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Observatório do SUS - Amapá Imprimir E-mail
Seg, 04 de Julho de 2011 10:49
Saúde está na UTI devido à precariedade do SUS
 
Relatórios do CRM-AP mostram que os problemas na estrutura da rede pública se acumulam, assim como a falta de profissionais. Há regiões com apenas dois médicos para atender 20 mil moradores
 

“Há seis dias eu trouxe minha filha, de apenas um ano e seis meses, para cá. Não havia leito e ela ficou internada em cima de uma cadeira. Uma semana depois transferiram a menina para um berço”.  O relato de Ana Maria vem na forma de desabafo: “toda vez que nossos filhos adoecem, enfrentamos a mesma situação: falta de estrutura, corredores superlotados, pouca ventilação e mau cheiro por causa da aglomeração e serviço de limpeza limitado”.
 
Está é a situação do único pronto socorro infantil do Estado. A unidade recebe pacientes do Amapá, além de crianças de regiões ribeirinhas pertencentes ao Pará. Em média o Pronto Atendimento Infantil, o PAI, realiza 600 atendimentos diários.
A Prefeitura de Macapá possui duas unidades de pronto atendimento (UPAs), que também assumem uma pequena parte da demanda com cerca três mil atendimentos por mês. Nestes locais, também existem queixas de falta de medicamentos e deficiência na prestação do serviço de saúde.
 
Estrutura - O PAI foi construído há 10 anos. Nunca sofreu modificações na estrutura para acompanhar o crescimento da população. São apenas dois consultórios. A sala de emergência possui quatro leitos, reservados para pacientes considerados em estado grave. Nas três enfermarias do PAI só existem 13 leitos.
 
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Amapá (CRM-AP) fiscalizou o PAI no dia 19 de abril deste ano. Durante a inspeção foi constatado que o local possui uma sala de ultrassom sem uso. O mais grave: a rede elétrica não suporta os equipamentos.
 
As crianças que precisam do exame são deslocadas para o Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima, única unidade de saúde que atende especialidades na rede pública.  Duas salas que deveriam servir de isolamento para casos de doenças contagiosas, não apresentam portas. O local possui apenas um  aparelho de raios-x que funciona 24 horas.
 
Relatório - O CRM-AP encaminhou relatório para os Ministérios Público Federal e Estadual denunciando os problemas e sugerindo mudanças emergenciais. O Conselho recomendou a construção de mais enfermarias e a implantação de uma nova rede elétrica.
 
A rede pública hospitalar não acompanhou o crescimento do Estado. No Amapá, de acordo com o último censo do IBGE, vivem na região mais de 600 mil habitantes, a maioria da população se concentra na capital (Macapá), que tem aproximadamente 400 mil habitantes.
 
A cidade é banhada pelo maior rio do mundo, o Amazonas.  Muitas Ilhas do Pará ficam, geograficamente, mais próximas ao Amapá e a população doente, migra para o Estado em busca de atendimento médico. A porta de entrada é o Hospital de Emergência, que concentra atendimentos de urgência e emergência como traumas, provocados por inúmeros acidentes de trânsito e pela violência urbana.
 
Sem condições - Os médicos reclamam das condições de trabalho no HE. De acordo com uma funcionária da UTI do HE, que prefere não identificar, o local tem capacidade para oito leitos, mas apenas três tem condições de funcionar completamente. Ela contou que enfrenta situações desesperadoras. “Cinco pacientes ocupavam a UTI, mas só havia quatro respiradores. Caso o quinto paciente precisa-se do aparelho ela não saberia como agir”.
 
Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia - Regional Amapá, Joel Brito Coelho, há muitos anos faltam materiais básicos para a realização de cirurgias como placas, parafusos. “O paciente passa dois meses esperando. Quando há condições de operá-lo, na verdade, vamos cuidar das seqüelas e não mais das fraturas”.
Coelho relata que já encaminhou documentos nos quais mostra a situação para o Ministério Público e a Secretaria de Saúde, mas até o momento nenhuma atitude foi tomada. “Às vezes, a vontade que tenho é pedir demissão”, relata o médico.   
 
Cadastro - Faltam leitos para acomodar os doentes. Deixá-los em macas pelos corredores foi a maneira encontrada pela direção do Hospital, mas a ação acaba gerando um problema mais grave. As macas não podem se cadastradas como leito no sistema do Ministério da Saúde e, por esse motivo, a secretaria de Saúde do Amapá não recebe por esses atendimentos.
 
