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Artigos
A medicina no esporte
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Aguiar Farina*


Muitos atletas são considerados celebridades e sua saúde é notícia constante nos meios de comunicação. Entretanto, até março não havia nenhuma regulamentação sobre a prestação de serviços médicos nas instituições a que esses atletas são vinculados. Outra deficiência era o socorro em casos de acidentes ou mal-estar durante as competições, como o que aconteceu durante uma prova de MotoCross em Primavera do Leste ou quando um jogador morreu subitamente durante uma partida de futebol.

O Conselho Federal de Medicina aprovou a Resolução 1833/2008 que regulamenta a organização de serviços médicos em instituições de prática desportiva para competições oficiais. Essa medida tem como principal objetivo garantir a integridade da saúde dos atletas, seja na sua manutenção ou prevenção. A partir de agora, instituições que se destinem à prática desportiva para competições oficiais, como clubes ou associações de futebol, natação, automobilismo ou qualquer outra modalidade, devem ter um departamento de serviço médico sob a responsabilidade de um profissional inscrito no CRM da região onde a instituição se localize.

Cabe ao médico o acompanhamento de cada atleta, que deve ser organizado em prontuários de forma confidencial e com informações de todos os procedimentos referentes a sua saúde.

Sem a autorização expressa e por escrito, é vedado ao médico a revelação do diagnóstico ou tratamento de doença do esportista. O profissional deve limitar sua comunicação à comissão técnica da instituição quanto à aptidão ou inaptidão do atleta para a prática esportiva, bem como o tempo estimado para sua recuperação e retorno à atividade. Esta comunicação deve ser feita por escrito e com cópia anexada ao prontuário médico do atleta.

O serviço médico da instituição deve ainda elaborar plano de avaliação periódica dos atletas com vistas a um seguimento de desempenho na atividade. Entre as atribuições está a orientação aos atletas sobre substâncias que contenham ingredientes considerados como "doping".

A resolução também prevê que a comunicação do médico sobre a aptidão ou inaptidão do atleta para a prática esportiva e o tempo necessário para a recuperação e retorno à atividade se limite à comissão técnica da instituição.

Essa iniciativa também promove a especialidade de medicina esportiva, responsável pela avaliação funcional das práticas desportivas, diagnóstico, tratamento e reabilitação das lesões e doenças relacionadas com atividades físicas.

 

*Aguiar Farina é médico ginecologista e mastologista, presidente do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT).* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.


 
O SUS que queremos
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Marco Antônio Becker*


Criada a universalidade do atendimento à saúde pela Constituição Federal de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS) é formado hoje por mais de 6,7 mil hospitais, quase 370 mil leitos e aproximadamente 11 mil postos de saúde. Um aparato gigantesco que se propõe a prestar atendimento integral, um objetivo que sempre esteve longe de ser alcançado.

Nesses 20 anos, o SUS atendeu milhões de pessoas. Muitas vidas foram salvas. Mas a cada ano aumenta o martírio dos usuários, em grande parte gente pobre que não tem acesso a um plano privado de saúde. Na maioria das vezes, o paciente enfrenta um longo calvário até ser atendido por um médico especialista, fazer algum exame ou ser submetido a um procedimento cirúrgico.

Enfim, um sistema perfeito na teoria, mas que na prática se revela insuficiente. O SUS só se mantém graças ao trabalho abnegado de médicos e profissionais da saúde. Um sistema que remunera a consulta médica com valor equivalente ao de um sanduíche de má qualidade e que, muitas vezes, não proporciona as mínimas condições de trabalho aos profissionais. Ao mesmo tempo, hospitais arcam com prejuízos incalculáveis.

Não é o prefeito, nem o governador, nem o ministro, muito menos o presidente da República, que está diante do paciente, mas sim o médico, usado como pára-choque do sistema.

O Brasil é um dos países que menos investem em saúde pública, superado pela maioria dos países latino-americanos. No entanto, a arrecadação da União bate recordes a cada mês.

Na área econômica do governo, a palavra "saúde" é associada a "problema", e não ao entendimento correto de que aplicar dinheiro em saúde não é despesa, e sim investimento. Cada centavo destinado ao setor, em especial a ações preventivas, além de salvar vidas resulta em economia, pois cidadão doente não produz, além de onerar a Previdência Social.

