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Artigos
A política de atenção à saúde do homem está esquecida
Seg, 23 de Julho de 2018 15:11

Escrito por Kaique Antônio Moreno Leão de Azevedo*

 

Lançada oficialmente em 2009, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) representou um passo importante, visto que os homens sempre foram compreendidos com certa singularidade na saúde pública. A PNAISH determinou diversos eixos nos quais a ação conjunta do Estado e dos profissionais de saúde possibilitasse o entendimento integral do homem dentro da atenção básica, tornando-o foco de uma política ampliadora de caráter psicossocial. A estratégia foi incorporar esse grupo a uma discussão em que se pudesse compreender suas fragilidades dentro de um contexto no qual somente crianças, mulheres e idosos tinham atenção do sistema de saúde. Os homens se habituaram a se restringir às unidades de saúde por considerarem dispensáveis os exames de rotina, o rastreio das doenças que poderiam os acometer e até procedimentos que, de alguma forma, possam insultar sua masculinidade. Os tempos mudaram e as mulheres estão cada vez mais empoderadas; os homens já não são mais os responsáveis pelo sustento financeiro da família como antes e isso torna a realidade bem diferente de alguns anos atrás.

Essas discussões sobre gênero chegaram até a saúde pública por meio de grandes movimentos sociais e políticos e, nesse contexto, permitiram que políticas fossem ampliadas e modificadas para se adequarem a essa nova realidade. No entanto, os homens passaram a também fazer parte de um foco social no qual suas questões biológicas seriam levantadas a uma discussão de ordem nacional. A PNAISH teve como principais objetivos atraí-los aos espaços de saúde, analisar suas questões particulares, convidá-los a fazer parte do planejamento familiar e garantir um acolhimento digno, tendo seus direitos sexual e reprodutivo discutidos dentro do campo da saúde.

Na teoria, a PNAISH é uma ótima ferramenta para melhorar ainda mais o acolhimento na atenção básica, visando universalidade, equidade e integralidade, mas sua implantação dentro do sistema público falhou e caminha a passos curtos. Hoje não há qualquer investimento no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) para preparar as unidades básicas sobre as questões dessa política. Muitos profissionais e gestores sequer a conhecem, com suas diretrizes e seus objetivos. Não há a divulgação de cartilhas nem o conhecimento da existência dela por parte dos homens. As unidades básicas não oferecem estrutura, muitas vezes, para o acolhimento correto de manejo desse público e para sua compreensão integral, e os profissionais acabam não zelando por suas preocupações, pois geralmente os homens são vistos apenas como acompanhantes dentro das unidades.

Embora haja compreensão de sua importância, a PNAISH peca quando não deixa claros os meios corretos para sua implantação. Oferece, sim, uma gama de objetivos, mas falha na instrução dos profissionais e gestores e, muitas vezes, não há sequer um material didático para distribuição à população.

Enquanto não há essa implantação coerente, os homens ficam restritos a problemas urológicos, deixando de lado os outros agravos. Há também a falta de dados sobre a quantidade de indivíduos que realizam consultas e exames, o que não facilita um melhor planejamento para tornar a política uma prioridade de saúde.

É preciso maior incentivo aos profissionais, aos gestores e aos homens. Necessita-se de investimento na adequação para as realidades locais, preparação e habilitação para o exercício das diretrizes e, principalmente, enxergar as dificuldades que fazem com que os homens deixem de ir às unidades de saúde. É preciso uma maior resolubilidade sobre os fatores que acometem a saúde masculina, deixando de lado a pretensão de tratar os homens como um grupo homogêneo que apresenta os mesmos agravos e as mesmas queixas.

 

* É graduando em medicina pela Faculdade Governador Ozanam Coelho (Fagoc) em Minas Gerais.

 

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Três tipos de médico
Seg, 23 de Julho de 2018 11:29

Escrito por Evaldo d’Assumpção*

 

Com mais de meio século de vivência médica, posso afirmar que nossa profissão é composta de três tipos de médico, os quais descrevo a seguir, suscintamente.

O médico por vocação é aquele que sempre quis ser médico e desde criança nunca titubeou em afirmar seu propósito. Passaram-se os anos e ele percorreu, com persistência, os caminhos para alcançar seu objetivo. Formado, recebeu o diploma como a realização de sua vida. Dedicou-se com afinco ao seu trabalho, exercendo a profissão com empenho, pois aliviar sofrimentos, curar doenças e salvar vidas não tem dia nem hora marcada. Cuidou dos enfermos e consolou seus parentes com total dedicação e carinho. Soube ouvir os que sofrem e seus familiares, cuidando para nunca demonstrar cansaço, menosprezo ou desatenção. Nesse processo sacrificou seus ganhos financeiros, valorizando mais o cuidar do outro do que a si próprio. Chamado de idealista, às vezes até pejorativamente, mas isso não o abala. Sua vocação é sua convicção. Feliz, mesmo enfrentando dificuldades e desconfortos, é MÉDICO, totalmente escrito com maiúsculas.

