Rede dos Conselhos de Medicina
Selecione o Conselho que deseja acessar:
Artigos
Objeção de consciência do médico e autonomia do paciente
Ter, 22 de Novembro de 2016 11:02

Frederico Ferri de Resende*

 

O juramento de Hipócrates, de contornos bastante simbólicos, traduz o compromisso, especialmente ético, fundado no princípio bioético da beneficência, do futuro profissional médico de exercer sua profissão com retidão, não obstante não faça menção à necessária interação com o paciente.

Há, ainda, culturalmente, a ideia de que o médico, ao tratar de seu paciente, deve se utilizar, indistintamente, de todos os meios que estiverem ou não a seu alcance para curar o doente.

Porém, percebe-se que há, atualmente, tendência em se defender a prevalência da autonomia do paciente nas decisões médicas que envolvem o seu tratamento, o que nos sugere, em princípio, modificar o tradicional binômio dessa relação de médico-paciente para uma atual perspectiva de paciente-médico.

A ideia do médico como dono das melhores e incontestáveis decisões para o tratamento do doente fez que esse relacionamento se pautasse pela vontade indiscutível do profissional. Nesse aspecto, o paciente pouco participava das determinações que envolviam sua saúde, já que conferia ao médico a competência de escolher o que seria melhor para ele.

Fundado no atual conceito de autonomia privada, construiu-se a ideia da maior participação do paciente nas decisões que envolvem a saúde de seu corpo e alma. Na dúvida, prevaleceria a vontade do paciente – o que parece óbvio, já que é a vida e a integridade dele que estão em voga. É evidente que o consentimento informado do paciente é imprescindível para que essa autonomia seja exercida de maneira plena e consciente.

Ocorre que a afirmação da autonomia privada do paciente, por vezes determinante, tem deixado de lado a expressão da vontade do médico, que tem se submetido, em algumas situações, à “ditadura” da vontade do paciente.

Nesse sentido, cabe explicitar que a vontade do médico também deve ser levada em conta, já que, em certas situações, ele pode, inclusive, recusar-se a realizar certos procedimentos, fundamentado na sua objeção de consciência, desde que indique meios para que o enfermo não fique completamente desassistido. É o que dispõe o Código de Ética Médica no Capítulo I, ao preceituar no item VII que “o médico exercerá sua profissão com autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços que contrariem os ditames de sua consciência ou a quem não deseje, excetuadas as situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando sua recusa possa trazer danos à saúde do paciente”. São os casos do aborto legal, da transfusão de sangue em Testemunhas de Jeová, diretivas antecipadas de vontade, anticoncepção de emergência, ortotanásia, esterilização humana voluntária e revelação e uso de dados genéticos.

Para tanto, é recomendável que haja um diálogo entre os interesses dos sujeitos envolvidos em casos intensos, para que não seja pronunciada nenhuma decisão arbitrária ou precipitada que possa preterir de maneira absoluta a vontade de alguém.
Nesse sentido, não há dúvidas de que tanto o paciente quanto o médico, na relação jurídica estabelecida entre ambos, guardam sua autonomia privada. Apesar de ser evidente que a pretensão maior firmada nessa relação seja a saúde do paciente, as partes envolvidas podem manifestar interesses distintos, por vezes conflitantes.

Assim, seria possível conciliar a autonomia privada do médico frente a seu dever de cuidar do paciente, inclusive respeitando a vontade do enfermo?

Em princípio, estaríamos diante de conflito de interesses: de um lado, o exercício da autonomia privada do médico de se objetar a praticar certo ato motivado por questões de ordem moral, religiosa, ética, etc.; de outro lado, a obrigação do profissional de zelar pela saúde do paciente, respeitando sua autonomia privada.

Não há dúvidas de que há uma relativização da autonomia privada do médico, a medida que, em certas situações, o profissional não pode se recusar a atender o paciente, nos termos do dispositivo ético acima transcrito.
Ainda assim, permanece o dever do médico de assistir minimamente o paciente, mesmo que, pautado na sua consciência, apenas preste informações acerca do caso. Se o simples relato dessas orientações for suficiente para objetar sua consciência, cabe ao profissional ao menos orientar o paciente quanto à procura por outro médico.

