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Depressão: vamos conversar?
Sex, 16 de Março de 2018 10:16

Marco Antonio Bessa*

 

Os vazios do homem não sentem ao nada do vazio qualquer.
João Cabral de Mello Neto

A estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que, hoje, 350 milhões de pessoas sofram de depressão em todo o mundo, das quais cerca de 11 milhões estão no Brasil e 54 milhões na China. Houve um aumento de 20% nos casos na última década, o que faz da depressão a maior causa de incapacitação no mundo – refletindo na queda da produtividade no trabalho, ocasionando alto custo global e desperdiçando cerca de um trilhão de dólares por ano.

No entanto, apesar da importância médica e social que esses números indicam, a depressão ainda é uma enfermidade envolta em preconceitos, desinformação e estigma. Mesmo entre médicos costuma-se ouvir que depressão não existe. “É tudo falta de força de vontade, acomodação de pessoa fraca ou mimada”. Procura-se uma fonte externa e, se esta não é encontrada (perda familiar, desemprego, doenças…), conclui-se que a pessoa não tem motivos para estar deprimida e, portanto, deve ser forte e reagir. Claramente, tal fato ainda é mais frequente se a depressão afeta homens, para quem problemas emocionais não são coisa de “macho”. Isso os afasta da busca de ajuda profissional e do tratamento de que necessitam.

De modo geral, as pessoas permanecem sem diagnóstico e sem tratamento em quase metade dos casos nos países desenvolvidos, índice que alcança entre 80% e 90% nos países não desenvolvidos. Sob ótica apenas econômica, estima-se que cada dólar investido em tratamento produza quatro dólares de lucro, por resultar em aumento da produtividade no trabalho e em melhora na saúde.

A depressão não é apenas uma tristeza, melancolia ou irritação relacionada às frustrações do cotidiano – derrota do time, congestionamento do trânsito, difícil situação econômica, desavença familiar ou no trabalho. Ela pode acontecer em crianças, adolescentes, homens, mulheres e idosos. Não respeita idade, sexo, profissão, nível cultural ou econômico.

Os seus sintomas são variados e com graduações diferentes. Apresenta-se em forma de tristeza, sensação de vazio, desesperança, irritação e impaciência. Pode ser uma total falta de interesse e de prazer em tudo: família, trabalho, amigos, lazer, religião. A memória e a atenção ficam afetados e o pensamento pode estar lento, pesado; é complicado raciocinar e tomar decisões, mesmo aquelas comuns, como que roupa vestir. As noites tornam-se intermináveis por uma insônia resistente, ou os dias tornam-se inúteis devido a um sono incontrolável. O apetite fica desregulado, com correspondente perda ou ganho de peso. Pode haver uma sensação de inutilidade, cansaço ou falta de energia para tudo. Tomar banho, além de desnecessário, equivale a um dos doze trabalhos de Hércules. Pode haver sensação de culpa, de falta de sentido em tudo e, para muitos, surge a vontade de morrer ou de pôr fim à vida e ao seu sofrimento profundo.

O que se entendia como um mero cansaço ou tédio de quem não tem problemas, na verdade obscurece o pensamento, os sentimentos, a vontade e a vitalidade do corpo. A família, os estudos e o trabalho ficam desinteressantes e desimportantes. A morte parece uma solução. Não é por acaso, portanto, que as taxas de suicídio são elevadas no panorama internacional. Em torno de 800 mil pessoas suicidam-se por ano – um caso a cada 4 segundos. Os estudos apontam que entre 70% e 80% dessas pessoas, nos países ricos, e cerca 50% delas, nos países pobres, sofrem por transtornos mentais, em especial o transtorno depressivo. Além disso, a depressão aumenta o risco de outros transtornos, tais como dependência química, diabetes e doenças cardiovasculares, que também são importantes causas de mortalidade.

Atenta a esse flagelo, a OMS iniciou no Dia Mundial da Saúde (7 de abril) uma campanha sobre depressão, definindo o lema “Depressão: vamos conversar?”. É uma iniciativa que busca incentivar a prevenção e a procura de tratamento para a doença e que auxiliará também na diminuição das sombras do preconceito e do estigma. Ademais, incentivará a procura por profissionais, em particular psiquiatras, que podem oferecer tratamento adequado. Procurar esse especialista não significa que a pessoa esteja louca, como ainda se acredita no senso comum.

