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Novembro Azul (de brigadeiro)
Sex, 04 de Novembro de 2016 11:49

Lúcio Flávio Gonzaga Silva*

 

A ideia é tornar azul as cidades. O homem, normalmente menos afeito a zelar por sua saúde, tem no novembro azul a oportunidade de despertar para uma questão crucial. Por que doenças evitáveis, ou no mínimo controláveis, continuam molestando-o?
Nesse mês dedicado ao câncer de próstata, os médicos do Ceará, especialmente os urologistas, desejam a todos os cearenses um tempo inteiramente azul.

O propósito é conscientizar os homens para os cuidados de prevenção de doenças. Além do câncer de próstata (objetivo maior da campanha desse mês de novembro), que pode ser curado quando diagnosticado no seu começo, lembramos outras duas neoplasias malignas urológicas que podem ser absolutamente preveníveis: o câncer de pênis, ainda presente entre nós (pode ser evitado com medidas simples de higiene, como um bom banho diário), e o câncer de bexiga (parar de fumar é uma medida preventiva inteligente).

Porém, o foco do mês é o câncer de próstata. Há mesmo razão para um novembro azul?

A resposta é simples e afirmativa: o câncer de próstata é a neoplasia maligna mais comum do homem idoso na Europa, nos Estados Unidos da América e também no Brasil. Tem uma estimativa para o nosso país de 53,69 casos para cada 100.000 homens, superior até mesmo ao câncer de mama, 44,68 para cada 100.000 mulheres.

Ademais, essa neoplasia maligna é a segunda causa de morte entre os homens. Para o brasileiro com 50 anos de idade e expectativa de vida, hoje a probabilidade de morrer por câncer de próstata é 3%. Há uma chance concreta de diminuir esse percentual via realização de exames periódicos anuais.

A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda o exame retal digital e a dosagem sérica de PSA anualmente a partir dos 50 anos para todos os homens e a partir de 45 anos para aqueles com histórico familiar positivo (pai, irmão, tios portadores da doença).

O novembro azul tem especificamente uma missão: chamar atenção do homem para o cuidado com a sua saúde, a corresponsabilidade na luta pelo que o é de mais precioso, a defesa da vida, e como disse o grande escritor e intelectual romano Sêneca, “é parte da cura o desejo de ser curado”.

Conta-se que um velhinho bateu na porta dos céus. São Pedro a abriu e perguntou: “Por que só chegou hoje? Esperávamos você há muitos anos”. Ele respondeu ao santo: “Cheguei assim muito tarde, somente hoje, porque todos os anos eu fazia minha prevenção ao câncer de próstata”.

 

* Professor de graduação e pós-graduação da Universidade Federal do Ceará, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do estado do Ceará e do Conselho Federal de Medicina, urologista do Hospital Haroldo Juaçaba.

    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Na voz do povo: justiça e confiança
Ter, 01 de Novembro de 2016 10:36

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima*

 
Os compromissos vocacionais dos médicos brasileiros, de caráter hipocrático, foram questionados nos últimos anos, sem qualquer fundamento consistente.

Não se trata aqui de pseudoexpectativa da medicina como uma ciência apodítica ou cartesiana e dos decorrentes conflitos, levados em pratos irrecusáveis aos banquetes judiciais das ações por perdas e danos.

No interregno dos anos de 2013 a 2016, a classe médica sofreu agressões motivadas por interesses mercenários e de políticas autocráticas, em um contexto de democracia racionada, corrupção, populismo e propaganda enganosa.

Nesse período de injustiça, autoridades governamentais, em mensagens falaciosas e com grande desperdício do erário, transferiram aos médicos as suas responsabilidades pelo descaso com a saúde pública. Tanto pela precariedade da atenção primária quanto pelos hospitais de campanha, onde falta tudo ou quase tudo e tornou-se frequente imperativo, nas “Escolhas de Sofia”, a representação não autorizada do “Criador”.