Percebe-se, desse modo, que não seria possível o exercício pleno pelo médico da sua objeção de consciência para prática de certos atos clínicos. Mesmo naquelas situações em que é possível a recusa por dilemas pessoais, o médico se veria obrigado, ao menos, a indicar outro médico para realizar o procedimento, com o intuito de preservar a autonomia do paciente.

Veja-se que é intrínseca à prática da medicina, enquanto alvo maior da profissão, a saúde do indivíduo, não se podendo ignorar um dever maior do médico de assistir o paciente. Ao mesmo tempo, não é correto se olvidar dos seus direitos enquanto profissional.
A conciliação da autonomia privada do médico e do paciente poderia passar por certa flexibilização da conduta do profissional que, mesmo premido por convicções de consciência, tomaria certas atitudes para preservar a vontade do paciente.
A comunicação prévia de sua objeção, a indicação de outro profissional imune de imperativos de consciência e a prestação de esclarecimentos ao paciente quanto às consequências da prática do ato por ele eleito são algumas das providências que o médico pode adotar para preservar a autonomia privada do enfermo, sem renunciar ao seu direito de objeção, mas sempre tendo por alvo a saúde da pessoa.

 

* É advogado, procurador do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais (CRM-MG).

 

     

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Os órfãos dos planos de saúde
Seg, 21 de Novembro de 2016 10:57

Hermann Alexandre Vivacqua von Tiesenhausen*

 

Apesar de terem surgido no Brasil na década de 1950, foi com a promulgação da Carta Magna de 1988 que as empresas do segmento da saúde suplementar ampliaram sua atuação no País. Pelo texto constitucional, em seu artigo 199, as instituições privadas ganharam a possibilidade de oferecer serviços médicos e hospitalares de forma a suplementar as dificuldades do Estado em suprir as demandas de parte da população.

Por sua vez, esses indivíduos, direta ou indiretamente, assumem o custeio dessa assistência. Assim, esse segmento no Brasil cresceu a tal ponto que passou a ser o maior mercado privado de serviços relacionados à saúde da América Latina. Dados recentes apontam a existência de mais de 1,3 mil operadoras que respondem pelo atendimento de cerca de 50 milhões de pessoas, a grande maioria formada por beneficiários dos chamados planos empresariais, pelos quais os empregadores assumem o pagamento integral ou parcial do benefício.

No entanto, a existência desse sistema privado não representa a desoneração do setor público na oferta da assistência para a população. Considerando-se os princípios da universalidade, integralidade e equidade que orientam o modelo de atenção público brasileiro, o fato de um indivíduo pagar um plano de saúde privado não o excluí da responsabilidade constitucional do Estado de lhe assegurar acesso aos cuidados que necessita nas etapas da prevenção e do tratamento de doenças.

Deste modo, o planejamento que deve orientar a implementação das políticas públicas de saúde e a execução do orçamento disponível para o custeio e o investimento nas ações decorrentes não podem ser feitos calculando-se uma população menor que a existente. Somos 204 milhões de cidadãos, não 154 milhões, e a lei é clara ao estender o direito de acesso à saúde oferecida pelo Estado a todos os brasileiros.

Além disso, os bons gestores – atentos às turbulências que o país atravessa – também não podem ignorar que a qualquer tempo esse contingente considerável de beneficiários da cobertura dada pelas operadoras pode voltar a depender exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), como já se vê na prática. Trata-se de uma movimentação que contribuirá para o crescimento de demanda por acesso a consultas, exames, procedimentos, internações e cirurgias, entre outros pontos.

Deste modo, os primeiros sinais do impacto da recessão econômica no Brasil na contratação de planos de saúde soam com alerta ao governo, exigindo-lhe a adoção de medidas urgentes que impeçam o aumento da atual crise no atendimento da rede pública. Afinal, a tendência, pelo menos durante os próximos anos, é de que as filas aumentem com milhões de vítimas da crise econômica.

