

Opinião do conselheiro publicada na edição nº 272 do Jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 

 

 

 
Por que tantas escolas médicas no Brasil?
Sex, 01 de Dezembro de 2017 09:47

Mauro Luiz de Britto Ribeiro*

 

O Conselho Federal de Medicina (CFM) é uma autarquia federal de direito público criada pela Lei nº 3.268/57, sendo parte do Estado Brasileiro e não um órgão corporativo da classe médica. Possui autonomia administrativa e financeira, pois toda a receita da instituição origina-se dos médicos brasileiros. Tem como objetivo essencial de sua existência garantir boa assistência médica à população brasileira. É dever da instituição apresentar aos governos propostas às políticas públicas, não por corporativismo de classe, mas pelo dever legal do qual é investido.

O CFM defende o atendimento integral à saúde do paciente, que deve obrigatoriamente ser feito por equipe multiprofissional, sendo o médico o profissional de maior responsabilidade, por ser de sua competência estabelecer o diagnóstico e o tratamento dos pacientes. É fundamental, para que seja oferecida saúde de qualidade à população, que todos os profissionais componentes da equipe sejam bem formados, mas infelizmente a irresponsabilidade dos governos brasileiros nas últimas duas décadas comprometeu de forma desastrosa a formação do médico brasileiro, ao implantar uma política de abertura indiscriminada de escolas médicas no País.

Esta diretriz se acentuou particularmente com a presença do ministro Alexandre Padilha no Ministério da Saúde, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, que usou o argumento falacioso de que faltavam médicos no Brasil, que eles deveriam se fixar no interior e que, para isso, era necessário ampliar o número de médicos formados. Nada mais falso, pois todos os estudos mostram que escolas médicas não fixam médicos em nenhum lugar do mundo.

Assim, faculdades de medicina foram e continuam sendo abertas em cidades sem a menor infraestrutura que permita oferecer ensino de qualidade, pois estes locais não possuem atenção básica estruturada, hospitais ou médicos mestres e doutores para uma formação com qualidade.

Hoje, temos inacreditáveis 298 escolas no Brasil, o que compromete de maneira irreparável a qualidade de formação do médico brasileiro. O que temos presenciado no Brasil em relação à abertura de escolas médicas é algo sem precedentes no mundo.

Outro ponto que precisa ser esclarecido pelo Ministério da Educação (MEC) é o aumento do número de vagas em escolas médicas já existentes nos últimos 20 anos. No fim do ano passado o governo do presidente Michel Temer autorizou aumento de vagas para 20 cursos de medicina já existentes, possibilitando mais 1.601 ingressantes, que se somam a outras 623 vagas liberadas para este ano.

Reflexão que causa desconforto, mas que não temos como omitir, é o fato de que é impossível ignorar que o ensino médico é um negócio milionário, e que infelizmente se tornou tema de barganha entre os membros do Congresso Nacional e o MEC, pois a abertura de escola médica traz benefícios políticos para o parlamentar que conseguiu sua autorização. É estarrecedor que 70% das novas vagas criadas estão na rede particular, com mensalidades médias de R$ 6,8 mil, podendo chegar a inacreditáveis R$ 16 mil.

Esta abertura indiscriminada de escolas médicas e o aumento de vagas em faculdades de medicina já existentes tomam forma de verdadeira tragédia para a assistência médica à população quando confrontamos o número de médicos graduados, quando todas essas faculdades estiverem formando com as vagas de residência médica disponíveis. Estudos da Faculdade de Medicina da USP mostram que a vida profissional do médico no Brasil é de 44 anos. Assim, uma escola com 100 alunos coloca médicos no mercado de trabalho por este período, pois a 45ª turma só substituiria a 1ª, e assim por diante. Portanto esta escola colocaria 4,4 mil médicos no mercado de trabalho.

Existem no Brasil aproximadamente 30 mil vagas em escolas médicas, devendo atingir 35 mil com as escolas recentemente autorizadas e com o aumento do número de postos em escolas já existentes.

Atualmente, o País tem 444.070 médicos. No entanto, projeções mostram que em aproximadamente 40 anos o Brasil terá algo em torno de 1,5 milhão de médicos, número superior ao que existe, hoje, de técnicos de enfermagem.

Na contramão do absurdo número de médicos graduandos, temos o de vagas em residência médica praticamente estagnado, exceto para especialidades sem apelo para os médicos, por falta de políticas públicas que prestigiem estes especialistas, como a Medicina de Família e Comunidade, onde há uma grande expansão no volume de vagas, mas com 74% delas não preenchidas.

Esta desproporção entre o total de formandos e o de vagas disponíveis em residência médica fará com que um número cada vez menor de médicos se especializem naquele que é considerado o padrão-ouro de formação de médico especialista em qualquer país do mundo. Estes profissionais malformados entrarão no mercado de trabalho, principalmente nas áreas da atenção básica e na urgência e emergência, prenunciando-se uma verdadeira catástrofe na assistência à saúde da população brasileira.

O MEC divulgou recentemente uma moratória de cinco para abertura de novas escolas médicas no Brasil.

No entanto, a notícia veio acompanhada da informação de que antes serão cumpridos os editais do MEC nº 6/2014 e nº 1/2017, que autorizam a abertura de aproximadamente 1,5 mil vagas em novas escolas ainda a serem autorizadas.