A ausência do Estado favoreceu a prosperidade das personalidades que exploram a dor, o infortúnio e a doença, provocando uma maior e insustentável demanda ao Poder Judiciário, na esperança de que a Justiça preservasse o bem da saúde.

No lugar comum das injustiças, atribuiu-se aos médicos a culpa por um maior volume dos litígios judiciais. Foi olvidada a óbvia dedução de que, se um dos Três Poderes da República está assoberbado, os outros dois devem estar ociosos ou não atuar com competência. 

Em definitivo e de modo genérico, o ônus da culpa por essa judicialização, cognome repetido como um mantra na intenção de estigma opressor do Poder Judiciário, não cabe aos médicos.

A falta de leitos hospitalares, de radioterapia e quimioterapia, de tratamentos oncológicos, de insumos, de medicamentos inseridos nas cestas básicas do Sistema Único de Saúde (SUS), de medicações efetivas para os portadores de doenças raras ou negligenciadas, bem como a limitada e simbólica disponibilidade de droga eficaz para a cura da hepatite C, a inexistência de terapias imunobiológicas e de erradicação da tuberculose multirresistente são, apenas, alguns exemplos das distorções ocasionadas pela inércia do Ministério da Saúde.

Tal negligência é reflexo de irreverência aos preceitos constitucionais e de incompetência administrativa, evidenciada pela incapacidade de investimentos nos últimos 14 anos de R$ 136,7 bilhões, autorizados e disponíveis em um inadequado orçamento.

Vale a pena ressaltar que, neste âmbito jurídico ou de judicialização, não há embate entre as garantias individuais e princípios da Carta Magna. O Supremo Tribunal Federal (STF), em parâmetros de razoabilidade e risco de perdas inestimáveis, determinou, em sábias decisões, a precedência do Princípio do Mínimo Existencial ao Princípio da Reserva do Possível.

Nas diretrizes de probidade, competência e racionalidade é direito e dever ético, moral e jurídico dos médicos, o zelo pela saúde do ser humano, consequência constitucional indissociável da vida.

Por sua vez, o Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua atuação, no plano da organização federativa brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por censurável omissão, em grave comportamento inconstitucional.

Apesar dos aviltamentos, das difamações da categoria médica e das deserções dos postulados morais por parte de poucos médicos, a população ainda preserva a outorga de crédito à imensa maioria da classe.

O povo reconhece o mérito na rotina da prática médica, visualiza a perícia, a diligência, a prudência, a humildade e a compaixão nos esforços profissionais dispendidos. Os médicos não são julgados pelas causalidades do destino, construído pelas irresponsabilidades de terceiros!

A memória popular registra os diálogos francos e humanamente paritários entre os médicos e seus pacientes, que fazem nascer e renascer relações fiduciárias, radicadas no denso valor ético-social da recíproca confiança.

Estas assertivas não retóricas ou desprovidas de razão têm lastro em uma recente pesquisa, solicitada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) ao Instituto Datafolha, realizada nos meses de agosto e setembro deste ano, com o objetivo de identificar as atividades profissionais depositárias de maior credibilidade populacional.

Na procura da opinião popular, o citado Instituto de Pesquisa, com metodologia resistente às críticas, entrevistou diversos segmentos da população em todo o País e os resultados demonstraram que a Medicina está no “topo do ranking” da confiança.

No universo de 2.086 entrevistados, 26% indicaram os médicos como os profissionais mais merecedores de crédito. Na sequência, surgiram os professores com 24% e os bombeiros com 15% de aprovação nas opiniões emitidas, que foram colhidas de forma homogênea, considerando-se diferentes aspectos, como local de moradia (capital e interior), gênero, faixa etária e grau de escolaridade.

Assim, o cidadão brasileiro ao externar a sua convicção de integridade e resolubilidade do médico, em péssimas condições de trabalho, fez justiça ao seu desempenho no mister da medicina, verdadeiro exercício da cidadania, em tempo integral e no mais elevado patamar da consciência.