Em outras palavras, evidencia-se uma relação direta entre taxa de desocupação, aferida pelo IBGE, e redução total de benefícios de planos coletivos. São milhares de brasileiros sem condições de pagar seus planos privados ou que não têm mais o direito de utilizá-los devido à perda do emprego, que serão obrigados a migrar para a rede pública que, por sua vez, já sofre com problemas graves de financiamento e de gestão.

Diante de perspectivas sombrias, evidentemente, os compromissos constitucionais com a sociedade não podem ser ignorados. As políticas públicas fundamentais, como o acesso à saúde por meio do SUS, devem ser tratadas com a devida prioridade pelos gestores. Devem ser entendidas como ações de Estado, não de Governo.

É isso que país espera para superar as dificuldades atuais, mantendo-se a confiança de que serão respeitados todos os avanços conquistados pela sociedade. Afinal, saúde é um direito de todos e dever do Estado.

 

* É 1º secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 
    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
A educação médica
Sex, 04 de Novembro de 2016 12:22

Fernando Queiroz Monte*

 

As discussões sobre a educação médica se limitam ao ensino médico e de forma restrita ao aspecto cognitivo. Tal opção situa a análise no campo do conservadorismo de ideias. Sabemos que o mundo passa por um período de ampla dominância do conservadorismo comparável a dos anos 1930. O ideal do ensino médico conservador limita o campo para escola com elevado nível tecnológico, com número restrito de formandos e rigor de avaliação para saber se o discente assimilou bem as formalidades transmitidas.
  

A ideologia médica atual expressa: “Uma boa medicina não poderá ser exercida sem o auxílio de equipamentos da última geração”. Isso condena pequenas localidades e subúrbios mais afastados a serem considerados como assistidos por má medicina, mesmo exibindo baixo nível de mortalidade infantil e expectativa de vida acima da média.

O que os conservadores anseiam que os futuros médicos aprendam? Todo o contexto ditado pelo complexo médico industrial.

Desde 1970, Bárbara Ehrenreich cunhou a expressão “complexo médico industrial”.  O conceito passou a ser concebido de modo ampliado, contemplando as diferentes articulações entre a assistência médica, as redes de formação profissional, a indústria farmacêutica e a indústria produtora de equipamentos médicos e de instrumentos de diagnóstico.  Levando em conta esse contexto, Ivan Illich (1926-2002), no início dos anos 1970, escreveu uma dura crítica da Medicina, sobretudo pela medicalização acentuada, que trazia a iatrogenia social e também questionava as interpretações sobre o normal e o controle social dos setores dominantes usando o médico. 

No jornal do CFM, analisando os orçamentos da saúde e culpando o Estado pela crise da saúde, chama atenção o que houve no período criticado, entre 2003-2014; uma olhada fria e não muito detida nos números do orçamento permite ver que, nesse período, os recursos orçamentários para a saúde foram quadruplicados, embora tenha somente pouco mais que triplicado o que realmente chegou a ela. Deve-se levar em conta que a população, no período, cresceu em torno de 12%. Incontestavelmente a assistência médica no período piorou, e culpar somente o governo, sem analisar outros fatores da prática médica, pode soar como corporativo ou leviano.

Para que eu não seja acusado de injusto ou delirante, peço que se apanhe uma revista médica e verifique se ela não está recheada de propaganda de medicamentos e de instrumentos médicos. Na matéria científica, pode ser percebida a influência dos patrocinadores. Os congressos foram transformados inicialmente em mercados, e, logo, passaram à feira com a distribuição de brindes e sorteios de prêmios pelos laboratórios farmacêuticos e exibição de vídeos mostrando a tecnologia dos novos instrumentos médicos. Classificando os médicos em três classes, Jayme Landmann (1920-2006) definiu a Classe A como “os grandes aliados do sistema e os baluartes do complexo médico industrial, que nele se apoia. […] os médicos da classe A passaram a dominar as escolas médicas, os ensinos de graduação e pós-graduação, as sociedades científicas e especializadas”.  Escrito há mais de trinta anos, esse estado cristalizou. As “lideranças” médicas cada vez mais recebem recursos para as suas revistas e sociedades médicas e são mimoseados com passagens aéreas para participarem de congressos e usufruírem justas férias.