Para evitar que o quadro se agrave, o movimento "Mais Saúde para o SUS" promove no dia 30 de maio, no Largo Glênio Peres, uma grande manifestação em defesa da saúde pública.

É um movimento que reúne toda a sociedade na defesa do SUS que queremos, e não este SUS subfinanciado e precariamente gerido que querem nos impor.


*Marco Antônio Becker é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers).

 


* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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Reflexões sobre a vida humana
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Pedro Pablo Chacel*


Atualmente diversos grupos discutem quando se inicia e quando termina a vida humana, com intuito de permitir ou não permitir a prática do aborto, o uso médico e em pesquisa de células-tronco embrionárias e a ortotanásia.

Os grupos religiosos de uma maneira geral acreditam que a vida se inicia com a fecundação; grupos contrários, na maioria favoráveis à legalização do aborto, entendem que a vida se inicia na implantação; outros entendem que esta se inicia com o surgimento da atividade celular neuronal.

Entendo que a vida pode ser dividida em três partes, a saber, o passado que já acabou, o presente, sempre em extinção, e o futuro que é obviamente uma expectativa.

Vejo o espermatozóide da espécie como um ser vivo de natureza humana. Em uma ejaculação são liberados em média 200 milhões, que tem uma vida média de 36 horas e morrerão de causas naturais nesse período.

O óvulo é um ser vivo, também de natureza humana, hibernado no ovário, em um número de 400.000. Durante o período fértil da vida, ou seja dos 15 aos 49 anos, poderá ser liberado um na trompa, em média, mensalmente, ou seja, um total de 408; admitindo a ovulação em todos os meses, portanto um em cada mil, sendo que estes outros jamais serão fecundados e jamais se desenvolverão. Uma vez ocorrida a ovulação este óvulo tem uma expectativa de vida de 48 horas, após o que morrerá de causas naturais. Cada gestação que progrida ao termo impedirá nova ovulação durante a mesma e mais 3 meses em média, ou seja, um ano ou 12 possibilidades de fecundação.

Em dois dias no mês, há a possibilidade do encontro e da fertilização de 1 entre 200 milhões de espermatozóides com 1 entre 400.000 óvulos. Este novo ser – pré-embrião, terá uma vida em torno de 4 dias, podendo ocorrer a morte por causas naturais, a recoleção do mesmo para nova hibernação, ou a implantação. Ocorrida esta, surgem condições ambientais, endócrinas e respiratórias que poderão promover o desenvolvimento deste ser até que, por ocasião do nascimento, adquira este uma condição de vida autônoma, claro dependente ainda de cuidados externos até uma independência plena. Torna-se uma pessoa e passa a ter uma expectativa de vida de várias décadas.

Parece-me que o mais importante é a expectativa de vida e não o início dela, afinal cada indivíduo é constituído de um grande número de células, que em sua maioria morrem e se renovam ao longo da vida. Todas exerceram uma função o que não deixa de ser uma forma de inteligência. Somos todos, um permanente renascer.

Teremos nós, seres humanos, o direito de impedir a expectativa de vida? Creio que não.

Não temos, no entanto, como impedir que ocorra a morte de um ser vivo, seja espermatozóide, óvulo, pré-embrião ou embrião por causas naturais, em um processo de seleção natural.

Um pré-embrião hibernado em um recipiente para vir a se tornar uma pessoa depende de uma atitude pró-ativa que faça com que alguém o retire do recipiente e o coloque em condições de implantação, que ocorrerá ou não, em um útero, que propiciará ou não seu desenvolvimento até tornar-se uma pessoa. Na grande maioria das vezes isto jamais ocorrerá. É remota a expectativa de vida humana plena, isto é, com um futuro, para este pré-embrião. A pergunta que fica é se estamos tirando a expectativa de um ser que poderá ainda que dificilmente, ser utilizado para uma possível implantação, retirado aleatoriamente de um grupo onde certamente isto não acontecerá. Dentro de uma visão criacionista, inserida no preâmbulo de nossa Constituição, Deus é o criador de todos os seres e todas as coisas; assim é lícito aceitar a seleção natural como de sua criação.