 

* É presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

Palavra do Presidente publicada na edição nº 260 do Jornal Medicina (acesse aqui a publicação).

 
O médico
Sex, 21 de Outubro de 2016 13:12

Rogério Wolf de Aguiar*

 

Quando somos atendidos por um médico, sabemos quem ele é – mesmo que, hoje em dia, com o atendimento de massa, muitas vezes não saibamos nem seu nome. Mas o que ele é?

Às vezes, projetamos no médico alguns papéis irreais. Vulneráveis, enfraquecidos por nossos sintomas, sofridos pelas nossas dores, ameaçados pelos nossos temores, quando nos sentimos doentes atribuímos a ele o poder de resolver tudo isso. É nosso desejo e de nossos familiares.

É natural que seja assim. Gostaríamos que a cura acontecesse por mágica, milagre ou qualquer coisa que atendesse a nossa vontade. O médico, com seu saber, deve assumir a incumbência para a qual foi formado, com diligência, perícia e prudência. Deve ter competência técnica. Mas não é mágico nem deus para fazer milagres. Compreendendo e aceitando suas capacidades e limites, poderá agir melhor para ajudar aqueles a quem atende, por mais que a realidade contrarie suas expectativas.

Esse é o campo da relação médico-paciente por excelência, tão importante quanto o da competência tecnológica: saber lidar com o paciente em seu momento de esperança-desesperança, biológica e psicologicamente, em seu contexto social. Esse é o médico em seu máximo potencial humano. Não há exagero algum em afirmar que sua atividade é de maior relevância social. Uma sociedade que preza a si mesma deve se empenhar fortemente para que a formação completa dos médicos seja sempre primorosa, ética e tecnicamente, e para que aqueles assim formados possam exercer suas atividades com dignidade e devidamente valorizados.

Em nosso país, os médicos muitas vezes trabalham em precárias condições, em lugares deficientes e sem acesso aos progressos da medicina. Cumprem verdadeiros atos heroicos. Mas a sociedade deve compreender que seria muito melhor atendida se precisasse menos de heróis e mais de seres humanos com boas condições de trabalho. No momento em que se celebra o Dia do Médico, é bom lembrar disso.

 

*É presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers).

 

     

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Quantos milagres você já fez?
Sex, 21 de Outubro de 2016 10:25

Julião Guerra*

 

Um milagre não é mais bem definido como um fato extraordinário em termos de raridade de ocorrência, mas seu sentido verdadeiro deve ser avaliado devido às consequências que ele produz, ou, mais propriamente, considerando-se seus benefícios. Esse é o sentido que vamos considerar neste texto ao analisar alguns aspectos da prática profissional, principalmente àqueles relacionados ao exercício das profissões de saúde.

Consideremos um exemplo simples, como a cirurgia de catarata, realizada atualmente em milhares de pessoas, diariamente, em vários cantos do mundo. Sem esse tipo de cirurgia, as pessoas atingidas pela catarata estariam irremediavelmente condenadas à cegueira. Sob o ponto de vista do benefício recebido por essas pessoas, não há dúvidas de que elas foram favorecidas por um verdadeiro, autêntico e inquestionável milagre. O incessante desenvolvimento de novos medicamentos e a evolução tecnológica dos equipamentos para diagnóstico e terapêutica de doenças têm salvado milhões de vidas e curado inúmeras pessoas.

