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Artigos
Espera castiga a esperança
Sex, 06 de Abril de 2018 10:48

Escrito por Tiago A. Fonseca Nunes*

Cento e vinte dias. Pode até parecer pouco para quem aguarda o dia do casamento, a viagem programada ou até mesmo o dia da sua formatura. Contudo, para quem espera pelo tratamento do câncer é uma eternidade. No Brasil, pacientes diagnosticadas com câncer de mama através do sistema público sofrem, em média, todo esse tempo para conseguir iniciar a quimioterapia, por exemplo.

Tristemente, cerca de metade das pacientes recebe a confirmação do câncer de mama em estágios já avançados. Associa-se a esse número que 40% delas levam até um ano para obter o diagnóstico, de acordo com dados do Tribunal de Contas da União (TCU). Havendo necessidade de cirurgia, a angústia da espera para realizar o procedimento chega a durar oito meses, desde que não ocorra cancelamento nesse intervalo e que a data não seja protelada.

A Lei nº 12.732/12 preconiza que o paciente com neoplasia maligna (câncer) tem direito de se submeter ao tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) no prazo de até 60 dias, contados a partir do dia em que recebeu o diagnóstico. Porém, uma estatística do Sistema de informações do Câncer (Siscan) evidencia que em apenas 26,6% do total casos registrados em 2015 iniciou-se o tratamento dentro do prazo determinado. Entretanto, na contraparte do imbróglio da morosidade encontram-se os pacientes, que não têm um minuto sequer a perder.

Um dos mais importantes centros de estudo e tratamento da doença no país, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), vive atualmente uma triste realidade, cujos problemas estruturais atingem diretamente os pacientes que usam seus serviços: filas quilométricas para atendimento, macas improvisadas, deficiência nos suprimentos hospitalares e até mesmo falta de manutenção. Note-se que estamos falando da maior referência nacional em oncologia, a partir do que podemos fazer uma reflexão sobre como estão os demais serviços Brasil afora. Infelizmente, ao passo que o número de leitos destinados a esses pacientes segue limitado, com crescimento pífio, o número de diagnosticados com câncer cresce exponencialmente.

A rapidez na detecção e no tratamento do câncer é decisiva para a cura do paciente, pois à medida que o tempo avança, reduzem-se as chances de recuperação. Por isso não estamos diante de uma discussão banal. O ajuste da realidade ao que é tido como ideal há de ser feito em curto prazo. Uma regulação mais eficiente, pela qual se disponha de dados precisos quanto ao estágio da doença, e a ampliação dos serviços oncológicos, gerando descentralização, são alguns exemplos de medidas nesse sentido. Assim sendo, a otimização melhora o planejamento, promove um gerenciamento eficaz dos gastos públicos e, principalmente, dispende menos tempo para início do tratamento.

O câncer não espera! Tampouco aceita medidas casuísticas para resolver o problema. A responsabilidade deste recai sobre toda a sociedade, pois devemos ter clareza de posição e reconhecimento da sua gravidade. Portanto, usemos até mesmo do ativismo da mídia para expor rotineiramente essas necessidades, de modo que o ser humano seja respeitado e que a luta pela vida contra o câncer seja realidade. O tempo tem duas caras: se bem aproveitado é um grande aliado, mas do contrário é um grande inimigo.

 

* Estudante de Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo.

  

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 
Crianças, ética e autonomia
Sex, 06 de Abril de 2018 10:46

Escrito por Nelson Grisard*

 

As crianças são seres humanos de pouca idade e em crescimento e desenvolvimento. São sujeitos de direito e alvo de proteção integral; as menores são chamadas de infantes, por sua dificuldade de expressão.

As crianças e adolescentes, conforme o local ou comunidade, são preservadas e protegidas em casa, na escola e na sociedade, seja por seus pais, seus mestres ou, também, por nossa atuação como médicos. Os grupos mais simples ensinam por meio do respeito às pessoas; os mais elaborados, por meios diversos, nem sempre os melhores.

