Rede dos Conselhos de Medicina
Selecione o Conselho que deseja acessar:
Artigos
Medicina Fetal, mais uma porta para a vida
Seg, 15 de Maio de 2017 10:54

Américo Tângari Júnior*


O motorista começa a sentir um desconforto no meio do trânsito. De repente, o coração acelera e, além da taquicardia, sobrevém o suor e o mal-estar – uma sensação incomum para quem nunca se queixou de nada no coração. Mas é preciso agir rápido, pedir ajuda a outros motoristas ao redor, ligar para algum parente ou acionar um aplicativo de emergência pelo celular. Pode ser o início da manifestação de alguma doença cardíaca, da ele qual nunca suspeitou. Mas agora ela se revela, e a situação pode se agravar caso esse motorista não seja atendido no hospital mais próximo.

Pode ser um sopro no coração ou outra deformação; bem leves na infância e não detectadas na época por exames normais do pré ou pós-natal, mas que se desenvolveram ao longo do tempo por uma série de fatores e que agora exigem tratamento. Para se prevenir desse susto, as pessoas devem manter sempre em boa forma essa bomba no peito que faz circular a vida pelo corpo. Convém procurar um cardiologista e providenciar todos os exames indicados para certificar-se de que não é portador de nenhuma dessas doenças ocultas, herança genética ou não.

Na verdade, muitas pessoas nem precisariam se preocupar com as doenças ocultas caso estas fossem corrigidas ainda antes do nascimento. Com a evolução da medicina e a sofisticação de exames como o ecocardiograma fetal e a ultrassonografia, deformações podem ser diagnosticadas ainda no útero. Graças a isso, hoje são salvos muitos bebês que poderiam partir antes ou logo depois do nascimento.

Pelos batimentos cardíacos ou pela respiração, os médicos podem fazer uma criteriosa avaliação da saúde do feto – uma análise delicada, aos cuidados do radiologista, do especialista em medicina fetal, do cardiologista fetal, do intervencionista, do pediatra e do anestesista.

Esses procedimentos em geral são muito seguros para a mãe, com riscos extremamente limitados. Porém, podem desencadear trabalho de parto prematuro ou até mesmo levar ao óbito fetal, o que é pouco frequente. Por isso, a indicação deve ser discutida em detalhes com o cardiologista fetal.

As cirurgias não são curativas, mas partes de um planejamento de recuperação de ventrículos e de um preparo da circulação para a vida pós-natal. Dependendo da patologia, o recém-nascido será submetido a uma programação terapêutica que pode constar de cateterismo cardíaco e/ou cirurgia cardíaca.

O sopro no coração, em princípio, não se enquadra entre as doenças mais perigosas para o feto. É um ruído produzido pela passagem do fluxo de sangue por meio das estruturas do órgão. Pode ser funcional ou fisiológico – sopro inocente –, ou patológico, em decorrência de defeitos no coração. Cerca de 40% a 50% das crianças saudáveis apresentam sopros inocentes sem nenhuma outra alteração, tendo desenvolvimento físico absolutamente normal.

Nos adultos, predominam os sopros que aparecem como complicações de cardiopatias provocadas pela febre reumática ocorrida na infância, doença que também pode afetar o sistema nervoso central e o sistema osteoarticular.

As intervenções mais comuns no útero são:

- Valvoplastia aórtica fetal: é realizada para dilatar a valva aórtica do bebê – aquela que leva sangue do lado esquerdo do coração para todo o corpo –, que se encontra muito apertada e impede a passagem normal do sangue. É o que se chama de estenose aórtica crítica, anomalia que provoca consequências graves no coração fetal e pode levar a um quadro grave de hidropsia fetal – insuficiência cardíaca com inchaço generalizado do feto – e também a óbito.

- Valvoplastia pulmonar fetal: é a abertura da valva pulmonar – a que sai do ventrículo direito e leva sangue para o pulmão – com o emprego do balão. Quando a valva pulmonar está muito fechada, o ventrículo direito tende a parar de crescer. A valva tricúspide muitas vezes apresenta insuficiência, ou seja, deixa voltar sangue do ventrículo direito para o átrio direito, o que pode complicar a circulação fetal e levar a insuficiência cardíaca. Com a cirurgia, o ventrículo direito se desenvolve normalmente ao longo da gestação e resulta em uma circulação pós-natal com dois ventrículos, o que melhora muito o prognóstico da doença.