Qual será a diferença entre uma seleção natural espontânea e a produzida pela escolha, ao acaso, de um pré-embrião hibernado para a recoleção de células tronco?

No caso de um indivíduo em vida artificial, sem atividade cerebral, apenas com funções decorrentes de atividade de tronco cerebral, com o coração batendo e ventilado por um sistema mecânico, a suspensão do suporte ventilatório estará influindo em sua vida, já que não há expectativa?


*Pedro Pablo Chacel é ginecologista e corregedor do Conselho Federal de Medicina (CFM).


* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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SOS saúde
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Rafael Guerra*


O Brasil oferece uma saúde pobre aos pobres. Em vez de políticas estruturantes, são ofertados paliativos para calar os mais humildes


Pesquisas de opinião revelam que a saúde é o principal problema que aflige a população brasileira. As endemias de Terceiro Mundo que assolam o país (hanseníase, tuberculose, malária, leishmaniose, febre amarela, doença de Chagas), as epidemias que teimam em não arrefecer, como a dengue, a deficiência crônica de leitos hospitalares, leitos de terapia intensiva, equipamentos para prevenção e diagnóstico precoce do câncer e outras doenças preveníveis e/ou controláveis e as filas de espera para tratamentos urgentes, transplantes e serviços de urgência/ emergência são reflexo da falta de respeito à dignidade e aos direitos individuais.

O Brasil oferece uma saúde pobre para os pobres. Em vez de políticas estruturantes que garantam a cidadania, são ofertados paliativos para calar os mais humildes.

A classe média é forçada a se escorar na saúde suplementar, custeada com muito sacrifício, enquanto aos mais pobres se oferece uma saúde nos moldes do Bolsa Família, assistencialista, paliativa, para calar as consciências de pessoas que se contentam com muito pouco, não são cidadãos.

A saúde não é prioridade política. Não é possível estudar sem saúde, trabalhar sem saúde, viver sem saúde; no entanto, no Brasil, educação é investimento, geração de emprego é investimento, mas saúde é considerada gasto.

Um pacote de incentivo à indústria e à exportação, de R$ 21 bilhões, é investimento, assim como a desoneração da Cide dos combustíveis, de R$ 3 bilhões, o reajuste dos vencimentos de funcionários civis e militares, que irá custar R$ 10 bilhões, e um extemporâneo fundo soberano para financiar investimentos em infra-estrutura em outros países (não no Brasil?), para agradar o empresariado nacional que quer investir no exterior em tempos de real apreciado.

Enquanto isso, a saúde de 140 milhões de brasileiros -que dependem do SUS- fica para depois.

O Brasil, entre os países emergentes e as nações da América Latina, é um dos que menos investem em saúde. Para um gasto total de US$ 600 per capita/ano, apenas US$ 300 per capita/ano vêm do setor público.

Destes, apenas US$ 150 são investimento federal, ou seja, US$ 0,40/dia por cidadão brasileiro, para fazer promoção de saúde, prevenção, tratamento, recuperação e reabilitação de doenças (fonte: MS - Siops, IBGE -POF, dados de 2007).Em relação ao percentual do PIB, novamente o Brasil fica nos últimos lugares: a aplicação em saúde fica em 7% do PIB, sendo o gasto público somente 3,5% do PIB, e o gasto federal, irrisórios 1,8% do PIB. Enquanto isso, os Estados Unidos aplicam 15,4% do PIB, ou US$ 6.000 per capita; o Canadá, 9,8%, ou US$ 3.000 per capita; a Argentina, 9,6%, ou US$ 383 per capita; o Uruguai, 8,2%, ou US$ 315 per capita (fonte: WHO - World Health Statistics - 2007).

Com esse percentual de participação pública no financiamento, acentua-se ainda mais a desigualdade social, pois 3,5% do PIB são gastos na saúde de 140 milhões de brasileiros, e os outros 3,5% ficam para os privilegiados que têm acesso à saúde suplementar e/ou privada (45 milhões). No momento em que se propõe a regulamentação da emenda constitucional nº 29, que traz no seu bojo um aumento de 50% no gasto federal em saúde no decorrer dos próximos quatro anos, surgem ameaças de veto presidencial caso não se providencie paralelamente a criação de novas fontes de recursos, com o conseqüente aumento da carga tributária. E, aí, surgem os maiores absurdos: imposto para a saúde oriundo da legalização do jogo ou aumento de impostos sobre cigarros e bebidas. Isto é, para termos mais saúde para os brasileiros, teríamos que financiá-la por meio do estímulo ao vício e aos viciados...