Quando as crianças aprendem os valores e princípios para conduzir suas vidas, aprendem a decidir entre o que querem, o que podem e o que devem; entre o que é bom e o que é mau; a diferença entre bem e mal, entre certo e errado; enfim, aprendem a ter ética, a ser éticas em sua prática – a moral –, aprendem a comportar-se. Em meio século de profissão dedicado a seus cuidados, desconheço criança antiética! A doçura das crianças é que elas são honestamente críticas, mas não corruptas.

A corrupção, por paradoxal que seja, é um tipo de liberdade, uma opção individual possível, mas não obrigatória. E isso, quem “resolve” ou “decide” é a percepção ética e moral. O aprendizado ético é a melhor vacina e o melhor remédio contra a corrupção.

Para decidir bem, as crianças precisam de exemplo, ensino e autonomia. Devemos demostrar às crianças nosso apoio ao que já sabem fazer sozinhas e parabenizá-las por isso, por sua boa opção: quando aprendem a subir cada degrau de uma escada, quando agradecem, quando arrumam a cama sozinhas, quando retiram os pratos da mesa após uma refeição, quando estudam e respeitam as pessoas etc.

Ao formar sua autonomia, elas fazem desenvolver as conexões neurais, melhorando sua inteligência e, assim, se expressarão melhor. Criança que não desenvolve sua autonomia fica estagnada na inteligência.

Devemos ajudar as crianças, evitando que se tornem “crianças desaparecidas”. Crianças e adolescentes cuidados e bem orientados serão os cuidadores da Nação e, se forem médicos, serão éticos e estarão vacinados contra a corrupção, pelo menos em tese, e estarão livres do abandono.

Este CRM-SC felicita a todas as crianças com respeito imenso e esperança maior ainda, e deseja que aquelas desaparecidas sejam encontradas com segurança.

 

* É presidente do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC).

  

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Boa medicina em zona de fronteira: um desafio para toda a sociedade
Sex, 16 de Março de 2018 11:28

Cláudio Balduíno Souto Franzen*


O acesso à assistência em saúde nos 122 municípios brasileiros em regiões de fronteira é prejudicado por uma série de questões relacionadas à gestão pública. Em 2016, o Conselho Federal de Medicina (CFM) já apontava as deficiências que prejudicam pacientes e profissionais. Os números nos ajudam a entender a dimensão do problema.

Por exemplo, na época, em um quarto dessas localidades não havia leitos de internação disponíveis. Em 48 delas não existia um hospital geral. As outras 74 cidades contavam com 116 hospitais, volume próximo ao identificado apenas na cidade do Rio de Janeiro (RJ), com 109. As informações eram do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), supervisionado pelo Ministério da Saúde.

Também se apurou que as cidades da zona de fronteira possuíam, juntas, 652 unidades básicas de saúde (UBS) ou centros de saúde. Considerando-se a dimensão do território que os municípios ocupam, bem como sua população total, essa quantidade fica abaixo do ideal.

Numa comparação com os estados de Alagoas e Rio Grande do Norte, que possuíam populações de tamanho semelhante ao encontrado com a soma desses 122 municípios, o total de unidades desse tipo de serviço de atenção básica era maior: 794 e 803, respectivamente. Não bastasse a falta de infraestrutura, que dificulta diagnósticos e tratamentos, esses municípios limítrofes historicamente convivem com outro obstáculo sério: não contam com políticas de Estado capazes de atrair e fixar o médico – e mesmo outros profissionais de saúde.

De um lado, isso faz com que os moradores dessas regiões, sobretudo em casos de maior gravidade, sejam obrigados a buscar assistência nas capitais ou em municípios com maior grau de desenvolvimento. É uma realidade cruel, que obriga doentes a fazer longos deslocamentos e a passar períodos de convalescença distantes de seus familiares.

Por sua vez, a presença reduzida de profissionais brasileiros nessas áreas tem sido usada por alguns prefeitos para justificar medidas paliativas, que nem de longe resolvem as dificuldades constatadas. Um dos caminhos adotados tem sido engajar, nas redes locais, médicos com diplomas obtidos no estrangeiro, ignorando-se aspectos importantes para a segurança da sociedade.

No entendimento dos Conselhos de Medicina, essa prática é de alto risco, de forma particular para o paciente. Sem o registro do médico – que pode ser feito após sua aprovação em exame de validação de títulos (Revalida) –, essas autarquias não podem fiscalizar sua atuação. Com isso, aspectos técnicos e éticos da atividade médica podem não ser observados, e eventuais deslizes ficam sem penalização.