Líderes de opinião renomada intervêm em favor (dos laboratórios) nos congressos e nas mídias especializadas. Campanhas na imprensa expõem os problemas de saúde visados por medicamento lançado, o que impulsiona os pacientes acometidos a pedir a sua prescrição etc. Mas, o dado em desfavor dos medicamentos e as ordens de ficar em guarda são pouco audíveis, afogadas no fluxo da promoção. 

Quando concluí o curso de medicina, a taxa de normalidade da colesterolemia era de 150-300 mg/dL e da glicemia, de 80-120 mg/dL. Esses valores foram obtidos através da prática clínica de seis a sete dezenas de anos e comprovados por pesquisas sérias e rigorosas. Hoje os valores foram decrescendo e puxados por novos medicamentos que são lançados e que precisam de mercado: cada redução de 10% no limite superior de normalidade corresponde a milhões ou mesmo bilhões de novos “consumidores”. Classificamos os usuários de medicamentos em três grupos:

 

                                 

No grupo 1, estão pessoas com colesterol acima de 300 mg/dL e glicemia acima de 120 mg/dL; no grupo 2 estão pessoas com colesterol entre 300 e 200 mg/dL e glicemia entre 120 e 100 mg/dL; e o grupo 3, abaixo daqueles valores mínimos. Considero o grupo 1 constituído por pacientes, por se beneficiarem com o tratamento; o 2, de consumidores de medicamentos, sem benefícios, mas com riscos; e o 3, consumidores ou até vítimas, pois há forte possibilidade de malefícios. Existem as interseções: a composta por 1 e 2, na qual se encontram pacientes sem benefícios e consumidores que podem se beneficiar com o medicamento; e a interseção de 2 e 3, em que o medicamento é desnecessário sem causar malefício. Os pacientes, ao se tornarem consumidores, são compulsivamente poluídos com medicamentos.

Há repercussão na grande imprensa do que beneficia a indústria farmacêutica, por exemplo, a capa da revista da elite brasileira Veja em 16 de junho de 2004 tinha o título “Um santo remédio?”, colocando as estatinas como benéficas para diversas doenças, além da redução do colesterol; o jornal O Globo, em 29 de julho de 2013, no Caderno Saúde, com o título “Polêmica sobre o uso excessivo de estatinas”, disse que a Sociedade Brasileira de Cardiologia aumentou o controle do colesterol a partir deste sábado, decretando que não seria tolerado LDL acima de 70 mg/100 ml. Pode ser lembrado que as estatinas não são drogas tão inocentes: no período em que a cerivastatina foi lançada, foram diagnosticados casos de rabdomiólise com liquefação dos músculos e insuficiência renal aguda; quando da sua retirada do mercado, foram notificados oitenta óbitos. O FDA avaliou 3.339 casos de rabdomiólise em usuários de estatinas entre 1990 e 2002.  


O conservador se sente ameaçado por qualquer crítica, mesmo a mais amigável. Nos anos 1980 apareceu, com origem no Canadá, a epidemiologia clínica que ensinava aos médicos como analisar criticamente os dados clínicos, sobretudo aplicada à leitura de artigos científicos. Logo foi jogada de lado pelo aparecimento da “medicina baseada em evidência” (MBE). A crítica na MBE passa longe, por isso atribuo como seu ancestral o que se fazia na antiguidade. Na Babilônia, segundo relato de Heródoto (484-425 a.C.), por não existir médicos na região, o doente ia para as praças interpelar os transeuntes se haviam tido antes ou conheceram alguém com os sintomas que ele apresentava, e, caso positivo, o que fizeram e o que se sucedeu.  A procura simplesmente de casos não estimula a crítica, e sim a busca.  

Embora examinando sumariamente o assunto, mostro alguns dos males inerentes da educação médica baseada na imposição cognitiva, castrada de qualquer espírito crítico. Exponho o que a experiência de mais de cinquenta anos de profissional médico me ensinou.

 

*É 1º secretário do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec).