- Atriosseptostomia: é um procedimento menos comum, realizado em casos bastante selecionados de síndrome de hipoplasia do coração já instalada. Se persistir na vida intrauterina, a anormalidade impede que o sangue oxigenado atinja o lado direito no coração depois do nascimento, com o paciente apresentando taxas muito baixas de oxigênio no sangue, o que é incompatível com a vida.

São muitas as opções para salvar vidas, além das cirurgias cardíacas fetais. É possível a correção, por exemplo, de uma doença chamada mielomeningocele, uma má-formação na coluna dos bebês, que pode deixar como sequela a hidrocefalia – o acúmulo de água no cérebro, que causa distúrbios mentais e motores. Doenças pulmonares também já podem ser tratadas ainda no útero.

Algumas alterações ocultas, sem sopros, podem persistir nos adultos, passando despercebidas, como as comunicações entre os átrios (CIA) e entre os ventrículos (CIV).
Como se vê, a medicina continua a evoluir para cumprir sua missão de salvar vidas e de proporcionar uma existência mais confortável, sem maiores sobressaltos. E se a prevenção é fundamental no útero, imagine na idade adulta.

 

* Cardiologista do Hospital Beneficência Portuguesa.

 
    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
O estudo e a defesa da ética médica se fazem urgentes
Sex, 28 de Abril de 2017 12:23

Sidnei Ferreira*

 

Em 2011, escrevi o artigo “A sociedade brasileira tem um novo Código de Ética Médica”. Referia-se ao código atual, concluído em 2009 e em vigor desde 2010. Estamos agora fazendo sua revisão. Todos os médicos regularmente inscritos nos CRMs poderão apresentar sugestões. Essa revisão se faz necessária para acompanhar o progresso da ciência em geral e da medicina em particular e as mudanças sociais e culturais das sociedades brasileira e mundial, que sucedem velozmente.

Não são muitos os ofícios que têm código de ética e com importância e influência sobre a profissão, como o nosso. O CEM é uma diretriz obrigatória a ser seguida, protegendo o bom médico e a sociedade contra dificuldades que podem ocorrer, fruto, por exemplo, de quebra da relação médico-paciente-família, de capacitação inadequada, de desconhecimento do Código ou, por uma minoria de médicos, de má conduta.

Por outro lado, poucas escolas médicas se preocupam em incluir na grade curricular o estudo da ética médica e do CEM. Assim tem sido, também, na residência médica. Pela relevância, deveria ser disciplina obrigatória e estar presente durante toda a graduação e a pós-graduação. Sua implementação se faz urgente.

A abertura indiscriminada de escolas médicas, somada à qualidade ruim do ensino, vínculos trabalhistas precários, péssimas condições de trabalho e salários incompatíveis com a responsabilidade e conhecimentos técnico-científicos exigidos em nossa labuta diária, frutos da má gestão, incompetência e desídia dos gestores dos três níveis de governo, além da corrupção, influenciam negativamente as estatísticas de denúncias e processos ético-profissionais.

Em novembro, em audiência com o Ministro da Saúde na qual era solicitada intervenção do Governo Federal no estado do Rio de Janeiro, recebemos, além da negativa de intervenção ou de qualquer ajuda, a proposta para mudar a resolução do CFM sobre telemedicina, retirando a obrigatoriedade de médico “nas duas pontas”, o que “geraria uma boa economia para o governo”. Na semana seguinte, em reunião em Brasília entre representantes da saúde do Distrito Federal, foi sugerida a flexibilização de pelo menos uma resolução do CFM, a que define o dimensionamento da equipe médica nas urgências e emergências. “O governo do DF não pode contratar, pois ultrapassaria os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e, além disso, não dispõe de dinheiro para aplicar na saúde”. Essas pressões, apesar de extravagantes, não são novidades e se avolumam proporcionalmente às irresponsabilidades dos governantes.