Além disso, sem um registro no CRM, prescrições e pedidos de exames feitos por estrangeiros não podem ser aceitos por farmácias e laboratórios, fazendo com que outro médico – desta vez, regularizado – “refaça” solicitações alheias, postergando diagnósticos e o início de tratamentos.

Pelo bem da sociedade, é necessário buscar uma solução para o trabalho médico na região das fronteiras. O fim dessa distorção depende de medidas que devem ser articuladas com os Ministérios da Saúde e das Relações Exteriores, assim como avalizadas pelo Congresso Nacional. Esse é um trabalho que tem sido acompanhado pelas entidades médicas.

Nos dias 3 e 4 de abril, em Campo Grande (MS), o CFM organiza o II Fórum de Médicos de Fronteira, na expectativa de estimular esse importante debate. Com a participação de lideranças dos profissionais e de representantes de gestores e de setores interessados, como entidades de pacientes e o Ministério Público, espera-se avançar em propostas que pacifiquem o tema.

Como médico do Rio Grande do Sul, um dos estados que carecem de respostas, espero que em breve se normalize essa situação, permitindo-se que apenas médicos com diplomas revalidados atuem no Brasil. Sem esse atestado de capacidade e competência, milhões continuarão expostos a riscos desnecessários, como se os moradores das regiões de fronteira merecessem menos que os dos grandes centros urbanos.

 

* É conselheiro federal pelo estado do Rio Grande do Sul.

 

Artigo publicado na coluna Opinião do conselheiro do jornal Medicina, edição nº 276. Acesse aqui a publicação.

 

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A violência e seu impacto para o Brasil
Sex, 16 de Março de 2018 10:40

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima*

A repercussão dos casos de violência no Brasil ultrapassou as fronteiras nacionais. O relatório da organização de defesa dos direitos humanos, Human Rights Watch, divulgado em fevereiro, chamou a atenção do mundo para a insegurança pública no País. No documento, há destaques para a Venezuela, como um exemplo extremo de crise humanitária e de desrespeito à democracia na América Latina, e para o Brasil, criticado pela ausência de soluções aos seus desafios nos campos da prevenção e do combate à violência.

Os dados apresentados registram a morte de mais de 4.600 mulheres em 2016 (principal período analisado), o que revela uma das faces mais perversas da violência doméstica. Além disso, apontam a crise do sistema penitenciário, que conta com a metade das vagas necessárias para abrigar seus mais de 700 mil detentos atuais.

Ainda tornam evidente o crescimento do ciclo de violência urbana, que vitima civis e agentes de segurança. Em todo o País, 437 policiais foram mortos em 2016, a maioria fora de serviço. Número que deve aumentar nas estatísticas oficiais em face da situação vivenciada, recentemente, por estados como Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Ceará e, principalmente, Rio de Janeiro.

A situação detalhada no Atlas da Violência 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), corrobora o quadro desenhado pela Human Rights Watch.

Pelo estudo, que analisou a evolução dos homicídios no Brasil entre 2005 e 2015 a partir de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, aconteceram 59.080 homicí- dios no País em 2015. Pelos números, a metade dos homicídios aconteceu em 2% dos municípios (111), cuja soma das populações representa 19,2% dos brasileiros.

Homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no País. De acordo com o trabalho, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras, e a morte de pessoas do sexo masculino, com idade entre 15 e 29 anos, representa 47,85% do total de óbitos registrados no período estudado.

O painel apresentado por organizações reconhecidas internacionalmente ganha contornos trágicos em situações descritas pelo noticiário, onde mortes violentas – muitas delas de crianças e adolescentes ví- timas de balas perdidas – ocupam na mídia espaço cada vez maior, e os indicadores de morbimortalidade ajudam a delinear a estreita relação entre violência e saúde da população.

No Brasil, jovens perdem a vida de forma inesperada, e as mortes violentas influenciam o índice de expectativa de vida, em especial dos homens. Afinal, em suas múltiplas expressões, esse fenômeno é, atualmente, a terceira maior causa de mortes no País, sendo superada apenas pelos números de óbitos decorrentes de doenças cardiovasculares e do câncer.