Por isso, o implante coclear, que possibilita a recuperação da audição; o alívio de dores intensas proporcionado pelos analgésicos; a cura de infecções graves, anteriormente fatais; e o controle do diabetes, da hipertensão arterial e de outras doenças podem ser considerados milagres que salvam ou proporcionam uma melhora expressiva na qualidade de vida de milhões de pessoas. O tratamento de doenças como lúpus eritematoso sistêmico, de micoses profundas, de várias formas de pênfigo, assim como o diagnóstico precoce do câncer ou a realização de cirurgias que salvam incontáveis vidas diariamente podem ser classificados como verdadeiros milagres. Os avanços dos transplantes, a erradicação da poliomielite e da varíola em escala mundial são exemplos inquestionáveis de milagres, fruto do trabalho anônimo de milhões de pessoas, bem como a fantástica redução da mortalidade infantil e a elevação da expectativa de vida da população mundial.

Em minha experiência pessoal de médico, sempre me intrigava a sensação especial que sentia (e sinto) ao diagnosticar e tratar pacientes com hanseníase. Só depois de certo tempo é que me dei conta de que essa sensação relacionava-se ao fato de sempre ter me impressionado com o relato bíblico, ouvido desde a minha infância, a respeito da cura dos leprosos feita por Jesus. Poder contribuir, nos dias de hoje, para a cura de pacientes com hanseníase reativava em minha mente (em um nível inconsciente) uma sensação poderosa: estar praticando um milagre, repetindo um ato semelhante àquele praticado pelo próprio Filho de Deus.

Um aspecto central a ser destacado é que os milagres aqui descritos são sempre construídos coletivamente. O conhecimento necessário para sua realização é fruto do trabalho de milhares de pessoas ao longo de muitas gerações: ninguém subirá ao pódio sozinho, e, se quisesse fazê-lo, estaria cometendo uma absurda e imperdoável usurpação ao não reconhecer o caráter coletivo dos milagres praticados.
Emociona-nos saber que em muitos outros lugares do mundo outros profissionais de saúde estão envolvidos em atividades semelhantes, utilizando o mesmo conjunto de conhecimentos para promover a cura ou, pelo menos, aliviar o sofrimento de muitas pessoas; e que, apesar de falarem várias línguas, eles usam uma linguagem científica que é comum a qualquer profissional de saúde que atua nos mais diferentes lugares do mundo, possibilitando a ocorrência dos milagres descritos. A ideia de uma gigantesca e solidária rede de profissionais que ultrapassa fronteiras e vence barreiras linguísticas e culturais e se une para salvar vidas e melhorar a saúde das pessoas é poderosa e incrivelmente estimulante.

Um dos grandes inimigos do milagre é o burocrata. Ele é uma pedra no caminho, e sempre que pode cria obstáculos que impedem a realização dos milagres cotidianos. Mas os maiores inimigos dos milagres são a banalização, a indiferença e a falta de gratidão. Não reconhecer, não valorizar e não agradecer são atitudes que desestimulam e inibem sua realização.

Eis o maior pecado do homem: a banalização dos milagres, que leva à indiferença e à falta de gratidão. Temos sido omissos e negligentes ao deixarmos de reconhecer e de celebrar os milagres que ocorrem em nossas vidas. Na prática, isso se manifesta na atitude do profissional de saúde que, mesmo realizando milagres em seu exercício profissional, trabalha insatisfeito, sem compreender o verdadeiro significado e dimensão daquilo que faz. De maneira semelhante, manifesta-se no comportamento dos pacientes que, beneficiados por verdadeiros milagres, não conseguem demonstrar gratidão ou reconhecer a importância daquilo que receberam. O poeta Drummond faz referência a “mil presentes da vida aos homens indiferentes”, fazendo-nos pensar nas pessoas que passam a vida inteira sem sequer se dar conta dos milagres dos quais participam, e sem agradecer pelos benefícios recebidos em decorrência deles.

Tudo considerado, podemos sempre perguntar a nós mesmos e aos outros: quantos milagres você já fez? Você reconhece e valoriza os milagres que faz? Você demonstra gratidão quando recebe os benefícios de um milagre? Você sente gratidão por ser instrumento para realização de milagres? Precisamos assumir uma atitude de reconhecimento, valorização e gratidão quanto aos milagres cotidianos, e, assim fazendo, estaremos construindo um poderoso instrumento de estímulo e de motivação para todos aqueles que se dedicam à sua prática, tornando-a mais gratificante e prazerosa.