Já o profissional tem a vocação para a medicina somada à obstinada preocupação de ser o melhor. Todavia, sua força propulsora vem de denodada busca por fama e fortuna. Trata com perícia seus pacientes, mas impõe sempre uma rotina de trabalho que lhe permita oportunidades de reconhecimento e renumeração. Sua disponibilidade para os enfermos é limitada ao necessário para a execução do seu trabalho. Logo forma uma equipe, o que não lhe é difícil pela notoriedade conquistada e pela pletora de médicos recém-formados. Logo transfere a parte rotineira e burocrática para seus assistentes, tornando-se quase inacessível aos clientes uma vez ultrapassada a fase crítica do tratamento. Aos auxiliares caberá a parte supostamente secundária. Daí as constantes queixas de que ele é competente, porém difícil de ser contatado pelos clientes e familiares. Sempre está com a agenda lotada ou viajando para congressos e reuniões médicas, dando aulas, apresentando trabalhos. Isso lhe dá notoriedade e generosos espaços na mídia, tudo proporcionando-lhe polpudos rendimentos e posição privilegiada nos ambientes que frequenta. Quase sempre é, sem dúvida, um ótimo profissional médico, mas como humanista hipocrático fica muito a desejar, sendo alvo cobiçado e fácil para espertos advogados e clientes insatisfeitos.

O oportunista nem sempre tem vocação para a medicina. Geralmente o que tem é um pai, um tio ou um sogro médico, ou então um mecenas que possui hospital, clínica, laboratório ou qualquer estrutura médica já montada, na qual ele terá um emprego garantido, fazendo-o supor que não haverá obstáculos a vencer. Geralmente forma-se em uma escola de medicina de segunda ou terceira categoria, com poucas exigências. Tampouco lhe importa uma boa residência, uma sólida formação numa especialidade. Só lhe interessa o diploma que legalizará o seu futuro e, depois, o dinheiro que irá ganhar, não se incomodando com o que e como irá fazer para tal. São os que mais contribuem para a péssima qualidade da assistência médica que impera em nosso País, pelo quase total desprestígio dos bons profissionais dessa área e pela judicialização cada vez maior da medicina.

Cada um, ao se olhar no espelho, saberá bem onde se situa.

 

* É médico e escritor.

  

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Qualidade na vida dos que cuidam da vida
Sex, 06 de Julho de 2018 08:57

Escrito por Rosimara Moraes Bonfim*

 

Escrevendo este artigo em fevereiro, já estamos observando as diversas manifestações sobre comemorarmos o Dia da Mulher, em 8 de março. Permeando as discussões na mídia sobre segurança pública e qualidade dos serviços de saúde se deteriorando, surgem aqui e ali comentários sobre um trabalho científico intitulado Estudo da mortalidade dos médicos no estado de São Paulo: tendências de uma década (2000-2009), desenvolvido e publicado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), que revela dados alarmantes: os médicos em geral morrem mais cedo que o restante da população, principalmente as médicas! Alerta preocupante, que chamou atenção em especial pela época na qual está sendo publicado.

Análise mais apurada dos dados obtidos, ressalvando-se as limitações citadas no próprio artigo, temos como causas básicas de óbito na profissão em primeiro lugar as neoplasias e, em segundo, as doenças cardiovasculares nas mulheres; e nos homens, doenças cardiovasculares em primeiro e as neoplasias em segundo. Ou seja, doenças diretamente relacionadas aos hábitos de vida. Já discutimos anteriormente o estresse na profissão, crescente preocupação nossa, em especial pelos estudos recentes demonstrando evidências claras de burnout não só nos médicos já em exercício profissional, mas também nos residentes e nos estudantes de medicina.