O objetivo da campanha endereçada à população é alertar que a depressão é um problema grave, real, que pode afetar qualquer pessoa, em qualquer fase da vida, e ocasionar consequências funestas, se não diagnosticada e tratada. É claro que a campanha oferece um grande desafio aos países – ao Brasil, inclusive – para que ampliem os serviços públicos de atendimento psiquiátrico e de saúde mental, criando uma rede de tratamento com acesso rápido e também com profissionais de outras áreas médicas, altamente qualificados e treinados para o diagnóstico e tratamento precoce, que possam encaminhar os casos mais graves e refratários para especialistas.

Por ser uma doença complexa, que depende da interação de múltiplos fatores, como os genéticos, familiares, culturais, históricos, econômicos e ambientais, o tratamento não é simples. Não basta receitar uma pílula da felicidade ou uma terapia mágica. O tratamento exige inúmeras intervenções que partem, por exemplo, da oferta de melhores condições de vida, como transporte, segurança e educação. A estas somam-se medidas que visam a diminuição do estresse, a promoção da saúde e a prevenção das doenças, como diabetes, hipertensão arterial, tabagismo, alcoolismo e outros transtornos mentais.

Uma abordagem correta, identificando em cada caso quais são os fatores determinantes e que métodos terapêuticos são mais adequados, pode resultar em significativa melhora e recuperação, permitindo o alívio do sofrimento das pessoas e das famílias afetadas.

Ao participar da campanha da OMS, precisamos compreender que uma doença grave e cercada de comentários equivocados, como a depressão, exige que a sociedade reconheça sua existência, respeite os doentes, enfrente as condições que dificultam seu diagnóstico e tratamento, e promova a saúde como um bem maior.

Por isso, “depressão: vamos conversar?”.

 

 

* Conselheiro e coordenador da Câmara Técnica de Psiquiatria do CRM-PR, professor adjunto de psiquiatria da UFPR, doutor em psiquiatria, mestre em filosofia e ex-presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria.

 

 

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 
Assistência ao doente mental no rumo certo
Sex, 23 de Fevereiro de 2018 17:08
Dia 22 de dezembro de 2017: um marco na história da assistência psiquiátrica no Brasil. Neste dia, o Ministério da Saúde publicou a Portaria nº 3.588, que inicia um redirecionamento da política de assistência ao doente mental, obedecendo fielmente a Lei nº 10.216/01.
 
Antes disso, nos últimos 30 anos, nenhum avanço nas políticas públicas de assistência psiquiátrica no Brasil havia ocorrido.Pelo contrário, apenas retrocessos liderados por uma militância ideológica de não médicos que ocupou a Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde e promoveu a desassistência no Brasil.
 
Por acreditarem que o paciente psiquiátrico não é doente e sim diferente, e que ele não necessita de tratamento e sim de cuidados, promoveram uma progressiva exclusão do médico do sistema público de assistência psiquiátrica e o fechamento de leitos especializados, quando o correto seria qualificá-los.
 
O Brasil retrocedeu à psiquiatria religiosa e policial, abandonando a científica, que conta com recursos terapêuticos altamente eficientes. Todos sabemos que o diagnóstico precoce de uma doença mental e o rápido início do tratamento farmacológico melhora muito o prognóstico do paciente.
 
Nesse longo período de exclusão do psiquiatra da assistência, o prejuízo para os doentes mentais foi de grande significado para as suas vidas e de suas famílias.
 
Sem a chance do diagnóstico nem do tratamento precoce, o paciente foi condenado ao livre curso da doença e à consequente e irreversível deterioração. A experiência de programas de assistência ao
doente mental elaborados por “filósofos”, alicerçados em premissas falsas e com excessiva ideologização, foi desastrosa para o País.
 
Os pacientes esperam que a lição tenha sido aprendida, pois essa construção precisa ter: a colaboração de secretários estaduais e municipais de saúde, que conhecem de perto o caos reinante na assistência psiquiátrica e são cobrados diretamente pela população; a participação dos psiquiatras, que detêm o conhecimento técnico; e a atuação dos profissionais de saúde que compõem a equipe psiquiátrica, com muito a contribuir.
 