Emenda-se a toda hora a Constituição, mudam-se leis e publicam-se medidas provisórias por motivos muitas vezes inconfessáveis, como para favorecer e proteger corruptos, políticos ou não, aumentando as desigualdades e piorando as condições já precárias de atendimento à população.

A solução não é, certamente, rasgar o CEM e as resoluções do CFM e CRMs, colocando em risco a integridade física, emocional e profissional do paciente e do médico. Quem perdoaria um médico que, sozinho no plantão, com quase uma centena e meia de atendimentos/dia e dezenas de pacientes internados, deixasse de rever um dos pacientes em estado grave por algumas horas, resultando em óbito?

Proteger a ética médica se faz urgente, pois as éticas política e empresarial já terminaram faz tempo.

 

* É 2º secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
O desemprego no Brasil e suas repercussões
Sex, 28 de Abril de 2017 10:15

Herbert Marçal*

 

No Brasil, nunca as taxas de desemprego atingiram níveis tão altos, ameaçando o equilíbrio econômico, social e emocional das pessoas afetadas por ele. Grande parte da população já conhece o impacto social e econômico que o desemprego provoca. O índice de desocupação no Brasil ficou em 9,5% no trimestre fechado em janeiro de 2016, considerando os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) – seu resultado é o maior da série, iniciada em 2012. O Brasil apontou recentemente um número recorde de desempregados avaliado pela mesma pesquisa: 9,623 milhões de pessoas. A quantidade de pessoas desocupadas elevou 42,3% na comparação com o trimestre (novembro, dezembro e janeiro), e seu produto equivale a mais de 2,86 milhões de indivíduos desempregados. No mesmo período do ano passado, a taxa de desemprego medida pela PNAD contínua estava em 6,8%. A taxa no trimestre final do ano de 2015 estava em 9%.

Como produto social, o desemprego gera exclusão social. O sucateamento do indivíduo desempregado quase sempre é inevitável. Com a falta do emprego, ocorre desordem social e econômica. O indivíduo, no primeiro momento, sofre o impacto da perda e tenta resistir procurando alternativas, mas logo passa a sentir-se impotente, presumindo que perdeu o comando sobre sua vida e seu futuro, que abortou a condição de tomar suas próprias decisões. O desamparo é notório, e a fragilidade e a impotência diante desse fantasma também. Em seguida, ele se afasta do grupo em que antes se sentia estabelecido, e muitas vezes a convivência familiar se torna mais árdua. Ainda no âmbito familiar, o desemprego desorganiza a família, sendo, por conta da vulnerabilidade, as crianças as principais vítimas dessa situação. Por ser o grupo mais próximo, a família passa a ser a detentora das agressões mais diretas desse indivíduo que, nesse momento, sente-se sem perspectiva e alternativas de vida.

Devemos, no entanto, estar preparados para constatar que o desemprego tem importância para o estudo das fontes de violência, alcoolismo e criminalidade. Quanto à parte emocional e psíquica, o desemprego agrega também alterações do afeto, do humor, da memória e da atenção, com consequências às vezes graves, como episódios depressivos recorrentes que condicionam a rotina de quem sempre viveu do trabalho. Assim se vai aclarando aos nossos olhos que, mais do que um problema meramente econômico, que tem sua origem no panorama político do país, o desemprego elevado é um problema psicológico e social. Governos que elaboram discursos de ataque para a defesa, com objetivo único de mascarar o desemprego, com retóricas obscuras, dubitativas e ambíguas, com certeza sabem aonde querem chegar, têm uma malfadada consciência do assunto e lutam para formular o pensamento doutrinário segundo o qual o país é do trabalhador. No entanto, com frequência esses governantes querem esconder de si mesmos e dos outros o fato de que, na verdade, não têm nada a dizer e, tampouco, a fazer. Em outras palavras, é fundamental que a análise e a avaliação do desemprego ultrapassem a hipocrisia política e a lógica puramente econômica, envolvendo também a própria ameaça ao aparelho psíquico que dada situação acarreta sobre o desempregado.

 

* Herberth Marçal é médico perito da Justiça Federal de Belo Horizonte (MG).