O CFM defende a moratória para a abertura de novas escolas médicas no País pela necessidade de colocar um ponto final neste processo, que certamente trará consequências terríveis para a assistência à saúde da população.

No entanto, para que o CFM apoie a proposta do MEC, é fundamental que a moratória seja implantada de forma imediata, sem o cumprimento dos dois editais abertos e com o compromisso do Governo de que não será autorizada a expansão de vagas em escolas já existentes.

Formação de médicos é questão fundamental e essencial para a excelência na assistência à saúde. É chegada a hora de o MEC agir com responsabilidade em tema essencial para a sociedade e, junto com as entidades médicas, encontrar um caminho para a contenção de danos à população que esta política proporcionará.

Ao anunciar moratória fora das condições aqui colocadas, é atitude falaciosa em questão tão relevante para a população. Se esta proposta persistir mesmo diante de um cenário tão claro e de consequências catastróficas, resta-nos a indagação: a quem interessa a abertura de tantas escolas médicas no Brasil?

 

* É presidente em exercício do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Palavra do Presidente em Exercício publicada na edição 272 do Jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

Síntese deste artigo foi publicada no jornal Folha de S. Paulo, edição de 25 de novembro de 2017, na coluna Tendências/Debates, sobre o tema O governo deve suspender a abertura de novos cursos de medicina no Brasil?

 

 
Ensino a distância nas profissões da área da saúde: visão do CFM
Qua, 22 de Novembro de 2017 15:04

Lúcio Flávio Gonzaga*
 
Ensino a distância (EaD), segundo o conceito de Moore e Kearsley, é um processo de aprendizado planejado que normalmente ocorre em um lugar diferente do ensino e, como consequência, requer técnicas especiais em diferentes campos, desde o planejamento do curso propriamente dito, passando pelo preparo dos instrutores até a adoção de métodos eletrônicos de comunicação.
 
A primeira notícia registrada no mundo sobre EaD foi o anúncio da Gazeta de Boston sobre aulas por correspondência ministradas por um senhor chamado Caleb Phillips, publicado em 20 de março de 1728. Ele enviava suas lições todas as semanas para os alunos inscritos. Desde então, essa modalidade difundiu-se gradativamente em vários países.
 
No Brasil, o ensino a distância surge em 1904, no Rio de Janeiro, com os anúncios jornalísticos sobre cursos profissionalizantes feitos por correspondência (datilografia) para emprego no comércio. No entanto, o marco legal da educação a distância em nosso País é o Decreto nº 5.622/05, posteriormente substituído pelo de nº 9.057/17.
 
O papel da EaD na formação de saúde, com vistas à democratização das oportunidades no contexto das estratégias que consolidam o Sistema Único de Saúde (SUS), foi discutido no trabalho da professora Milta Neide Barron Torrez, “Distance education and training in the area of health: not so much, not so little”. Afirma a autora que as questões relacionadas com o EaD no setor saúde têm que ser alvo de intensos debates, estudos e produções.
 
De acordo com a autora, no EaD, como no ensino presencial, encontra-se em crescimento um lucrativo mercado em que a informação predomina sobre a formação. A mercantilização encontra no EaD condições de expansão muito favoráveis em função da velocidade proporcionada pelas novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC).
 
No entanto, não é obrigatório cair no canto das sereias do EaD. Não se pode ser indiferente às suas potencialidades e riscos nos campos de ensino e aprendizagem. Em reunião dos Conselhos Federais de Profissões Regulamentadas, vislumbrou-se os números desse segmento, com grande número de vagas/ano EAD para as graduações em Serviço Social (150 mil), Educação Física (123 mil), Enfermagem (75 mil) e Farmácia (36 mil).
 
Assim, é urgente um amplo debate sobre o papel da mediatização técnica (multimídia na relação pedagógica) sem se desvincular das questões relacionadas às especificidades das profissões da saúde e de suas competências com impacto nos cuidados oferecidos aos pacientes e às comunidades.
 
Nesse sentido, a escolha tecnológica deve subordinar-se à escolha pedagógica, com foco na autoaprendizagem e não na ostentação pedagógica ou na motivação mercantil, ou de qualquer natureza. Por isso, o Conselho Federal de Medicina (CFM) é contra o uso de EaD na etapa da graduação, embora reconheça sua importância para a sedimentação e a verticalização dos conhecimentos teóricos específicos dos diversos conteúdos pedagógicos, bem como para qualificação da docência.
 
Assim, a exemplo da medicina, que tem em seu esteio o aprendizado milenar na beira no leito, ao lado do paciente, as profissões da saúde não devem adotar o EaD exclusivo para a graduação, pois todas são profissões que têm como essencial o treinamento prático com pacientes como forma de substanciar a formação daqueles cujo alvo primeiro é o cuidado com a pessoa humana.
 
 

 *É conselheiro federal, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador da Comissão de Ensino Médico do CFM.

    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Mais Artigos...
<< Início < Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo > Fim >>

Página 6 de 168
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner

© PORTAL MÉDICO 2010 - o site do Conselho Federal de Medicina -Todos os direitos reservados
SGAS 915 Lote 72 | CEP: 70390-150 | Brasí­lia-DF | FONE: (61) 3445 5900 | FAX: (61) 3346 0231| E-mail: cfm@portalmedico.org.br | CNPJ: 33.583.550/0001-30