Outro absurdo é a ressurreição CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), com o argumento de que, sendo para a saúde, o povo aceitaria...

Por que não se fala em ressuscitar a CPMF para o fundo soberano investir no exterior ou para o pacote de incentivo à produção e à exportação?

A resposta é clara: é que, aos olhos do governo federal, essas são ações prioritárias, enquanto a saúde não é prioridade política.

Vamos tirar a máscara daqueles que se arvoram em defensores do social e dos pobres.

Não à ressurreição da CPMF e ao aumento da carga tributária. Sim à regulamentação da emenda 29, em defesa da saúde digna e de qualidade para todos os brasileiros.

 

*Rafael Guerra, médico cirurgião, é deputado federal (PSDB-MG) e presidente da Frente Parlamentar da Saúde.


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Manifestação pelo SUS: um exemplo a ser seguido
Seg, 29 de Novembro de 1999 00:00

Escrito por Marco Antônio Becker*


A grande manifestação realizada no Largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre, no dia 30 de maio, é um marco em termos de mobilização por melhorias no Sistema Único de Saúde, uma conquista da população brasileira que precisa ser preservada e aperfeiçoada. Que ninguém espere, contudo, por resultados objetivos e concretos em curto prazo.

Os caminhos que levam a conseguir progressos na área da saúde são tortuosos. Mas que fique muito claro que sem mobilização das entidades do setor saúde e participação popular, tudo fica muito mais difícil, nada será alcançado sem união e muita luta.

E disposição para lutar é o que não falta à atual diretoria do Cremers.

Pelo contrário, como prova o evento idealizado pelo Cremers e organizado pelo Movimento Mais Saúde para o SUS, integrado também pelo Simers, Amrigs e demais entidades da área da saúde, unindo hospitais e todos os profissionais que lutam diariamente em defesa da vida, além de entidades como a Ajuris, OAB/RS e demais conselhos de classe.

Foi plantada uma semente, que deverá germinar e crescer, espalhando-se por todo o país. O Rio Grande do Sul mais uma vez é pioneiro. “Um movimento como esse só poderia partir dos gaúchos”, ouvi de uma liderança médica nacional, logo após o evento. “Talvez vocês ainda não tenham consciência da grandeza e da importância desse ato”, acrescentou o colega.

Fiquei orgulhoso, por mim e por todos os que participaram desse movimento, que há de crescer para o bem de 140 milhões de brasileiros que dependem do SUS.

Centenas deles, gente humilde que não dispõe de recursos para manter um plano privado de saúde, estavam na praça. Muitos se aproximaram para nos cumprimentar e agradecer pela iniciativa. Ouvi relatos dramáticos de pessoas que esperam há meses por consultas, exames ou cirurgias. Pessoas que se sentiram confortadas e esperançadas com o nosso movimento. Estava cansado, mas aquelas manifestações espontâneas me revigoraram.

Conversei também com muitos médicos, a maioria deles jovens que integravam as inúmeras delegações de trabalhadores da saúde que vieram de dezenas de municípios do Estado. O SUS, com um plano de carreira que valorize o médico e que ofereça condições adequadas de trabalho, poderá abrigar milhares de jovens colegas que ingressam no mercado.

Nós temos um compromisso com o presente e com o futuro da saúde e, especificamente, com o trabalho médico. Por isso, continuaremos atuando firme em muitas frentes, como a luta que travamos há anos contra a abertura indiscriminada de faculdades de medicina. O atual grupo diretivo do Cremers foi o único no país a conseguir, até hoje, o fechamento de duas faculdades, em Ijuí e Cruz Alta.

Coragem para enfrentamentos não nos falta. Pode¬mos pecar pelo excesso na defesa da saúde e do exercício ético da medicina, nunca pela omissão ou pela tibieza diante dos obstáculos.


*Marco Antônio Becker é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers).


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