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A ética no reconhecimento
Sex, 17 de Março de 2017 11:01

José Hiran da Silva Gallo*

 

Todos os anos, assiste-se a uma profusão de homenagens a artistas, militares, políticos, empresários, estudantes, trabalhadores, donas de casa e esportistas, entre outras categorias. São homens e mulheres agraciados com esse tipo de reconhecimento por conta de uma série de ações que transformaram vidas, deram novo sentido ao ato de fazer bem ao próximo e desbravaram as fronteiras da arte e da ciência. Na maioria das vezes, essas honrarias não se limitam apenas a elogios públicos, mas incluem, também, entrega de placas, diplomas, medalhas e comendas.

Em síntese, essas condecorações são formas de homenagem concedidas por órgãos públicos a pessoas ou instituições que se destacaram em suas áreas de atuação, na maioria das vezes, em vida. Quando surgiu, na Idade Média, a entrega desse tipo de honraria tinha um significado bem distinto do que existe nos dias atuais. Naquele tempo, a comenda era um benefício concedido a integrantes do clero ou das forças militares que demonstravam valentia nas lutas e batalhas travadas. Era a constatação da coragem e da fidelidade aos interesses do Estado.

Além do título em si, o recebedor da comenda, medalha ou diploma ganhava também um prêmio, que poderia ser em dinheiro, joias ou mesmo a posse de uma grande área de terra. Não raro, esses homens e mulheres passavam a integrar a corte, a fazer parte da nobreza, usufruindo de suas regalias.

Contudo, com o passar do tempo, a comenda deixou de ter valor material agregado e passou a ser a expressão simbólica positiva decorrente de ações contínuas em defesa de princípios e valores. Assim, ela deixou de ser um passaporte para o conforto e a luxúria para assumir outro sentido. Tornou-se a atestação pública das capacidades de um indivíduo que sempre agiu de maneira correta, deixando um legado para a humanidade, em maior ou menor escala.

Mas a mudança não se limitou ao formato da honraria. Hoje são diferentes os compromissos exigidos dos homenageados. Nos séculos passados, eles eram obrigados a erguer suas espadas para combater inimigos do reino. O reconhecimento exigia uma atitude permanente ancorada na bravura e na fidelidade. Porém, se hoje o comendador não precisa mais entrar em campos de batalha, por outro lado, ele nunca deve se despir de compromissos prévios e posteriores à premiação. 

Pelo prestigio que uma comenda importa aos homenageados em determinados círculos sociais, políticos e profissionais, é fundamental que o comendador mantenha a postura que o alçou ao reconhecimento recebido ou que seja fonte de inspiração para as futuras gerações. 

Se foi a produção de conhecimento a razão da conquista de um título, o comendador deve continuar seu trabalho pela propagação do saber.  Caso o motivo da honraria esteja relacionada à qualidade da produção artística, o homenageado deve estimular que outros continuem a fazer arte. Sendo o motivo da premiação o compromisso com a defesa dos interesses de uma comunidade ou de uma categoria, espera-se que esse engajamento permaneça.  E assim sucessivamente.

Porém, independentemente do motivo da outorga da distinção, uma coisa é certa: todos os comendadores devem possuir uma trajetória ancorada na justiça e em valores éticos e morais. Impossível homenagear um político, um artista ou profissional que em determinados momentos de sua história não se portou como se esperava de alguém alçado à condição de exemplo.

Ofertar uma honraria a quem cometeu falhas notórias é um contrassenso. Assim, espera-se que as instituições que outorgam os títulos estejam também atentas às suas responsabilidades no momento da escolha dos futuros homenageados, os quais não podem ser premiados com base em vínculos de amizade ou apenas com foco em um aspecto de sua vida. A premiação deve resultar de uma análise ampla e profunda da história pessoal do indivíduo e do impacto de suas ações no coletivo. 

Num mundo onde todos almejam destaque pelos seus feitos, até como forma de buscar ganhos e dividendos posteriores, é importante ter atenção redobrada para que a outorga de uma comenda, de um título ou de uma menção ocorra apenas em situações onde os fatos positivos praticados por uma pessoa sejam inquestionáveis. Agir de forma diferente é colocar em cheque a lógica e a ética do reconhecimento, o que não faz bem para ninguém.

 

* É doutor em bioética e diretor-tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM).

     

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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