Mas, fundamentalmente, a assistência psiquiátrica deve ter um coordenador sério, com conhecimento da área, experiência na assistência e obstinado. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) propõem diretrizes para um modelo de assistência integral em saúde mental no Brasil, documentado por meio da Resolução nº 1.925/10.
 
É basilar que o paciente receba o atendimento de que necessita, e não aquele que o sistema disponibiliza. E, para isso, em cada um dos serviços, a equipe psiquiátrica deve ser completa e contar com
psiquiatra (coordenador), clínico, enfermeiro, assistente social, psicólogo, farmacêutico, nutricionista, terapeuta ocupacional, educador físico e profissionais de nível médio.
 
A característica interprofissional da equipe psiquiátrica garante assistência global ao paciente, na qual os aspectos biológicos, psicológicos e sociais são considerados, observando-se o modelo médico.
 
Assim, é imprescindível que sejam feitas avaliações objetivas capazes de aferir com segurança os resultados de cada serviço, seguindo os instrumentos de avaliação consistente e tecnicamente, desenvolvidos pelo CFM por meio de seu Departamento de Fiscalização, os quais deveriam ser observados pelos gestores na área da saúde mental.
 
Nesse processo, é importante que os envolvidos na assistência ao doente ofereçam sua contribuição para que tenhamos êxito. Aquele que quiser se opor às ações que vêm sendo realizadas pelo coordenador Quirino Cordeiro, atualmente à frente da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde, precisa primeiro cegar os olhos da própria consciência. Neste momento, em que o País passa por um grave contexto socioeconômico e político, com intensa piora nas mazelas da saúde, prejudicando pacientes e profissionais, precisamos abraçar a causa em defesa da segurança e nos organizar para melhorar a saúde de nossa população, muito sofrida e carente de sua maior expectativa: ter uma saúde de qualidade.
 
* É psiquiatra e conselheiro federal pelo estado de Goiás.
 
A prevenção ao suicídio e o Setembro Amarelo
Sex, 23 de Fevereiro de 2018 11:15

Alexandre Paim Diaz*

 

O suicídio está entre as dez principais causas de mortalidade no mundo e é o segundo motivo mais frequente na faixa etária dos 15 aos 34 anos. Não é possível estabelecer uma explicação única para esse tipo de morte. O mais provável é que resulte de uma interação entre fatores sociais, ambientais e individuais. No entanto, sabemos que os transtornos psiquiátricos têm um peso diferenciado nessa equação: quase todas as pessoas que cometeram suicídio apresentavam doenças como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia ou faziam uso de drogas, lícitas ou ilícitas. Assim, o tratamento do transtorno psiquiátrico é a principal forma de prevenção do suicídio, cujo risco é uma emergência médica.

O estigma é uma das maiores barreiras para o acesso ao tratamento: está presente na pessoa que evita buscar ajuda por vergonha dos seus sintomas, no gestor que não direciona os recursos necessários à saúde mental e naquela pessoa (familiar, amigo ou colega) incapaz de reconhecer que, caso houvesse possibilidade de escolha, não se optaria pela doença. O estigma nos cega para a eficácia e segurança da eletroconvulsoterapia e colabora para o fechamento de leitos de tratamento psiquiátrico, ambos necessários para salvar vidas.

O Setembro Amarelo é uma iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) que tem como objetivos principais: 1) chamar a atenção da sociedade para esse grave problema de saúde pública; 2) fornecer informações técnicas sobre os principais fatores de risco e as formas de prevenção do suicídio. Mas ao falar da importância do diagnóstico e do tratamento dos transtornos psiquiátricos, o Setembro Amarelo vai além e contribui para a redução do estigma e do preconceito dos quais inúmeros brasileiros são vítimas. Mais do que isso, reconhece o potencial de cada indivíduo da sociedade civil para ajudar na redução das taxas de suicídio, não somente a partir do conhecimento dos sinais de alerta, fatores de risco e de proteção, mas também colaborando com a redução do estigma e do preconceito em relação aos transtornos psiquiátricos.

 

*Co-coordenador Nacional da Campanha Setembro Amarelo ABP/CFM.