Chama atenção também o fato de entre médicos a taxa de suicídio ser quase quatro vezes maior que a da população em geral, aqui se ressaltando a elevada incidência entre as médicas. Dados comparativos com um estudo de Santa Catarina, da Polônia e da Dinamarca também tendem aos mesmos resultados. Mas afinal, o que está acontecendo com essas profissionais? Podemos inferir que a baixa qualidade no tocante aos cuidados com dieta e exercícios – pela falta de tempo –, a sobrecarga de trabalho e gestão das deficiências do sistema público, as limitações de convênios e as cobranças exageradas, mesmo de pacientes de clínica particular, geram um estado constante de estresse e demandam muito tempo dos profissionais de ambos os sexos. Além disso, nas mulheres há culturalmente a expectativa de serem mais compreensivas e passivas, atendendo às demandas também emocionais dos pacientes e de demais membros da equipe de saúde, ou seja, esperam da médica o papel muitas vezes de amiga, filha, mãe e confidente. Por outro lado, há ainda a cultura da mulher ter que provar sua capacidade, realizando as suas tarefas de forma “mais bem-feita” e, assim, provando que tem a mesma capacidade do homem, trazendo estresse adicional ao seu exercício profissional. Quando sai do trabalho, há sua jornada no lar, na qual tem minimamente o papel de administrar a casa e os auxiliares que tiver para a gestão da família, o que frequentemente não cobrado do médico. E muitas vezes ela é a executora dos cuidados a todos, desde refeições até acompanhar atividades escolares. Se ela não é mãe, muitas vezes os familiares e amigos não médicos esperam algum cuidado especial, demandando também atenção. Não sobra tempo para o lazer ou exercícios, há restrição do sono e outros aspectos. Esses fatores somados podem também explicar o índice maior de suicídios entre médicas em comparação aos médicos. Como dispõem de conhecimento técnico mais apurado, optam por essa via extrema de maneira mais silenciosa que as mulheres não médicas e, assim, fica tarde para serem socorridas.

Um dado igualmente relevante é a limitação do profissional de medicina em procurar ajuda, especialmente nos casos de depressão e sobrecarga emocional: acostumados a serem considerados “fortes” e ainda em uma cultura que discrimina pacientes buscando ajuda com profissionais de saúde mental, os médicos naturalmente tendem a não procurá-la, havendo muitos casos de depressão, burnout e outros quadros sem o diagnóstico e o devido tratamento.

O próprio estudo chama atenção a todos esses aspectos, em especial à necessidade de mais pesquisa e investimento na qualidade de vida: oportunidades de atividade física, evitar tabagismo e etilismo, mais lazer, descanso apropriado e melhoria na dieta, no ambiente de trabalho e nas relações são elementos frequentemente citados no consultório e esclarecidos aos pacientes diariamente, mas não são praticados pela classe médica. Assim, a qualidade de vida dos profissionais de medicina também pede socorro. Fica aqui o alerta, em especial às médicas!

 

* Cirurgiã plástica, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e diretora de assuntos profissionais da Associação Médica de Governador Valadares (AMGV).

 

 

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Sem cortinas de fumaça na saúde
Sex, 06 de Julho de 2018 08:49

Escrito por José Hiran da Silva Gallo*

 Em julho de 2017, o plenário do Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou uma dura moção de repúdio a comentários feitos pelo então ministro da Saúde, Ricardo Barros, em que usava termos pejorativos para se referir aos médicos e a outros profissionais que dedicam suas vidas ao atendimento da população. Participei da elaboração daquele texto que apontava a inadequação do tratamento dispensado.

“Diante da necessidade premente de união de esforços em torno da superação dos inúmeros problemas que afetam o Sistema Único de Saúde (SUS), são completamente inadequados os comentários pejorativos feitos por autoridades que se mostram desconectadas da realidade do trabalho dos profissionais da saúde, em especial dos médicos, bem como da própria dinâmica de funcionamento do SUS.”

Mais adiante, o documento, que ganhou o apoio de inúmeras outras sociedades médicas de todo o País, afirmava que na incapacidade de responder aos anseios da população e a tentativa de transferir para as categorias da área da saúde, sobretudo para os médicos, a culpa pela grave crise que afeta a rede pública não eximem o Estado de suas responsabilidades ou afasta a compreensão da falta da indispensável atenção administrativa.

Infelizmente, o tempo passou, mas a percepção equivocada de alguns gestores e políticos sobre o trabalho realizado pelos profissionais na rede pública permanece o mesmo. No episódio recente, em que o prefeito Hildon Chaves desqualificou diante da população a atuação dos médicos nos postos de saúde de Porto Velho, as declarações do político são no mínimo descoladas da realidade e uma afronta ao bom senso.

O prefeito parece ter frequentado a mesma escola do ex-ministro da Saúde. Em lugar de propor respostas efetivas para os inúmeros problemas que comprometem a qualidade do atendimento, cria factoides para desviar a atenção do real problema: a inexistência de planejamento e de compromisso com a condução do serviço público.

Assim, a lógica adotada é a de jogar sobre os ombros dos outros a responsabilidade por situações que estão completamente fora da governabilidade de quem está trabalhando nas emergências e nos consultórios. Afinal, quem pode tomar decisões administrativas e conduzir processos de compra: são os médicos ou são os gestores do Estado? Não sou adepto de teorias de conspiração, mas a ação perpetrada parece parte de um grande complô para acabar com o SUS, uma das maiores conquistas da sociedade brasileira.

A lógica seria atirar os serviços oferecidos pelo SUS numa vala de incompetência e de desmandos tão grande que a população se sentiria entusiasmada com as alternativas, como a criação de planos populares de saúde. Não por acaso, essa era uma das principais propostas do ministro Ricardo Barros.