Impossível dissociar violência e suas consequências das ações de políticas públicas de saúde, com milhares de vítimas nos serviços de urgência e emergência – 1.107 unidades de pronto atendimento (UPAs) e 453 prontos-socorros – distribuídos pelos estados.

Para se ter uma ideia, esses serviços acolheram, entre 2006 e 2015, um total de 379.915 vítimas de disparos de arma de fogo, que representam 71% de todos os casos de agressão registrados pelo Ministério da Saúde no período. Cada um desses casos exige cuidados de maior ou menor complexidade, o que tem contribuído para onerar ainda mais a conta da saúde.

Para enfrentar esse problema, cabe às três esferas de gestão articular suas ações. A criação do Ministério da Justiça e Segurança Pública representa um importante esforço, pela sua proposta de alinhar o trabalho das polícias. Contudo, como os resultados serão colhidos em médio e longo prazos, é preciso, nesse interregno, de um zelo especial pela saúde pública.

Trata-se da exigência de maiores investimentos na qualificação de serviços, dotando-os de leitos, equipamentos e insumos, bem como de médicos e outros profissionais da saúde qualificados e em número suficiente à demanda, que aumenta a cada dia.

Também é preciso ajustar a atuação das centrais de regulação, para que o socorro prestado garanta a vida e o bem-estar das vítimas da violência, sem prejudicar o atendimento de outros pacientes que também procuram as urgências e as emergências.

As autoridades devem buscar inspiração nas estatísticas e nas recomendações de profissionais que atuam diretamente no front, como os médicos, para definir os rumos a serem tomados. Somente assim será possível reduzir o tamanho dessa tragédia social e humanitária, que indica o quanto o Brasil ainda está distante do caminho do desenvolvimento justo e igualitário.

 

* É presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Palavra do Presidente publicada na edição nº 276 do jornal Medicina. Acesse aqui a edição.

 
Depressão: vamos conversar?
Sex, 16 de Março de 2018 10:16

Marco Antonio Bessa*

 

Os vazios do homem não sentem ao nada do vazio qualquer.
João Cabral de Mello Neto

A estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que, hoje, 350 milhões de pessoas sofram de depressão em todo o mundo, das quais cerca de 11 milhões estão no Brasil e 54 milhões na China. Houve um aumento de 20% nos casos na última década, o que faz da depressão a maior causa de incapacitação no mundo – refletindo na queda da produtividade no trabalho, ocasionando alto custo global e desperdiçando cerca de um trilhão de dólares por ano.

No entanto, apesar da importância médica e social que esses números indicam, a depressão ainda é uma enfermidade envolta em preconceitos, desinformação e estigma. Mesmo entre médicos costuma-se ouvir que depressão não existe. “É tudo falta de força de vontade, acomodação de pessoa fraca ou mimada”. Procura-se uma fonte externa e, se esta não é encontrada (perda familiar, desemprego, doenças…), conclui-se que a pessoa não tem motivos para estar deprimida e, portanto, deve ser forte e reagir. Claramente, tal fato ainda é mais frequente se a depressão afeta homens, para quem problemas emocionais não são coisa de “macho”. Isso os afasta da busca de ajuda profissional e do tratamento de que necessitam.

De modo geral, as pessoas permanecem sem diagnóstico e sem tratamento em quase metade dos casos nos países desenvolvidos, índice que alcança entre 80% e 90% nos países não desenvolvidos. Sob ótica apenas econômica, estima-se que cada dólar investido em tratamento produza quatro dólares de lucro, por resultar em aumento da produtividade no trabalho e em melhora na saúde.

A depressão não é apenas uma tristeza, melancolia ou irritação relacionada às frustrações do cotidiano – derrota do time, congestionamento do trânsito, difícil situação econômica, desavença familiar ou no trabalho. Ela pode acontecer em crianças, adolescentes, homens, mulheres e idosos. Não respeita idade, sexo, profissão, nível cultural ou econômico.