É uma evasão de recursos correspondente ao atendimento de cerca de mil pacientes por mês. Não são contabilizados atendimentos de média complexidade e até alta complexidade, como, cirurgias. Para ter acesso a este recurso, a direção do Hospital de Emergência está ampliando as enfermarias para cadastrar um maior número de leitos.
 

No Hospital de Clínicas, atendimento especializado é limitado
 
Os casos considerados graves, que exigem os cuidados de um especialista, são encaminhados ao Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima (HCAL). Para conseguir uma consulta com oftalmologista, reumatologista ou neurologista, é preciso dormir na fila. Os agendamentos acontecem uma vez por mês.
 
No dia da marcação, há filas enormes e muita reclamação. No mês de abril, o HCAL abriu 500 vagas para neurologista. Aguardavam na fila mais de mil pessoas. Por causa da pequena quantidade de médicos e de salas de cirurgias, as operações eletivas estão sendo constantemente desmarcadas para dar prioridade para casos mais graves com risco de morte. Em muitos casos a espera é até de dois anos.
 
Problemas - O setor de Clínica Médica tem problemas na estrutura física. O espaço não possui leitos suficientes para atender a demanda do Estado, os carrinhos de emergência estão incompletos, falta desfibrilador cardíaco, as enfermarias possuem infiltrações, as camas estão enferrujadas e os colchões estão danificados.
 
O centro de psiquiatria, anexo do HCAL, também funciona de forma precária e necessita emergencialmente de uma reestruturação física e multiprofissional. Familiares de pacientes reclamam do ambiente. Nos fins de semana, não há médicos, enfermeiros ou qualquer outro profissional que permaneça no local como responsável.  O anexo possui 10 leitos: cinco em uma enfermaria masculina e outros cinco, na feminina. Essa ala se encontra sem higiene, aeração e iluminação e, por isso, os pacientes dormem próximo de uma área aberta.
 
O CRM-AP esteve no local em 26 de maio e identificou outros problemas, como, deficiência no abastecimento de medicamentos essenciais (antipsicóticos, antidepressivos). O material de higiene também é insuficiente, sendo que os próprios funcionários ajudam a comprar o que falta, muitas vezes. Outra dificuldade apontada na vistoria é a ausência de seguranças ou agentes de portaria, acarretando a insegurança dos profissionais e dos próprios pacientes. 
 

Falta de estrutura e de incentivos afastam médicos do Amapá
 
Mas não há problemas apenas na estrutura. Também são grandes os desafios no campo de recursos humanos. As condições de trabalho e a falta de incentivos do estado para a contratação de médicos estão afastando os profissionais do Amapá.  Existem poucos especialistas em diversas áreas, como, psiquiatria. O CRM-AP tem cadastrados apenas cinco.
 
Também faltam oncologistas, infectologistas, pediatras, neurologista e especialista em UTI infantil.  Apesar dos editais lançados pela Secretaria de Saúde para os contratos temporários, poucos candidatos aparecem. Os salários baixos, a falta de incentivos e as más condições de trabalho são os principais problemas.  Não há uma tabela pré-fixada para os plantões médicos. A rede municipal, por exemplo, paga R$ 900,00.  A do estado R$ 600,00.  No Pará, o valor de um plantão chega a R$ 1.200,00.
 
Áreas remotas - Segundo o presidente do CRM-AP, Dorimar Barbosa, outro problema enfrentado é a fixação de médicos em áreas remotas, de difícil acesso, pois as condições de trabalho são adversas para que os profissionais possam desenvolver a atividade médica.
 
“Já houve casos de profissionais que chegaram aqui com a intenção de fazer Medicina no interior do estado, mas devido às péssimas condições de trabalho pediram a transferência de registro para voltar ao estado de origem”, explica o Barbosa.
 
Se a situação já é difícil para os profissionais que vivem na capital, no interior é pior. Os médicos têm que se “multiplicar” para atender a população. O município de Oiapoque, no extremo norte do Amapá, distante mais 500 quilômetros da capital, com estrada em péssimas condições, levando até mais de 12 horas para se chegar ao município, a situação é preocupante. São apenas dois médicos para atender uma população de mais de 20 mil habitantes.
 
 
Fonte: Assessoria de Imprensa do CRM-AP
 
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