 
    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Violência contra o obstetra
Qui, 20 de Abril de 2017 11:15

Henrique Ajudarte Pinheiro dos Santos Nassif*


Muito se tem veiculado acerca da “violência obstétrica”, com relatos contundentes sobre a ocorrência de fatos gravosos contra mulheres indefesas em um período delicado e belo de suas vidas. Existem até cartilhas definindo o que seria violência “obstétrica”. Juro que não costumo diferenciar a violência em sua origem; em geral, define-se apenas o destinatário ou o local da ação danosa ou prejudicial: violência contra a mulher, violência contra a criança, entre outras.

Porém, o que é violência? Seria apenas a do obstetra? Ou de toda a equipe? Quando? Como? Essa estigmatização pode criar uma barreira entre o médico e a mulher que recebe os cuidados para o parto. Já existiria um rótulo sendo criado de que a assistência ao parto por médicos e/ou enfermeiros em um ambiente hospitalar seria danosa à mãe e ao filho. Nada mais enganoso e até, de certa forma, pernicioso.

Apesar do crescente número de cesáreas em todo o mundo, a mortalidade materna despencou nas últimas décadas. Será que não há uma contradição quando questionamos os altos índices de cesarianas por país? Se tivéssemos apenas partos normais, teríamos altos índices de mortalidade materna ou eles seriam ainda mais baixos que os atuais? Essas são perguntas para os membros da Academia.

A obstetrícia evoluiu a passos largos – como toda ciência –, e a mortalidade perinatal e materna só tem decaído. Nesse aspecto, podemos fazer um paralelo com a instituição da lavagem das mãos nos procedimentos médicos.

Até o século XIX, era lugar-comum um obstetra sair de um procedimento e adentrar outro(s) sem a mínima antissepsia – a lavagem das mãos –, o que ocasionava a morte de muitas pessoas por infecção (sepse, entre outras).

Ocorre que um ousado médico obstetra – Ignaz Philipp Semmelweis – observou que as mortes maternas eram muito maiores na clínica obstétrica onde atuava do que entre as parteiras. Percebeu, então, que os médicos não realizavam a lavagem das mãos antes dos procedimentos: necropsiavam as pacientes mortas e, logo em seguida, atendiam outras, sem assepsia alguma.

Por que discorro acerca de assepsia em obstetrícia num texto crítico à violência supostamente obstétrica? Porque o que Semmelweis fez foi ciência de fato. Ora, não importou a ele se eram as parteiras que obtinham índices de mortalidade muito inferiores aos da clínica obstétrica, ou se eram os médicos os campeões da mortalidade. A maneira com que tratou os dados que chegaram a ele é que foi meritório, sendo Semmelweis reconhecido apenas depois de sua morte.

A ciência deve ser apartidária, acategórica e multidisciplinar – e multiprofissional. Quando criamos premissas baseadas em rótulos preconceituosos e pejorativos, não chegamos a conclusões verdadeiras e coerentes, nem tampouco temos uma visão ampla de um todo que poderia nos fornecer pistas sobre algo que poderia nos enriquecer e nos enobrecer.

Portanto, ciência se faz é com métodos, com dados, com pesquisa e com muito esforço, não com bravatas e chavões de cunho emocional, que apenas estigmatizam uma classe e/ou uma categoria de indivíduos.

 

* É médico perito da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão de Minas Gerais (Seplag/MG), perito médico previdenciário do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), pediatra e jornalista. CRM 56.277 MG.


 
    

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
Saúde e o Índice de Desenvolvimento Humano
Seg, 17 de Abril de 2017 11:02

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima*

 

Antes de qualquer conjectura sobre saúde e desenvolvimento é relevante, a uma melhor compreensão da matéria em pauta de análise, lembrar uma incontroversa verdade, intrínseca à condição humana e expressa de forma simbólica ou emblemática na antiga máxima popular brasileira: “saúde é o que interessa e o resto não tem pressa!”.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), utilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), é um parâmetro de bem-estar das populações de 188 países. Obtido mediante cálculos que levam em consideração fatores como expectativa de anos de vida, anos de estudos educacionais e renda nacional bruta per capita, em uma escala numérica na qual a nação com pontuação mais próxima de 1 tem o melhor desempenho.