 
    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Novembro Azul (de brigadeiro)
Sex, 04 de Novembro de 2016 11:49

Lúcio Flávio Gonzaga Silva*

 

A ideia é tornar azul as cidades. O homem, normalmente menos afeito a zelar por sua saúde, tem no novembro azul a oportunidade de despertar para uma questão crucial. Por que doenças evitáveis, ou no mínimo controláveis, continuam molestando-o?
Nesse mês dedicado ao câncer de próstata, os médicos do Ceará, especialmente os urologistas, desejam a todos os cearenses um tempo inteiramente azul.

O propósito é conscientizar os homens para os cuidados de prevenção de doenças. Além do câncer de próstata (objetivo maior da campanha desse mês de novembro), que pode ser curado quando diagnosticado no seu começo, lembramos outras duas neoplasias malignas urológicas que podem ser absolutamente preveníveis: o câncer de pênis, ainda presente entre nós (pode ser evitado com medidas simples de higiene, como um bom banho diário), e o câncer de bexiga (parar de fumar é uma medida preventiva inteligente).

Porém, o foco do mês é o câncer de próstata. Há mesmo razão para um novembro azul?

A resposta é simples e afirmativa: o câncer de próstata é a neoplasia maligna mais comum do homem idoso na Europa, nos Estados Unidos da América e também no Brasil. Tem uma estimativa para o nosso país de 53,69 casos para cada 100.000 homens, superior até mesmo ao câncer de mama, 44,68 para cada 100.000 mulheres.

Ademais, essa neoplasia maligna é a segunda causa de morte entre os homens. Para o brasileiro com 50 anos de idade e expectativa de vida, hoje a probabilidade de morrer por câncer de próstata é 3%. Há uma chance concreta de diminuir esse percentual via realização de exames periódicos anuais.

A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda o exame retal digital e a dosagem sérica de PSA anualmente a partir dos 50 anos para todos os homens e a partir de 45 anos para aqueles com histórico familiar positivo (pai, irmão, tios portadores da doença).

O novembro azul tem especificamente uma missão: chamar atenção do homem para o cuidado com a sua saúde, a corresponsabilidade na luta pelo que o é de mais precioso, a defesa da vida, e como disse o grande escritor e intelectual romano Sêneca, “é parte da cura o desejo de ser curado”.

Conta-se que um velhinho bateu na porta dos céus. São Pedro a abriu e perguntou: “Por que só chegou hoje? Esperávamos você há muitos anos”. Ele respondeu ao santo: “Cheguei assim muito tarde, somente hoje, porque todos os anos eu fazia minha prevenção ao câncer de próstata”.

 

* Professor de graduação e pós-graduação da Universidade Federal do Ceará, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do estado do Ceará e do Conselho Federal de Medicina, urologista do Hospital Haroldo Juaçaba.

    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Na voz do povo: justiça e confiança
Ter, 01 de Novembro de 2016 10:36

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima*

 
Os compromissos vocacionais dos médicos brasileiros, de caráter hipocrático, foram questionados nos últimos anos, sem qualquer fundamento consistente.

Não se trata aqui de pseudoexpectativa da medicina como uma ciência apodítica ou cartesiana e dos decorrentes conflitos, levados em pratos irrecusáveis aos banquetes judiciais das ações por perdas e danos.

No interregno dos anos de 2013 a 2016, a classe médica sofreu agressões motivadas por interesses mercenários e de políticas autocráticas, em um contexto de democracia racionada, corrupção, populismo e propaganda enganosa.

Nesse período de injustiça, autoridades governamentais, em mensagens falaciosas e com grande desperdício do erário, transferiram aos médicos as suas responsabilidades pelo descaso com a saúde pública. Tanto pela precariedade da atenção primária quanto pelos hospitais de campanha, onde falta tudo ou quase tudo e tornou-se frequente imperativo, nas “Escolhas de Sofia”, a representação não autorizada do “Criador”.

A ausência do Estado favoreceu a prosperidade das personalidades que exploram a dor, o infortúnio e a doença, provocando uma maior e insustentável demanda ao Poder Judiciário, na esperança de que a Justiça preservasse o bem da saúde.

No lugar comum das injustiças, atribuiu-se aos médicos a culpa por um maior volume dos litígios judiciais. Foi olvidada a óbvia dedução de que, se um dos Três Poderes da República está assoberbado, os outros dois devem estar ociosos ou não atuar com competência. 