 

* Possui título de especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e foi diretor da VI Gerência Regional de Saúde (VI Geres) da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco.

 
    

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Depressão: quando a luz dos olhos teus resolve se apagar
Sex, 07 de Outubro de 2016 12:15

Venceslau Antonio Coelho* e Rodrigo Lage Leite**

 

“A paisagem não tem cor, meu prato favorito não tem sabor. Nada importa. Me dá desânimo pensar em enfrentar certas coisas, pois sei que minha energia é pouca. Para que batalhar tanto, se nada tem graça? Às vezes, eu só me obrigo a sair da cama porque tenho que ir trabalhar. Vou porque tenho que ir, porque é um lugar ‘seguro’, que já conheço, mas qualquer ambiente novo incomoda. A minha família não me compreende totalmente, por isso me isolo e sei que sou visto por muitos como preguiçoso, sem força de vontade.”
Esse depoimento é de alguém que tem depressão. Essa pessoa está no mundo corporativo e pode estar bem aí do seu lado, sem parecer que está sofrendo da forma silenciosa que está. Ela pode, inclusive, ser você.
Mas o que é, afinal, esse sentimento que atinge tanta gente, que deixa as pessoas sem sonhos, sem saída? De onde ele vem?
A primeira coisa a que devemos prestar atenção é que a depressão não é apenas uma sensação de tristeza, é um transtorno que atinge o humor, os pensamentos, a saúde e o comportamento de formas diferentes. É uma condição complexa que envolve aspectos biológicos, psicológicos, existenciais e sociais, e que pode ter forte base hereditária, inclusive com alterações neuroquímicas específicas. Doenças clínicas – como o hipotireoidismo, carência de vitamina B12 – também podem levar à depressão. Outros casos são decorrentes de condições psicológicas graves, como lutos complicados ou transtornos de personalidade. Não devemos esquecer ainda a associação da depressão com questões existenciais centrais da vida humana, como tédio, vazio, solidão e desamparo, ou com questões sociais, como vulnerabilidade e abuso.
Ou seja, pode ter diferentes origens e intensidades. O fato é que hoje representa uma das principais causas de sofrimento psíquico e de incapacitação no mundo. Essa afirmação pode ser reforçada por dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em abril. Segundo a OMS, entre 1990 e 2013 o número de pessoas que sofrem de depressão e ansiedade aumentou em quase 50% (de 416 milhões para 615 milhões). Aproximadamente 10% da população mundial é afetada, e os transtornos mentais são responsáveis por 30% da carga global de doenças não fatais. A OMS estima, ainda, que cerca de 1 em cada 5 pessoas sofra com depressão e ansiedade.
Para os médicos, a depressão é caracterizada por sintomas como humor triste, perda de prazer e de interesse na vida, alterações do sono, alterações de apetite e de peso, agitação ou lentidão, culpa e baixa autoestima. Pode ser grave, moderada ou leve. Algumas vezes, quadros depressivos demoram a ser identificados – daí dizer que podem se apresentar de maneira silenciosa.

A depressão já existia na Grécia Antiga

A vida moderna não é nada fácil e acabamos de observar que o número de pessoas com depressão só está aumentando. No entanto, o curioso é que a depressão sempre existiu. Já na Grécia Clássica, Hipócrates (uma das figuras mais importantes da história da medicina) descreveu a melancolia atribuindo a ela um acúmulo de “bílis negra” no organismo. Muito tempo depois, o quadro chamou a atenção de Sigmund Freud, que escreveu um ensaio genial sobre o tema, “Luto e melancolia”, publicado em 1917. Atualmente, a depressão tem ganhado cada vez mais espaço no debate público, trazendo grandes questões sobre vários aspectos: quais seriam os determinantes da depressão? Fatores psicológicos da vida contemporânea estariam favorecendo um “estar no mundo depressivo”? De que maneira aspectos sociais, como a violência e a vulnerabilidade, afetariam essa questão?