No período de avaliação do IDH durante o ano de 2016, divulgado em março de 2017, a Noruega apareceu no topo do ranking com um índice de 0,949, a Austrália e a Suíça empataram em segundo lugar com um índice de 0,939, e o pior resultado foi atribuído à República Centro- -Africana, com IDH de 0,352.

Na América Latina, o Chile com índice de 0,847 e a Argentina com índice de 0,827 ocuparam, respectivamente, a 38ª e a 45ª posições. O Brasil, apesar de discreto avanço na expectativa do tempo médio de vida (74,5 para 74,7 anos) e de quase imperceptível aumento nos anos de processo educacional (7,7 para 7,8 anos), registrou uma queda relativamente acentuada na renda bruta per capita anual, que decaiu de US$ 14.858 para US$ 14.145.

Em decorrência dessa perda, o País arcou com prejuízos nos esforços envidados para redução da desigualdade social, não conseguiu alcançar os êxitos da Albânia, Geórgia e Azerbaijão, ficando com IDH de 0,754, na 79ª posição do ranking.

As melhores expectativas de anos de vida foram observadas nos países desenvolvidos que têm sistema único de saúde, o que fez surgir na esteira das especulações capitalistas, industriais e mercantis de produtos e prestações de serviços, uma polêmica desprovida de razão: a saúde é a base do desenvolvimento ou o desenvolvimento é o lastro da saúde?

Trata-se de uma pseudopolêmica! Sem saúde não há consistência ou progresso no labor ou na educação! Portanto, é óbvio o entendimento de que saúde é a pedra angular do desenvolvimento, que contribui decisivamente na sua promoção e manutenção.
De fato, os conceitos de desenvolvimento humano devem ter alicerce em preceitos determinados pelos legítimos anseios existenciais, seculares e universais da humanidade, presentes na sua evolução histórica e filosófica, na qual despontam a conquista e a preservação da saúde, indissociável da vida, como natural e maior desejo individual e coletivo.

A nossa Carta Magna de 1988, ao inserir em seus mandamentos a saúde como direito fundamental, instituindo a sua efetivação como dever do Estado, acolheu o eterno e principal pleito humanístico, de um comportamento humanitário, salutar e corretivo das desigualdades sociais pelo exercício da solidariedade.

Apesar do destaque à saúde como fator de desenvolvimento, no atual estágio de recessão da Nação, em consequência de graves crises políticas e administrativas, o combate às nossas desigualdades sociais exige o reequilíbrio das contas públicas e a retomada do crescimento econômico. No início dessas árduas tarefas, o Governo Federal precisa atingir a meta fiscal para o ano de 2017, recuperar o déficit de R$ 139 bilhões e com este objetivo cortar mais gastos estatais em setores públicos e privados, suspendendo as desonerações concedidas, sem lucidez, pelo governo anterior. Porém, de acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil, entre os países que têm sistema único de saúde, é aquele com menor participação do Estado no gasto sanitário total (48,2%).

Assim, no contexto de cumprimento das metas fiscais e de garantia da confiança do mercado, são inaceitáveis mais restrições orçamentárias à saúde pública, o que sem dúvidas configuraria uma situação de mistanásia, ou seja, da morte evitável de milhares de brasileiros por omissão governamental.

Condutas omissivas e que possam vir a ser responsáveis por danos irremediáveis a bens de caráter absoluto são intoleráveis e paradoxais à lei, à ética, à moral e à voz do povo, recepcionada na Carta Magna do País: “saúde é o que interessa e o resto não tem pressa!”.

 

* É presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Palavra do Presidente publicada na edição nº 264 do Jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 
<< Início < Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo > Fim >>

Página 4 de 162
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner

© PORTAL MÉDICO 2010 - o site do Conselho Federal de Medicina -Todos os direitos reservados
SGAS 915 Lote 72 | CEP: 70390-150 | Brasí­lia-DF | FONE: (61) 3445 5900 | FAX: (61) 3346 0231| E-mail: cfm@portalmedico.org.br