Em definitivo e de modo genérico, o ônus da culpa por essa judicialização, cognome repetido como um mantra na intenção de estigma opressor do Poder Judiciário, não cabe aos médicos.

A falta de leitos hospitalares, de radioterapia e quimioterapia, de tratamentos oncológicos, de insumos, de medicamentos inseridos nas cestas básicas do Sistema Único de Saúde (SUS), de medicações efetivas para os portadores de doenças raras ou negligenciadas, bem como a limitada e simbólica disponibilidade de droga eficaz para a cura da hepatite C, a inexistência de terapias imunobiológicas e de erradicação da tuberculose multirresistente são, apenas, alguns exemplos das distorções ocasionadas pela inércia do Ministério da Saúde.

Tal negligência é reflexo de irreverência aos preceitos constitucionais e de incompetência administrativa, evidenciada pela incapacidade de investimentos nos últimos 14 anos de R$ 136,7 bilhões, autorizados e disponíveis em um inadequado orçamento.

Vale a pena ressaltar que, neste âmbito jurídico ou de judicialização, não há embate entre as garantias individuais e princípios da Carta Magna. O Supremo Tribunal Federal (STF), em parâmetros de razoabilidade e risco de perdas inestimáveis, determinou, em sábias decisões, a precedência do Princípio do Mínimo Existencial ao Princípio da Reserva do Possível.

Nas diretrizes de probidade, competência e racionalidade é direito e dever ético, moral e jurídico dos médicos, o zelo pela saúde do ser humano, consequência constitucional indissociável da vida.

Por sua vez, o Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua atuação, no plano da organização federativa brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por censurável omissão, em grave comportamento inconstitucional.

Apesar dos aviltamentos, das difamações da categoria médica e das deserções dos postulados morais por parte de poucos médicos, a população ainda preserva a outorga de crédito à imensa maioria da classe.

O povo reconhece o mérito na rotina da prática médica, visualiza a perícia, a diligência, a prudência, a humildade e a compaixão nos esforços profissionais dispendidos. Os médicos não são julgados pelas causalidades do destino, construído pelas irresponsabilidades de terceiros!

A memória popular registra os diálogos francos e humanamente paritários entre os médicos e seus pacientes, que fazem nascer e renascer relações fiduciárias, radicadas no denso valor ético-social da recíproca confiança.

Estas assertivas não retóricas ou desprovidas de razão têm lastro em uma recente pesquisa, solicitada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) ao Instituto Datafolha, realizada nos meses de agosto e setembro deste ano, com o objetivo de identificar as atividades profissionais depositárias de maior credibilidade populacional.

Na procura da opinião popular, o citado Instituto de Pesquisa, com metodologia resistente às críticas, entrevistou diversos segmentos da população em todo o País e os resultados demonstraram que a Medicina está no “topo do ranking” da confiança.

No universo de 2.086 entrevistados, 26% indicaram os médicos como os profissionais mais merecedores de crédito. Na sequência, surgiram os professores com 24% e os bombeiros com 15% de aprovação nas opiniões emitidas, que foram colhidas de forma homogênea, considerando-se diferentes aspectos, como local de moradia (capital e interior), gênero, faixa etária e grau de escolaridade.

Assim, o cidadão brasileiro ao externar a sua convicção de integridade e resolubilidade do médico, em péssimas condições de trabalho, fez justiça ao seu desempenho no mister da medicina, verdadeiro exercício da cidadania, em tempo integral e no mais elevado patamar da consciência.

 

* É presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

Palavra do Presidente publicada na edição nº 260 do Jornal Medicina (acesse aqui a publicação).

 
Mais Artigos...
<< Início < Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo > Fim >>

Página 6 de 160
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner

© PORTAL MÉDICO 2010 - o site do Conselho Federal de Medicina -Todos os direitos reservados
SGAS 915 Lote 72 | CEP: 70390-150 | Brasí­lia-DF | FONE: (61) 3445 5900 | FAX: (61) 3346 0231| E-mail: cfm@portalmedico.org.br

FECHAR X