Os seus sintomas são variados e com graduações diferentes. Apresenta-se em forma de tristeza, sensação de vazio, desesperança, irritação e impaciência. Pode ser uma total falta de interesse e de prazer em tudo: família, trabalho, amigos, lazer, religião. A memória e a atenção ficam afetados e o pensamento pode estar lento, pesado; é complicado raciocinar e tomar decisões, mesmo aquelas comuns, como que roupa vestir. As noites tornam-se intermináveis por uma insônia resistente, ou os dias tornam-se inúteis devido a um sono incontrolável. O apetite fica desregulado, com correspondente perda ou ganho de peso. Pode haver uma sensação de inutilidade, cansaço ou falta de energia para tudo. Tomar banho, além de desnecessário, equivale a um dos doze trabalhos de Hércules. Pode haver sensação de culpa, de falta de sentido em tudo e, para muitos, surge a vontade de morrer ou de pôr fim à vida e ao seu sofrimento profundo.

O que se entendia como um mero cansaço ou tédio de quem não tem problemas, na verdade obscurece o pensamento, os sentimentos, a vontade e a vitalidade do corpo. A família, os estudos e o trabalho ficam desinteressantes e desimportantes. A morte parece uma solução. Não é por acaso, portanto, que as taxas de suicídio são elevadas no panorama internacional. Em torno de 800 mil pessoas suicidam-se por ano – um caso a cada 4 segundos. Os estudos apontam que entre 70% e 80% dessas pessoas, nos países ricos, e cerca 50% delas, nos países pobres, sofrem por transtornos mentais, em especial o transtorno depressivo. Além disso, a depressão aumenta o risco de outros transtornos, tais como dependência química, diabetes e doenças cardiovasculares, que também são importantes causas de mortalidade.

Atenta a esse flagelo, a OMS iniciou no Dia Mundial da Saúde (7 de abril) uma campanha sobre depressão, definindo o lema “Depressão: vamos conversar?”. É uma iniciativa que busca incentivar a prevenção e a procura de tratamento para a doença e que auxiliará também na diminuição das sombras do preconceito e do estigma. Ademais, incentivará a procura por profissionais, em particular psiquiatras, que podem oferecer tratamento adequado. Procurar esse especialista não significa que a pessoa esteja louca, como ainda se acredita no senso comum.

O objetivo da campanha endereçada à população é alertar que a depressão é um problema grave, real, que pode afetar qualquer pessoa, em qualquer fase da vida, e ocasionar consequências funestas, se não diagnosticada e tratada. É claro que a campanha oferece um grande desafio aos países – ao Brasil, inclusive – para que ampliem os serviços públicos de atendimento psiquiátrico e de saúde mental, criando uma rede de tratamento com acesso rápido e também com profissionais de outras áreas médicas, altamente qualificados e treinados para o diagnóstico e tratamento precoce, que possam encaminhar os casos mais graves e refratários para especialistas.

Por ser uma doença complexa, que depende da interação de múltiplos fatores, como os genéticos, familiares, culturais, históricos, econômicos e ambientais, o tratamento não é simples. Não basta receitar uma pílula da felicidade ou uma terapia mágica. O tratamento exige inúmeras intervenções que partem, por exemplo, da oferta de melhores condições de vida, como transporte, segurança e educação. A estas somam-se medidas que visam a diminuição do estresse, a promoção da saúde e a prevenção das doenças, como diabetes, hipertensão arterial, tabagismo, alcoolismo e outros transtornos mentais.

Uma abordagem correta, identificando em cada caso quais são os fatores determinantes e que métodos terapêuticos são mais adequados, pode resultar em significativa melhora e recuperação, permitindo o alívio do sofrimento das pessoas e das famílias afetadas.

Ao participar da campanha da OMS, precisamos compreender que uma doença grave e cercada de comentários equivocados, como a depressão, exige que a sociedade reconheça sua existência, respeite os doentes, enfrente as condições que dificultam seu diagnóstico e tratamento, e promova a saúde como um bem maior.

Por isso, “depressão: vamos conversar?”.

 

 

* Conselheiro e coordenador da Câmara Técnica de Psiquiatria do CRM-PR, professor adjunto de psiquiatria da UFPR, doutor em psiquiatria, mestre em filosofia e ex-presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria.

 

 

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