 

 

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Como conviver (bem) com o dr. Google
Sex, 23 de Fevereiro de 2018 10:05

Alexandre Ruschi*

 

Ao digitar a palavra “câncer” no Google, obtêm-se 27,2 milhões de resultados em 0,56 segundos. Se a busca for bem mais ampla e genérica, por exemplo, pelo termo “doença”, o retorno é bem maior: 34 milhões; para “sintomas”, 26 milhões. Para a pesquisa por “sintoma”, há 25 milhões de sugestões.

É comum que estas buscas ocorram após exames clínicos periódicos. As consultas, nesse caso, tentam antecipar as conclusões que os pacientes ouvirão do médico. Eles querem logo saber se tudo está bem ou por que determinado exame está abaixo ou acima dos parâmetros recomendados.

A procura por detalhes sobre enfermidades não é novidade e vai além da internet. Quem nunca recebeu a ligação de um familiar ou amigo para checar se estava com alguma doença atire a primeira pedra. Da mesma forma, não são poucos os que nos consultam sobre enfermidades em uma festa ou no shopping.

Além dos sites pretensamente especializados, as pessoas também recorrem a aplicativos, nos quais leigos têm acesso a dados como sintomas e tratamentos para doenças.

Alguns desses apps, a propósito, são desenvolvidos por instituições de saúde altamente credenciadas e se propõem a auxiliar as pessoas em casos de atendimento domiciliar (por médicos), controle de vacinas, dietas, qualidade do sono e nível de açúcar no sangue, para citar apenas algumas funcionalidades.

Por mais que a abordagem da maioria dos sites seja superficial, não adianta simplesmente condenar essa invasão de área de competência. Neste mundo de redes sociais, os internautas compram, vendem, se informam, estudam, trabalham, namoram e se divertem na web. Logo, também procuram apoio quando têm sintomas de prováveis doenças.

Alguns pacientes avançam os limites e se julgam aptos a discutir o tratamento para seus males com base em informações genéricas, nem sempre obtidas em páginas com suporte científico.

Lembro que, no passado, se dizia que nós, brasileiros, éramos milhões de técnicos de futebol. Todos nos julgávamos capazes de escolher os melhores jogadores para a Seleção ou para nossos times. Nas décadas de 1980 e 1990, também nos considerávamos aptos a fazer propostas para acabar com a hiperinflação, embora não fôssemos economistas.

A diferença é que no futebol e na economia nossos palpites são apenas uma ilusão do domínio de atividades que, na verdade, exigem muito conhecimento e experiência. Na medicina, a interferência exagerada do paciente pode constranger os profissionais, que estudam longos anos para exercer uma atividade ligada à saúde e à vida.

Talvez a maioria das pessoas ainda desconheça que os médicos estão sempre participando de congressos, seminários, palestras e estudando trabalhos científicos para se atualizarem sobre os melhores tratamentos e tecnologias inovadoras em saúde.

Além disso, como resultados de exames devem ser considerados em conjunto, de acordo com o histórico do paciente, informações isoladas podem provocar pânico indesejável, desnecessário e injustificado.

Minha sugestão para os jovens médicos é que tenham paciência. Consultem a internet para se familiarizar com as dicas repassadas a seus pacientes. Dialoguem com eles. Transparência, informação, empatia e bom humor são coadjuvantes importantes de uma boa anamnese.

No passado, o médico era uma autoridade mais respeitada e acatada nas pequenas e grandes cidades do país: o que ele dizia era lei. Assim como ocorre com as operadoras de planos de saúde, também os profissionais da medicina são alvo de críticas e de contestações, e as pessoas tentam ser mais proativas em suas consultas.

O melhor antídoto contra essa situação é a confiança. Por isso, o ideal é que médicos e pacientes tenham relações duradouras para ampliar o respeito e o entendimento mútuo do seu histórico de saúde.

Não adianta reclamar do dr. Google. Temos de nos adaptar aos novos tempos, como os médicos sempre fizeram à medida que surgiam avanços tecnológicos, tratamentos inovadores ou simplesmente mudanças comportamentais.
 
 

* Médico, presidente da Central Nacional Unimed.