Muitas vezes ajudar é não atrapalhar

É difícil fazer com que as pessoas entendam como conviver com amigos e parentes deprimidos. Mesmo com boa intenção, eles sugerem atividades e distrações, achando que tudo pode voltar ao normal de uma hora para outra, e se sentem frustradas quando isso não acontece. A melhor forma de ajudar é apoiando escutando, quando a pessoa quiser ser escutada, e não sendo invasivo. Sugerir um tratamento médico é muito importante, além de oferecer companhia durante o tratamento, se a pessoa desejar. Essas são algumas boas maneiras de ajudar.
O tratamento depende, antes de tudo, de um diagnóstico preciso. Do ponto de vista medicamentoso, as drogas antidepressivas são eficazes e seguras, mas devem ser usadas somente com receita médica. Outra abordagem é a da psicoterapia fundamental, sobretudo nos casos com preponderância de fatores psicológicos. Sabe-se que a combinação de medicamentos e psicoterapia é sempre mais efetiva do que qualquer uma das duas formas isoladamente.

Como os outros vão me olhar?

Já falamos sobre a depressão, suas possíveis causas e sintomas, e vimos que a pessoa que sofre desse transtorno pode se isolar, por falta de interesse, vergonha e outros motivos. A ausência em festas e reuniões de amigos fica cada vez mais frequente, e o medo de contar sobre a difícil fase para as pessoas também. Na cabeça, as dúvidas: “o que pensarão de mim? Ficarão com pena?”.
Essas questões são geradas porque há muita desinformação sobre os quadros depressivos, com preconceitos como o de que “depressão é frescura, preguiça ou sem-vergonhice”. , Interpretação errada – muitos só entendem verdadeiramente o transtorno quando passam por ele ou o vivenciam com algum ente querido próximo.
A depressão afeta as capacidades cognitivas (atenção, raciocínio, memória), a energia, o ânimo e o interesse. Tudo isso aliado a noites mal dormidas e outros sintomas secundários ocasionais, como uso de álcool ou sedativos, em alguns casos. Tudo isso atrapalha a vida cotidiana.

Depressão não é como uma epidemia que pode ser “erradicada”

Estamos falando sobre algo subjetivo. Esqueça a ideia de que a depressão é uma doença pura, como a Aids ou a diabetes. Quando pensamos em solução para esse transtorno, muitos aspectos estão envolvidos – não dá para simplesmente “erradicar essa epidemia”. O que se pode dizer é que hoje, com o desenvolvimento das neurociências e as novas medicações, ganhamos algumas armas nessa batalha para o alívio sintomático.
Nós, organizações, podemos ajudar nesse quadro informando, observando e direcionando nossos colegas para um especialista.
A depressão pode receber ajuda médica, na maioria das vezes, mas ela não é apenas uma condição médica. Diz respeito à vida emocional das pessoas, e por isso merece ser vista e pensada amplamente. Médico, medicamentos, psicoterapia, interesse dos amigos e familiares – tudo isso é um grande ganho. Muitas pessoas venceram essa luta! Agora, voltando ao início dessa reflexão sobre o assunto: se o transtorno é abstrato, como conviver com ele? A pergunta-resposta é: “como conviver com a VIDA, uma vez que ela também é abstrata?”.
Dentro dos nossos olhos existem a luz e a escuridão. O que determina o que vamos enxergar são nossas escolhas. Escolha o brilho da vida...

 

* Venceslau Antonio Coelho é especialista em geriatria e clínica médica, e médico consultor da Willis Towers Watson Brasil.

** Rodrigo Lage Leite é médico psiquiatra pelo Instituto de Psiquiatria da USP e membro filiado ao Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

 
    

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