Os médicos e a população estão atentos e não permitirão que vinguem ameaças desse tipo e muito menos que cortinas de fumaça, como a levantada pelo prefeito Hildon Chaves, escondam a realidade dos fatos. No lugar de declarações midiáticas, é hora de trabalho, de boa gestão, de transparência, de exercitar competência administrativa.

Nesse momento, em lugar de críticas, espera-se lucidez e diálogo. O Conselho Regional de Medicina de Rondônia (Cremero) e o Sindicato Médico de Rondônia (Simero) já têm se colocado à disposição para contribuir com esse debate. A eles, agrego o CFM, no qual represento o Estado, que há tempos vem apontando as fragilidades locais na expectativa de promover uma mudança nos rumos da gestão da saúde rondoniense.

Esperamos que o prefeito Hildon Chaves responda positivamente a esse apelo público, participando dessa convergência de interesses em prol do bem coletivo. Se isso for feito, quem ganhará é o povo de Rondônia, que sabe que apenas o trabalho articulado entre os políticos e os administradores do Estado com os médicos, os profissionais da saúde e a sociedade organizada recolocarão a assistência à população na rota da qualidade.

 

 

* É diretor-tesoureiro do CFM.

Artigo publicado nas agências de notícias Expressão Rondônia, Painel Político e Tudorondônia.com em 8 de maio de 2018.

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O financiamento e a gestão na saúde
Qua, 27 de Junho de 2018 13:07

Escrito por Carlos Vital Tavares Corrêa Lima*

 

Parte do valor da conta gerada pela recente paralisação dos caminhoneiros, que durou 12 dias, veio na edição do dia 31 de maio do Diário Oficial da União, com a informação do cancelamento de R$ 3,82 bilhões que deveriam ser destinados aos cofres públicos para subvenção ao diesel. Na prática essa medida impossibilitará o uso de recursos no desenvolvimento de iniciativas previstas em setores como segurança, educação e saúde.

No âmbito do Ministério da Saúde, foi prejudicado o programa de fortalecimento do SUS, com a redução de verbas dirigidas às ações de manutenção em unidades de saúde e de melhoria na formação de médicos e outros profissionais, bem como para o aperfeiçoamento da Rede Cegonha.

A supressão desses recursos direcionados ao Sistema Único de Saúde comprometerá o atendimento à população e poderá causar prejuízos irreparáveis, individuais e coletivos, além daqueles já determinados por incompetência administrativa, quando ­ de 2003 a 2017 ­ deixou-se de aplicar R$ 174 bilhões que haviam sido autorizados para os gastos com assistência.

De acordo com a Associação Contas Abertas, esse montante representou 11% do total de R$ 1,6 trilhão autorizado naquele período para o Ministério da Saúde pelo Orçamento Geral da União (OGU). Quase metade desses recursos não utilizados (R$ 80 bilhões) deveria ter sido investida na realização de obras e na compra de equipamentos médico-hospitalares para o atendimento no SUS.

Enquanto isso, médicos e demais profissionais da área, e principalmente pacientes, têm que lidar com a falta de leitos de internação, o acesso restrito às Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), a escassez de medicamentos e insumos.

Por outro lado, agravando a falta de adequado financiamento, há problemas no controle de gastos na saúde. Segundo dados do Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União (CGU), entre 2014 e 2018, foram abertos 36 processos para apurar atos relacionados à corrupção que teriam sido praticados por empresas que prestam serviços na área, o que pode confirmar a fragilidade dos mecanismos internos de
fiscalização, controle e avaliação existentes nos espaços sob responsabilidade do Ministério da Saúde.

Os elementos que compõem essa realidade contribuem para a deterioração da assistência oferecida pela rede pública e influenciam a percepção dos brasileiros sobre a saúde no País. É o que fica evidente ao se analisar resultados preliminares de pesquisa que o Instituto Datafolha fez a pedido do Conselho Federal de Medicina (CFM).

O trabalho identificou os pontos que têm comprometido a atuação do SUS e a expectativa de medidas por parte dos políticos que serão eleitos esse ano para contorná-los. Entre os pontos que devem ser atacados, a população destaca o combate à corrupção na área da saúde (26%) e a construção de mais postos e hospitais (11%), ou seja, de mais investimentos.

Os dados, que ajudarão a colocar a pauta da saúde no debate eleitoral, deixam claro que os brasileiros estão cada vez mais conscientes de seus direitos, distanciando-se da equação simplista da política do pão e circo, na busca de um País com desenvolvimento sustentável, em uma perspectiva de futuro melhor, com exercício de cidadania, probidade, promoção e zelo pela saúde como parte fundamental da dignidade humana.

 

Palavra do Presidente publicada na edição n. 279 do jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 
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