 

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O saneamento e a assistência à saúde
Qui, 15 de Fevereiro de 2018 10:55

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima

 

No Brasil, a análise das políticas públicas de saneamento mostra que mais de 100 milhões de brasileiros não contam com coleta ou tratamento de esgoto. Os números oficiais divulgados mais recentemente apontam que apenas 50,3% da população tem acesso a esse tipo de serviço e que metade utiliza medidas alternativas (nem sempre eficientes) para lidar com dejetos, o que inclui desde a construção de uma fossa até o despejo direto em rios e córregos.

Esses dados são provenientes de estudo apresentado pelo Instituto Trata Brasil, que organizou um ranking desses serviços a partir de informações oficiais. No momento em que o País combate a febre amarela, é peremptório falar de saneamento, pois as informações do próprio Governo confirmam a falta de ações permanentes para correção desse grande problema nacional, com graves consequências para a saúde, sobretudo daqueles com menor renda ou poder aquisitivo.

Desde a sanção da Lei do Saneamento Básico (nº 11.445), em 2007, o índice de cobertura nesta área aumentou 8,3 pontos percentuais em nível nacional, o que corresponde a menos de um ponto percentual por ano. O avanço pode ser considerado ainda muito pequeno, pois não foi suficiente para contribuir de modo efetivo com a diminuição da desigualdade social ou com soluções para os problemas mais comuns e decorrentes da ausência desse tipo de serviço.

É inegável a importância do saneamento básico para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Sua presença contribui para a melhoria dos indicadores epidemiológicos e ajuda na redução do número de casos de doenças infectocontagiosas. Levantamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que 65% das internações de crianças menores de 10 anos são causadas por doenças decorrentes da fragilidade ou da inexistência de redes de esgoto e água tratada.

A ausência desses serviços compromete ainda o desempenho escolar, com expectativa sombria sobre o futuro, sem melhores ofertas de emprego, trabalho e renda. No estudo do Instituto Trata Brasil ficou evidente que o rendimento médio dos que habitam em locais desprovidos de saneamento básico é em média 18% inferior em comparação com o dos moradores de áreas atendidas pela coleta de dejetos.

Afinal, a falta de saneamento é uma porta aberta para o aumento da incidência de doenças como diarreia, leptospirose ou dengue, conforme têm atestado a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O estudo do Instituto aponta também os 10 municípios do País com melhores e com piores desempenhos na oferta do acesso à agua e ao esgoto. Ao se verificar o perfil epidemiológico dessas localidades, percebe-se, por exemplo, que, no período de 2007 a 2015, os que apresentam performance mais negativa registraram 92.338 internações por diarreia contra 22.746 internações nas que têm destaque positivo.

Nos municípios que enfrentam maior precariedade, a taxa de internação média por diarreia foi de 190 casos para cada grupo de 100 mil habitantes. No extremo positivo, esse índice foi de 68,9. O mesmo comportamento se observa na avaliação dos dados epidemiológicos da dengue.

Entre 2007 e 2015, nos 10 municípios de pior desempenho, houve 145.690 pessoas com diagnóstico de dengue, ou seja, três vezes mais do que naqueles com melhor posição nesse ranking (42.977 casos). Situação semelhante ocorre no que se refere ao total de internações (19.102 contra 4.728) e de óbitos por complicações geradas por conta dessa doença (149 contra 33 casos).

Lamentável conviver com a realidade expressa por esses números após uma década da entrada em vigor da Lei do Saneamento Básico, que prevê a universalização dos serviços de abastecimento de água e de tratamento da rede de esgoto no País.

Trata-se de uma meta nobre e imperativa para diminuição das desigualdades sociais e para estímulo ao desenvolvimento sustentável, o que exige medidas competentes das três esferas de gestão. A norma definiu, inclusive, as competências do Governo Federal, dos estados e dos municípios neste quesito.

Contudo, a distância entre o ideal e o real é enorme, o que exige um esforço coletivo para superá-la.

Assim, a falta da promoção de mudanças radicais nos investimentos em obras de saneamento por parte dos gestores implica em riscos e perigos para os brasileiros, como o Aedes aegypti, responsável pela transmissão da dengue, zika e chikungunya, que continuam presentes no cotidiano da sociedade brasileira, especialmente no meio em que vive a imensa e maior parte do nosso povo carente e totalmente dependente das responsabilidades governamentais.

 

 

Palavra do Presidente publicada na edição nº 275 do jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 
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